Reflexões Kantianas

 
 
 
 
 
 
 
Capas da obra Crítica da Razão Pura ( Kritik der reinem Vernunft – Riga, 1781;1787)
 
 
 
 
 
REFLEXÕES KANTIANAS – PARTE I
 
 
Vamos reflectir então um pouco sobre o texto deixado antes em jeito de epígrafe e que, não duvido, terá soado  como código a todos aqueles que não foram iniciados na doutrina kantiana. Se ouso afirmar o que acabo de escrever é na exacta medida em que, durante muito tempo, o pensamento e a linguagem do filósofo de Königsberg  repercutiram no meu cérebro, exactamente, à semelhança de uma linguagem cifrada, para a  qual não tive outro remédio senão procurar a chave. Curiosamente, Kant considerava claro o seu pensamento e apenas tomou consciência da enorme dificuldade dos textos que produzia quando lhe chegaram os ecos dos leitores contemporâneos; mas como era um filósofo e por isso, humilde, reviu o teor dos seus escritos, percebeu que, de facto, se encontrava de tal modo imbuído nos seus pensamentos e era tão prolixo no modo de os reproduzir em texto que, se ganhavam em profundidade, perdiam em clareza.
O excerto citado é de uma das suas  obras intermédias (1788) o que pressupõe, para um leitor incipiente, a necessidade de esclarecer certos conceitos sob pena de não poder efectivamente aderir à compreensão do texto. Porém, e ainda que na leitura de um filósofo possa ser tido como útil começarmos pelo início, a verdade é que no caso de Kant faz algum sentido começar pelo fim. A verdade é que jamais compreenderemos um pensamento ou uma vivência, seja de um  grande filósofo, seja de um simples e vulgar cidadão, se não nos dispusermos a tentar entender a finalidade ou a meta dos seus esforços intelectuais ou existenciais.
Uma abordagem inicial do texto poderá levar-nos a concluir estarmos perante um pensador religioso, o que efectivamente  corresponde ao grande objectivo kantiano:  a reabilitação da metafísica, afogada pelo racionalismo dogmático, de linha cartesiana. cuja pretensão foi atribuir-lhe o estatuto de ciência fundadora de todas as outras, e o empirismo céptico, cingido em absoluto à experiência sensível e, por essa razão, excluindo a metafísica do âmbito dos saberes possíveis. Por outro lado, o tempo de Kant (1724-1804) corresponde ao Iluminismo (Aufklärung); e, se a formação racionalista do filósofo o leva a aderir entusiasticamente ao sapere aude, à libertação da menoridade intelectual própria da designada Idade das Trevas, e bruscamente liberta no esforço do esclarecimento, por outro, a sua profunda educação religiosa – Kant é um pietista luterano, e no seio desta prática cristã que lhe foi incutida pela mãe, o poder do pecado e a necessidade de regeneração, o sentido do dever e a predominância da consciência moral, associados a uma profunda vivência mística entram em choque com o estrito e absoluto dogma da razão todo poderosa. Portanto, sendo racionalista de formação, estribado nos grandes pensadores da sua época, Leibniz e Wolff, Kant não se assume nunca como racionalista dogmático, visto não encontrar como justificar as grandes questões da metafísica, ao nível da pura razão.
E então, para lograr atingir o seu escopo, Kant propõe-se elaborar uma Crítica da Razão, desdobrada posteriormente em várias críticas, na primeira das quais lança a si próprio a seguinte questão: «Que posso saber?».
Ao aprofundarmos o teor desta interrogação, aparentemente tão linear, não poderemos deixar de perceber (se acaso tivermos alguma juventude intelectual  e a necessária humildade para reconhecermos as nossas inevitáveis lacunas e mesmo impossiblidades no plano cognitivo) a extraordinária qualidade de um pensador que, a partir dela, elabora a sua obra mais conhecida e mais citada, se bem que não possa ser considerada um fim em si mesma, pois serviu de meio, não só para a realização das obras futuras, mas também para a concretização dos seus planos filosóficos – A Crítica da Razão Pura.
No momento em que procede à redacção dessa obra, Kant havia já despertado do sono dogmático no qual havia permanecido até ser violentamente sacudido pela leitura de David Hume (Investigação sobre o Entendimento Humano) – o empirista radical que, centrando todo o conhecimento possível nas sensações imediatas, impossibilta a universalização do saber e logo a ciência – que não mereceu a sua adesão, a ponto de o levar a mudar-se para o terreno empirista, mas lhe fez atribuir um valor fundante à experiência sensível, ultrapassando o  carácter estático das ideias inatas, de linha cartesiana ou as mónadas, de linha leibnziana. Com efeito, a partir desse momento, Kant pôde compreender que, na escalada do conhecimento humano, tudo começa, cronologicamente falando, ao nível da sensibilidade que, pelo seu poder, enquanto instância cognitiva do ser humano, permite efectuar uma primeira síntese, combinando as sensações, captadas em bruto na realidade exterior ao sujeito através dos orgãos dos sentidos, com o poder natural e logo a priori  da sensibilidade, capaz de organizar espacio-temporalmente as impressões sensíveis, captadas de modo caótico nas instâncias sensíveis, e produzindo o fenómeno. Fenómeno, segundo a etimologia grega, significa, exacta e literalmente, aquilo que se vê e este verbo ver deve aqui ser prolongado e distendido até às outras áreas sensíveis do ser humano  e, sendo o produto da intuição empírica é, de facto, a substância básica, elementar, mas fundante, de todo o edifício do saber.
No entanto, se todo o conhecimento tem o seu advento a este nível e se o fenómeno (intuição fenoménica ou sensível) constitui a matéria-prima e a base de todo o conhecimento possível, onde as faculdades a priori do sujeito se articulam com os dados adquiridos a posteriori, não se fica por aí a capacidade cognoscitiva do homem, visto que «intuições sem conceitos são cegas» do mesmo modo que «conceitos sem intuições são vazios». E então, necessário se torna que os elementos colhidos ao nível da sensibilidade – os fenómenos- sejam transpostos para o nível seguinte – o entendimento – onde vão ser pensados, de modo a poderem transformar-se em leis universais e garantirem a viabilidade do conhecimento científico. A este nível, a intuição fenoménica, sintetizada ao nível da sensibilidade, vai funcionar como o elemento a posteriori do entendimento, ele próprio capaz de uma nova e mais subtil síntese, pois enforma o produto fenoménico nos quadros das suas categorias a priori, produzindo regras com valor para fundamentarem o conhecimento científico. E tudo poderia estar terminado, visto que a resposta à questão «Que posso saber?» é encontrada exactamente aqui, nos limites dos juízos sintéticos a priori fundadores da matemática, da física e das ciências da natureza: «Posso conhecer a ordem dos fenómenos enquadrados no espaço e no tempo.»!
Porém, a razão humana não se deixa limitar neste enquadramento espácio-temporal, no seio do qual encontraria a sua estabilidade e a garantia da sua certeza. Ela, a razão humana, tem uma outra vocação, contraditória em si mesma, mas inevitável e impossível de ignorar, sendo, como é, uma vocação e logo uma predisposição natural. E assim a razão quer ultrapassar o rigor do esforço regulador do entendimento, quer ir mais para além dos recursos emanados da sensibilidade e sintetizados com as categorias a priori do entendimento, penetrando francamente no domínio metafísico, pois é essa a sua vocação.
Ora, a razão pura (ou teórica ou especulativa) aplica-se às questões gnoseológicas ou epistemológicas e necessita estribar-se na sensibilidade, pois nada de extra-sensível pode ser dado ao sujeito e permitir-lhe a conversão sintética em conhecimento científico – o único reconhecidamente válido pois assente em verificações e deduções de carácter empírico ou experimental. E então, ao querer atingir o cerne da sua motivação básica e operar a síntese das sínteses onde conceptualizaria o Todo, o Incondicionado, o Uno, a razão embate com a impossibilidade de operar a necessária articulação cognoscitiva pois, se as ideias metafísicas lhe são inerentes enquanto estruturas a priori da sua própria natureza racional, nada lhes corresponde de empírico, pois não existe qualquer suporte na natureza que seja dado ao sujeito tornando patentes as ideias de Deus, da Alma e do Mundo, presentes no sujeito enquanto ideias a priori, mas carecendo em absoluto de substância no plano empírico. E assim, no auge da especulação racional, o sujeito cognoscente embate com a sua impossibilidade pois só indevidamente poderá aplicar as categorias do entendimento  às ideias puras da razão e, por isso, qualquer síntese daí resultante será ilegítima.
 Parece que o resultado da Crítica da Razão Pura não é muito auspicioso, na medida em que da análise da obra resultam duas respostas à questão desencadeante: Que posso saber? e, se uma afirma a viabilidade e a justificação da possibilidade do conheciomento científico, a outra nega  o avanço intelectual nos caminhos da metafísica, demonstrando que ela não é possível enquanto ciência, mesmo constituindo uma vocação natural do homem!
Porém, este resultado aparentemente  menos positivo, no contexto do qual as ideias puras da razão nela pemanecem sem qualquer apoio ou justificativo teórico, permite que a filosofia kantiana avance para a sua real finalidade e a própria razão desdobre o seu uso, assumindo-se como Razão Prática e resolvendo, nas arenas da ética, para além da pura especulação, as questões metafísicas.
Kant resolveu a metafísica? perguntar-me-ão. Respondo afirmativamente, se bem que não haja uma linha de continuidade entre os dois usos da razão, ou seja: os limites da racionalidade pura permanecem, visto que nenhum poder sobrenatural assiste ao homem capaz de lhe permitir conceptualizar Deus, a Alma e o Mundo, se por conceptualizar entendermos abstrair o idêntico a partir do diverso, ao modo aristotélico, pois nenhum elemento concreto pôde patentear-se ao homem que a tais ideias possa ajustar-se. Mas, ao apontar e fundamentar o uso prático da razão, e logo moral e metafísico e religioso no seu extremo, como via de solução das antinomias da razão pura, o filósofo de Königsberg encontrou efectivamente o caminho para a vitória do seu pensamento.

 

  

 

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