Golconda

Golconda, Cidade-Fortaleza na Índia (Ruínas)
 
 
 
René Magritte, Golconda, 1953
 
 
«Há aqui uma multidão de homens, homens diferentes. Quando pensamos numa multidão, contudo, não pensamos num indivíduo; do mesmo modo, estes homens estão vestidos de igual, tão simplesmente quanto possível, para sugerirem uma multidão… Golconda foi uma rica cidade da Índia, uma maravilha… Acho uma maravilha poder caminhar pelo céu na terra. Por outro lado, o chapéu de coco não constitui surpresa – é um artigo de complemento, nada original.O homem de chapéu de coco é o Sr. Normal, no seu anonimato. Eu também uso um; não tenho vontade de me destacar das massas.»
 
 
 
 
      A pintura de Magritte tem o singular desígnio de transportar o observador para um universo simultaneamente poético e filosófico, com todos os ingredientes de inquietação presentes nas referidas áreas da arte humana. Digo arte, sim, e não estou de modo nenhum distraída, porque quer a poesia quer a filosofia resistem ao tempo, na exacta medida em que lhes é inerente a capacidade de recriação contínua a que a pintura dá a possibilidade por inteiro. Portanto, tudo o que é técnica na poesia, na pintura, na filosofia representa somente o meio de passar para lá de todas as tentativas lógicas de conceptualização e de rigor, e de permanecer continuamente no universo puro da abstracção original onde a metafísica se ergue, qual fortaleza etérea, sempre presente, e contudo logo esfumada, quando uma mão sôfrega pretende apossar-se dela e fazê-la sua.
          Que pode haver de comum entre Golconda, a cidade-fortaleza arruinada da Índia e o quadro Golconda de René Magritte? Provavelmente apenas a palavra «maravilha» que o pintor associa à cidade arruinada e à possibilidade de caminhar pelo céu na terra, e a expressão poética sugerida pelos homens comuns e contudo portadores de uma singularidade que o banal chapéu de coco reduz à unidade.Provavelmente apenas a ideia poética associada à cidade lendária, rica de tesouros e de história, e ao homem, revestido por uma carapaça que o  reduz à designação de Sr. Normal e no entanto o destaca pela diferença, se acaso pudermos ver para além dos fatos iguais e da postura idêntica e estática. 
 
 
 
 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: