Diário de Bob

 

 

Vincent Van Gogh, O Quarto de Van Gogh ou Auto-Retrato

 

 

I

 

 

            O meu nome é Bob Tailor e dos meus progenitores só conheci a mãe, uma criatura magra, de olhos vivos e temperamento nervoso, com a qual nunca consegui identificar-me. Da minha irmã gémea, pouco consigo lembrar-me, nem sequer o nome retive, já que nos afastaram em tenra idade. Mas tenho a certeza que ela foi a preferida da minha mãe – com a qual, aliás, se parecia muito – pois, tanto quanto sei, partiram juntas um belo dia, deixando-me entregues a esta família que, aos poucos, vim a considerar como se fosse a minha própria.

            Ouvi dizer que o meu nascimento esteve envolvido em algum mistério, dado que vim ao mundo dois dias depois da minha irmã gémea, tendo características físicas e psicológicas em tudo distintas. Esta circunstância criou em mim a ideia de que não nasci, de facto, daquela mãe franzina, de traços pouco vincados – contrariamente a mim – e de inteligência vulgar, tendo vindo parar aqui por qualquer acaso indecifrável e para cumprir uma missão específica, nada comum aos seres da minha espécie.

            Sou forte, tenho olhos verdes e uma capacidade de percepção das coisas invulgar: todos os meus sentidos se empenham num objecto, quer seja de lazer ou de estudo, e nunca mais esqueço aquilo que apreendo. Sei que fui criado um pouco à margem da família de adopção: nem tudo estava sempre à minha inteira disposição, não podia mover-me pela casa com a liberdade dos outros ocupantes e, em geral, tive sempre que esperar pelo fim para obter a satisfação das minhas necessidades ou para conquistar pequenos privilégios. Adquiri a consciência da minha subalternidade na família, percebendo que, não sendo um criado – não me obrigavam a nenhuma tarefa – também não era propriamente da família, já que me recusavam certas regalias a que eu sentia ter direito.

            Por exemplo: não me era permitido sair de casa, a não ser que alguém o decidisse, o que raramente acontecia. Por isso, desenvolvi um medo terrível de tudo o que via para lá das janelas altas e, quando alguém entrava ou saía da casa, deixando a porta entreaberta, os ruídos e os cheiros do exterior, ao mesmo tempo que me fascinavam, provocavam-me uma profunda inquietação. Também não fui à escola, na altura própria, como acontecia com as crianças da casa – eram duas, de seis e quinze anos – nem tão-pouco me arranjaram um emprego, como acontecia com a dona da casa, uma profissional empenhada nas áreas da pedagogia e das artes.

            Nunca foi fácil comunicar com eles.

            A maior parte do tempo ignoravam-me, tratando-me como se eu não tivesse importância e eu, que os compreendia perfeitamente, sempre que falavam ou agiam, só em parte conseguia fazer-me entender. Acabei por habituar-me e, dado que não tinha dúvidas quanto ao afecto que todos nutriam por mim – uma vez, fui hospitalizado e pude sentir com que cuidados me trataram – passei a considerar normal aquele comportamento. Habituei-me a fazer às escondidas, o que não podia fazer à clara luz e com o consentimento de todos e, mesmo sabendo que desenvolvi comportamentos dissimulados, esmerando-me na hipocrisia, não estou arrependido, tanto mais que pude observar exactamente os mesmos hábitos nos que me rodeiam que, de vez em quando, mentem e disfarçam, uns perante os outros, com toda a tranquilidade. Se isso é normal, neles, que têm liberdade e podem fazer o que querem, inclusivamente no que concerne à intercomunicação, como haveria eu de achar as minhas atitudes erradas, tanto mais que se transformaram na única via para a minha educação?

            Foi assim que, com a acuidade visual a que já fiz alusão e me permite ver no escuro, passei a viver mais de noite que de dia, tanto mais que me deixavam dormir livremente sem desconfiarem que o meu sono diurno era a consequência de uma intensa actividade nocturna.

            Aprendi a ler com toda a facilidade, pois a filha mais nova da casa, afortunadamente, estava a começar a aprender as letras na escola e, como deixava os livros e os cadernos ao meu alcance era só apanhá-los e decifrar-lhes o sentido. A princípio custou e, às vezes tinha dúvidas, principalmente com os números; por fim, entendi que o meu domínio preferido era o das letras e descurei a matemática, a favor dos belos caracteres que havia, impressos nos livros, um pouco por toda a casa.

            Logo que percebi a técnica da leitura, desatei a ler desenfreadamente, noite após noite, tornando-me uma criatura muito culta, já que tive acesso a livros de todos os géneros, desde o romance ao ensaio literário e filosófico, desde a poesia à ciência, passando pela arte e pela religião. De dia, ouvia os noticiários e às vezes assistia a conversas sobre assuntos que me interessavam – principalmente questões ligadas ao comportamento humano, aquilo a que chamam Psicologia – e ria-me muitas vezes de mim para mim próprio, tal era o vazio de algumas das especulações feitas em torno deste ou daquele assunto, desta ou daquela personagem. Como podiam eles enganar-se tanto acerca de si próprios? Como havia eu de fazer para os levar a verem os erros que cometiam e que, aos poucos, estavam a destruir o mundo que é de todos?

            Aos poucos acabei entendendo o sentido da minha missão, percebi que eu, Bob Tailor, nascido de forma insólita, diferente de todos os que habitavam comigo, aparentemente abandonado pela mãe e pela irmã, sem qualquer identificação visível, do ponto de vista intelectual e físico, com quem, apesar disso, tinha que considerar meus semelhantes, estava ali para salvar o mundo.

            Logo que o entendi entrei numa depressão profunda.

            Através das minhas leituras tinha percebido o drama de todos os salvadores, tinha absorvido as grandes tragédias dos homens extraordinários. E era um desfile imenso de sacrificados, de loucos, de miseráveis, como se os homens não pudessem entender, no momento certo, a grandeza daqueles que amesquinhavam, para engrandecer depois.

            Jesus Cristo, por exemplo. Quantas vezes meditei, com o sentimento das lágrimas – já disse que sou incapaz de chorar, mesmo sabendo o que sentem aqueles que choram – no martírio daquele Crucificado, nas palavras e nos actos do Homem que veio salvar o mundo e que ninguém compreendeu! Mais ainda: apesar de, aparentemente, a Humanidade o venerar nas Igrejas e a sua doutrina ter feito nascer toda uma civilização e uma cultura, eu via, com toda a nitidez, que o cristianismo dos homens não passa de uma fraude oportunista, não é mais do que a resposta ora ingénua, ora perversa, para o medo profundo que inquieta o coração dos homens: eles temem perecer e encontrar o nada, temem o vazio para lá da vida carnal, temem o abismo do que desconhecem. E negoceiam com Cristo aquilo a que chamam alma.

            Não, eu não queria ser o Salvador, não tenho a ousadia de Sócrates, outra espécie de Jesus, outro incompreendido que a História venera, que a Filosofia transformou em símbolo, mas a quem a cicuta roubou a vida na Grécia antiga e que, até hoje, ninguém foi capaz de compreender e de seguir. Quem ousa, como Sócrates ousou, questionar este regime em que vivemos e se chama democracia e denunciar esta fraude clamorosa que deixa os homens cientes de que são livres, quando vivem imersos na mais profunda escravidão? Quem é capaz de pôr em prática a ironia e a maiêutica socráticas nas escolas e na vida? Ah, Sócrates, quando bebeste a cicuta, tu sabias, tal como Cristo na Cruz, que mais valia deixar os homens entregues a si próprios já que nada os salvará da cegueira! Por isso, e só por isso, vos deixastes matar.

            Também não tenho o génio de Van Gogh, nem a sua coragem, não me sinto capaz de renunciar ao conforto pelas causas da humanidade ou da arte. Também ele foi espoliado de si mesmo e morreu, lúcido, para que aqueles que amava e que o amaram pudessem gozar o preço que a morte acrescenta à genialidade ignorada em vida. Alguém te compreende, amigo? Hoje os teus lírios, os teus girassóis, as tuas cores que ninguém quis ver quando eras vivo rendem milhões aos que nunca te conheceram e que tu nunca amaste!

            Ora eu, Bob Tailor, aqui, confinado nesta espécie de gaiola, vejo o mundo passar à frente dos meus olhos, entendo-o como ninguém, sorvo-o à colherada dos livros e das conversas a que assisto, sem nunca poder participar, porque, ao que parece, a minha linguagem não pode ser entendida pelos que me rodeiam, eu, Bob Tailor, sei que tenho uma missão a realizar e que, se aqui vim parar, se a minha mãe me deixou e de ninguém me lembro que se aparente comigo é para poder cumpri-la!

            Passei os dias e as noites, ora dormindo, ora cismando. Deixei de ler, deixei de me interessar pelas conversas dos outros, deixei de ouvir noticiários, nunca mais olhei pela janela.

            Foi por essa altura que comecei a comer demais – era isso que diziam as pessoas, se bem que o meu apetite devorador me fizesse sentir exactamente o contrário – e sei que o meu peso redobrou enquanto a minha vitalidade decrescia e os membros se me tornavam flácidos.

            Nessa época, tinha descoberto o computador e tencionava prosseguir o treino da escrita – já expliquei que, antes da chegada dessa máquina à minha vida, nunca tinha conseguido escrever o que quer que fosse de inteligível – ainda que não tivesse a noção do que faria com os textos que conseguisse produzir. Porém, uma fatalidade que nada fazia prever impediu-me de continuar os meus exercícios nocturnos e – pior ainda! – afastou-me de casa durante muito tempo, precipitando-me em aventuras perigosas e levando-me a descobrir, à força, um mundo paralelo ao que até então havia sido o meu.

 

 

 

                                                                                                              (continua)

Uma resposta to “Diário de Bob”

  1. em construçao Says:

    Uma Rosa Para Ti clica*
    Beijinhos
    Senti que despertava no meu peitoum espírito amoroso que dormia:vi vir Amor de longe a mim direito,e assim tão ledo mal o conhecia,dizendo «Pensa pois render-me preito»;e palavra a palavra Amor se ria.E estando então com meu senhor, espreitopouco depois pra lá donde saía,senhora Vanna vi, senhora Bice,que vinham ao lugar aonde eu era,maravilha uma a outra assim unida;e tal como se a mente o repetisseAmor me disse: «Aquela é Primavera,e Amor se chama a outra a mim parecida.» Dante Alighieri (1265-1321)

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