Os Fiéis e os Ídolos

 
 
 
 
 
Regina Sardoeira, O Crepúsculo da Terra  (acrílíco s/tela)
 
(A terra põe-se num cenário apocalíptico, acompanhada de uma lua em quarto minguante que não terá oportunidade de aceder nunca mais ao plenilúnio. Uma bomba atómica explode nos ares inertes; um tigre ruge a desolação do fim que também lhe foi imposta pelos que suprimiram o direito à verdade da selva; Bob Dylan segura a guitarra, rodeia com a mão o microfone…mas não canta. Os homens, sentados na praia, displicentemente, assistem à sua própria saída da existência numa alegoria hedonista de um tempo que nada pode!) 
 
 
 
 
 
 
 
 
OS FIÉIS E OS ÍDOLOS
 
 
      «Ai! Nunca foram numerosos, esses cujo coração por muito tempo se manteve cheio de coragem e exuberância; e nesses o próprio espírito se mantém paciente. Mas o resto é cobarde.
      O resto é sempre a maioria, a banalidade, o excedente, o supérfluo – e todos esses são cobardes.
      Quem é da minha raça encontrará no seu caminho o que encontram os da  minha raça; e terá como companheiros, cadáveres e saltimbancos.
      Mas os companheiros fiéis que em segundo lugar terá, chamar-se-ão os seus fiéis: enxame turbulento, muito amor, muita loucura, muita veneração ainda imberbe.
     Se for da minha raça, não prenderá o seu coração a esses fiéis; se conhecer a raça furtiva e cobarde dos homens, não acreditará nesses rebentos, nessas pradarias esmaltadas de flores.
     Se pudessem agir de outro modo, também desejariam agir de outro modo. Aqueles que não são carne nem peixe estragam tudo o que é intacto. As folhas murcham? Que há aí para deplorar?
     Deixa-as ir, deixa-as tombar, ó Zaratustra, sem te lamentares. Faz antes soprar sobre elas ventos ruidosos.
     Sopra sobre essas folhas, ó Zaratustra, e que tudo o que está murcho voe, o mais depressa possível para longe de ti!»
 
                                     Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Editorial Presença, p.191
 
 
 
    No dia em que Robert Allen Zimmerman, muito mais conhecido por Bob Dylan, completa 67 anos de idade, abro o Assim Falava Zaratustra de Nietzsche, ao acaso – se acaso existe – e leio este texto, sinto este soprar de vento sobre as folhas murchas dos fiéis, esses cobardes de todos os tempos, prontos a idolatrar num minuto e a abandonar no seguinte, e ocorre-me dedicar-lho, como oferenda, vendo nele o  prognóstico, vindo de outros tempos, a anunciar  que, também ele, Bob Dylan, seria idolatrado hoje e vaiado amanhã!  São assim os fiéis, esses cobardes, esses egoístas presunçosos, prontos a crer ( e a querer)  que o ídolo  mostra sempre a mesma face e faz ouvir sempre o mesmo som, para não os perder enquanto fiéis! Nietzsche sabia-o e sabe-o também Bob Dylan: «Sopra sobre essas folhas, ó Zaratustra, e que tudo o que está murcho voe o mais depressa possível para bem longe de ti!»
 
 
 

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