O Sentido da Brisa

 
 
 
Salvador Dalí
 
 
 
 
 
 
O SENTIDO DA BRISA
 
 
 
 
 
nuvens
ou talvez pedaços esparsos
de uma veste perdida
 por um deus
 ou  por um pássaro
 iam em flutuação vagabunda
 nas espirais de um tempo
 gravado na pedra das catedrais
e eu soube
como todos os outros
que nenhuma musa despertaria
do seu sono de bela adormecida
para festejar o nascimento da princesa
embora o palácio real
aberto à euforia dos festejos
anunciasse com trompetas e címbalos
a emergente natividade
 
 
havia passado o tempo
de princesas e sonhos
e submerso num outono
feito térrea submissão
de treva e desengano
miasmas sangrentos
alimentavam a seiva
de não sei quantos homúnculos abertos
às tempestades do prenúnio
 
 
porque haveríamos de cantar
a urgência da treva
quando o sol posto trazia
cintilações de alvorada
entrevistas nas íris desertas
de muitos olhares
 
 
e quando finalmente
partimos rumo à montanha
outrora nevada
uma cratera abriu
sua fauce de miséria
e eu soube
e soubemos todos
que a veste passara
e o deus bramira seu grito tremendo
de antagonismo e glória
perdida a loucura
encontrada a paz
 
 
e ninguém percebeu
o sentido da brisa

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