Frioleiras

 

 

 

                                                   

 

   

Johannes Vermeer, A YOUNG WOMAN SEATED AT THE VIRGINALS

 

 

 

      

                                          FRIOLEIRAS

 

 

 

 

 

         Embora sempre tenha querido convencer-me de que as mulheres só nascem mulheres por acidente biológico e que, por isso, as características que as tornam diferentes dos homens  são meras circunstâncias casuais, a verdade é que talvez eu me engane. Confesso que quanto mais observo  as mulheres – genericamente falando –  mais me convenço de que essa frivolidade gritante que lhes é apanágio será, decerto, uma questão genética. E, assim sendo, o caso é grave, precisamente porque à carga genética jamais poderá fugir-se.

          Estaremos então condenadas, por natureza, a ser mesquinhas, fúteis e vazias? Estará o acidente biológico  – leia-se, a anormalidade feminina –  apenas na demonstração de outras qualidades reivindicadas, ao longo dos séculos, apenas para os homens? É que acabei agora mesmo de ler uma crónica, assinada no feminino, e fiquei profundamente envergonhada.

          Escrever o português, com alguma correcção gramatical, respeitando a sintaxe, usando aqui e ali figuras de estilo etc. (tudo isso que permite  a um perito dizer que a pessoa sabe escrever), isso, ela até faz. Mediocremente, note-se, mas faz. O pior é o conteúdo, essa lamechice sem sentido, essa futilidade a rondar a idiotia que, na esmagadora maioria das vezes, se traduz no absoluto vazio: ou seja, é um conteúdo que não tem conteúdo.

        As  coisas passam-se mais ou menos assim: a senhora está em casa, olha para um fio solto do tapete ou para a patina de poeira esquecida no tampo da mesa e, à míngua  de outro assunto, embevece-se na contemplação destas ninharias e escreve sobre elas.

       Dir-me-eis: e porque não? Porque não pode ser o fio do tapete ou o grão de poeira matéria profundíssima de romance?

       É claro que pode, sabe-se que as obras mais grandiosas são aquelas que nascem da observação das coisas simples e por uma razão óbvia: é que tudo é simples!

       Portanto, não é disso que estou a falar, mas da inenarrável sensação de vazio que me fica quando leio aqueles textos de nada escritos sobre o nada da vida.

      É bem certo que a vida é nada: mas teremos que lembrá-lo constantemente, dando aos outros o nosso próprio testemunho nihilista? Teremos que fazer com que todos se apercebam de que a existência pode ser uma triste manta de retalhos, só porque alguém não sabe o que fazer dos seus ócios, não tem onde ocupar os dedos e agarra a caneta para espalhar no papel frivolidades?

       Reparai bem nesta palavra: frivolidades.

       Há as actividades profundas, as tarefas sérias tais como o trabalho – ah, o trabalho! – as grandes causas – ah, a política! – a acumulação de valores materiais – ah, esses sérios economistas! – (e tantas outras que não quero lembrar) –  e depois…as frioleiras!

       Observem: fazer renda, bordar, tocar piano, praticar desportos leves, escrever versos, realizar programas de televisão ligeiríssimos, desenhar moda, desfilar nas passerelles, etc., etc., vós, ó leitores, podeis perfeitamente completar a lista.

      Analisando umas e outras, acabo por descobrir que prefiro, de longe, as frioleiras. Gosto, por exemplo, de fruir a beleza dos trabalhos manuais, de experimentar, fruindo-as, as manifestações artísticas, ainda que ligeiras… que sei eu? Agrada-me imenso essa faceta pouco profunda da vida e que é comum ser desprezada pelos homens. Porque eles, os homens, são, maioritariamente, os políticos, os economistas, os responsáveis de secções e pelouros, etc., etc. Bem sei que, também aí as mulheres pontificam mas, maioritariamente, elas destacam-se, assumem-se, acima de tudo, naquilo a que chamei "frioleiras"…e fazem-no alegremente, sem complexos, o que é bom. Oxalá que os homens, sisudos chefes, maçadores executivos, bafientos negociantes com o nó da gravata sempre cuidadosamente dado, usassem também o seu superior talento na frioleira…como o mundo cresceria em beleza!…

           Que quero eu então dizer? Ou melhor: onde quero chegar com este arrazoado, muito provavelmente paradoxal?

          Apenas isto: senhoras, caríssimas senhoras de todo o mundo (e de Portugal em particular): cultivai a frioleira, fazei renda, praticai aeróbica, passeai-vos pelos salões de beleza, escrevei versos em folhas de cetim e decorai com elas as paredes, olhai, fazei tudo o que a vossa imaginação vos ditar e acreditai que, com isso, embelezareis o mundo. Mas quando reflectirdes sobre o fio do tapete ou  sobre o grão de poeira, e quiserdes fazer disso literatura, tomai cuidado: é que não podeis permitir a vós próprias transformar a literatura numa actividade frívola e provocar nos leitores uma deprimente sensação de angústia.

 

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