O VAZIO

 

René Magritte, La Magie Noire

 

 

 

O VAZIO

 

 

A página é negra

e não branca

mas a afasia natural do homem de que fala Roland Barthes

o não ter nada que dizer à partida

e enfrentar apesar disso o desafio desta espécie de escuridão

que também pode ser alvura ou claridade

toda ela contida num espaço a preencher

que talvez não precise ser preenchido

que talvez esteja preenchido demais

e por isso se tenha tornado um borrão ilegível

a afasia natural do homem aqui está

inteira

 

 

Olhem

eu nem sei se vale a pena romper a afasia

e soltar as amarras do pensamento

de qualquer modo

o que há para exprimir é um desconcerto absoluto e uma enorme indiferença

às vezes parecidos ambos com o desprezo

outas vezes mesclados de pavor

mas é sempre o presente

a arrastar-nos para o fundo

num torvelinho incontível a que não  conseguimos lobrigar o desenlace

 

Ainda ontem nos cresciam asas

e aspirávamos um sopro de infinito

crentes de que para além das nuvens

do horizonte

da montanha

nenhuma porta cederia a fechar-se

e eis que uma noite

umas horas

alguns minutos

nos tiraram o resto das vendas

e percebemos

o vazio

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