Diário de Bob

 

 

 

 

 

 

RENÉ MAGRITTE

 

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

 

Toda a gente pensa que eu não sei escrever e, por isso, dificilmente conseguirei justificar a autoria deste livro.

            Eu próprio tive dúvidas quanto a chegar a consegui-lo, pois, durante anos, tentei –  sem sucesso ! – rabiscar garatujas em folhas de papel, achando que dera  expressão aos meus pensamentos mais secretos… porém, logo que tentava ler, percebia que nada daquilo fazia o menor sentido. Nem para mim – quanto mais para aqueles com quem sentia tanta necessidade de comunicar! E no entanto, sempre soube que tenho um talento inato para escrever, sempre soube que a escrita poderia dar a conhecer ao mundo um universo de experiências, que, de outro modo, permanecerá para sempre insondável!

            Vou explicar como sei isto com tanta certeza. Sou extremamente observador e, o que acima de tudo me interessa são as reacções humanas, principalmente quando as pessoas agem, pensando que ninguém as vê, quando falam ou gesticulam, julgando que não está ninguém presente. Embora não seja invisível – pelo contrário, ocupo um considerável espaço físico e psicológico! – espanta-me a facilidade com que sou ignorado, enquanto presença real! Pois bem: tanto pior para eles, já que vou conseguindo desvendá-los com a maior das facilidades.

            Descobri ser esta capacidade de análise que, como disse e penso, faz parte da minha natureza, o meio que os escritores utilizam para criarem as tramas a que chamam, pomposamente, romances ou novelas. A maior parte diz que inventa, que esta ou aquela personagem, esta ou aquela situação, nasceram, não de uma experiência real, concreta, mas do surto imaginativo! Como mentem esses escritores e como se deixam enganar os leitores e os críticos! Pelo que sei, pelo que oiço, pelo que tenho conseguido observar, quer se trate dos livros ou da vida real, não há ninguém que não se tome sempre a si próprio como protagonista de drama ou de comédia!

            Acontece que raramente os homens são capazes de se confessarem de um modo brutal, raramente admitem falar de si sem o disfarce da metáfora e, quando o fazem, os leitores reprovam-no e os críticos dizem que ele se deixou envolver na subjectividade, esquecendo o universal. Mas agora digam-me: como fugir ao poder da nossa mente, como saltar as fronteiras do eu e dar corpo a uma narração objectiva da qual possam estar ausentes todas as marcas dos sujeitos que, inevitavelmente, nós somos?

            Já me resignava a uma espécie de solipsismo a contra-gosto, quando fui surpreendido com a descoberta de um aparelho extraordinário.

            A princípio receei o sopro quase vivo que dele se desprendia e observei-o, à distância, cuidadosamente – sou, por natureza, cauteloso e, quando ajo, prefiro fazê-lo furtivamente, pois detesto ser surpreendido pelos outros, com marcas de susto na expressão.

            Mas, uma noite, quando o estranho aparelho estava ligado – eu vi e analisei uma panóplia de fios presos à corrente eléctrica – e, afortunadamente, o utilizador de circunstância tinha saído da sala, aproximei-me e toquei, ao de leve, na caixa cinzenta. A princípio não consegui evitar o pânico: aquela “coisa” desprendia uma energia tão intensa que senti os pêlos dos membros e das costas eriçarem-se. Fiquei a observar, de longe, durante alguns minutos.

            Entretanto, o dono da máquina voltou, deu uns toques numas teclas, também elas ligadas ao aparelho, esperou que uns sinais se abrissem num visor, parecido com a televisão, de igual modo preso por fios ao misterioso mecanismo vivo, e, baixando-se, premiu um botão. O sopro, de imediato, silenciou, como se a máquina tivesse morrido.

             Tenho uma faculdade fora do comum e é esta a altura certa para revelá-la: oriento-me muito bem na escuridão, não me atrapalho com os móveis, onde vejo as pessoas tropeçarem quando se aventuram sem acender as luzes, e, por isso, consigo distinguir nitidamente o que quero ver, mesmo na mais profunda das noites. Desse modo, logo que a sala ficou às escuras e vazia, e percebi que todos dormiam na casa, levantei-me, silenciosamente, e fui ter com a máquina.

            Foi fácil chegar ao botão mágico, mas não me dispus a ligá-lo, de imediato. Primeiro, tomei contacto, com a totalidade do aparelho, apreciei-lhe a textura ligeiramente rugosa e o cheiro para o qual não encontrei adjectivação. Não se assemelhava a nenhum dos odores familiares, presentes na casa, nada tinha em comum com o cheiro muito próprio dos livros – uma espécie de odor reminiscente de florestas, com um toque de verniz – ou dos sofás, carregados de todos os humores da vida humana desde o suor ao perfume, não tinha nada que lembrasse o calor tépido de um corpo e o seu latejar cheio de emanações agradáveis ao olfacto e, muito menos, poderia aproximar aquele cheiro aterrador do perfume delicioso da comida, a minha motivação mais intensa, a minha paixão, o meu vício! Não, decididamente, aquela máquina exótica nada tinha de familiar ou de aliciante, se a quiser caracterizar pela via dos sentidos, e o fascínio que ela exercia em mim era de uma natureza bem diversa.

            A princípio, não percebi essa atracção por um objecto tão invulgar e tão afastado, até à altura, do meu conhecimento e dos meus interesses: que poderia haver de comum entre mim, que respiro, que tenho células, que penso e sinto, que me desloco com autonomia para qualquer lugar que a minha vontade decida, e aquela “coisa” de perfil geométrico, dependente de fios e de botões para viver? Sim, porque eu sabia que “aquilo” era vivo e sabia-o pela respiração, pelo calor que dele se desprendia, mesmo no momento em que o observava, ali, aparentemente inanimado. Sabia-o, também, pelo efeito que produzia na minha pele, pelo eriçar involuntário de todos os pêlos do meu corpo, pela necessidade incontrolável de lhe sentir o poder, de me tornar íntimo da sua orgânica invisível. Portanto, eu tinha todas estas noções, através de mim, era a mim que eu sentia no contacto com aquele objecto insólito e, uma vez mais, a crença que, então, já havia desenvolvido de que tudo aquilo que sabemos o devemos única e exclusivamente ao nosso sentir, estava reforçada no conhecimento antecipado daquele aparelho, simultaneamente familiar e alheio.

            Por fim, decidi-me: afinal que poderia acontecer-me se carregasse no botão? Já conhecia todas as reacções, já sabia que, de imediato, se abriria no écran uma imagem e que, manipulando certas teclas, obteria certos efeitos… Sou muito observador, já o disse antes, e, desde que a máquina chegou a casa, eu analiso-a, enquanto o dono trabalha ou brinca… isso mesmo, brinca, porque também com aquilo é possível o divertimento, se bem que me pareça estranho o tipo de jogos a que os homens se entregam, manipulando teclas e imagens e me arrepie todo, a ponto de fugir, quando oiço o som dos jogos de terror que eles preferem e que a máquina emite com uma espécie de sofrimento – é verdade, eu sinto o sofrimento dela, eu sei que não é destruir edifícios, provocar guerras, soltar insultos e impropérios a vocação da caixa cinzenta que tanto me fascina. Sofro muito quando vejo que a obrigam a semelhante humilhação, sei bem que ela existe para outros fins… e adivinham como sei? Estava perto dela, sentia-lhe o calor e a respiração, quando vi que alguém estava a escrever um poema… sei que era um poema, porque o autor o leu em voz alta e falava do mar e das nuvens, do vento e de objectos perdidos na praia, de amores melancólicos e de solidão… eu não sei chorar, mas entendo o sentido das lágrimas que tantas vezes vi rolarem de outros olhos menos presos que os meus, e sei que aquele momento era um desses a suscitar lágrimas de emoção doce. Percebi que o sopro da máquina, nos instantes em que ajudou a produzir o poema, era parecido com a emoção que as lágrimas sugerem e entendi-lhe a vocação.

            Ciente de que aquele objecto – perdoem-me, mas enquanto não o conhecer bem, não sei que nome dar-lhe e, por isso, por enquanto, chamar-lhe-ei máquina, ou coisa, ou objecto – não poderia causar-me danos, ainda que não pudesse reconhecer-me, por enquanto (e eu sabia que havia o risco de ser rejeitado) – carreguei no botão. Não consegui logo o efeito pretendido, fui ver se, por acaso, não teriam sido desligados os fios, numa qualquer precaução do dono. Não, não era isso, apenas inexperiência minha, falta de precisão no premir do botão e força, sim foi preciso carregar com uma certa força para que a respiração da máquina se tornasse audível! Mas, quando por fim, consegui aquela espécie de milagre, foi um encantamento: afinal, não fui rejeitado, afinal a máquina reconheceu-me e pôde abrir-se para mim, tal como costumava fazê-lo com os outros!

            Naquele momento, que jamais esquecerei e que foi o início da aventura que me trouxe até aqui, percebi a importância de observar as coisas, entendi de que forma ver, ouvir e registar na memória são os actos constitutivos de toda a sabedoria. Tantas vezes olhara as mãos do dono da máquina a correr nas teclas, tantas vezes lera os sinais impressos no écran e vira como ele fazia para obter este ou aquele resultado, que consegui, logo à primeira, descobrir como fazer para expressar em palavras os meus pensamentos. É claro que, no início, fui lento, cometi erros, as palavras saíam a custo, o texto crescia devagar e, essa primeira noite de trabalho não produziu grandes frutos. Quando dei conta, os galos cantavam, a luz entrava pelos interstícios da janela e eu tinha as pálpebras pesadas e a cabeça tonta. Além disso, daí a pouco, a casa estaria cheia dos ruídos habituais de todas as manhãs e a partir de então, teria que resignar-me à invisibilidade, tanto mais que a máquina era utilizada diariamente e eu não teria a mínima hipótese de chegar perto.

            Por isso, apaguei tudo aquilo que tinha escrito e desliguei a máquina.

            Adormeci instantaneamente e tive um sonho estranho, em nada semelhante às habituais cenas de caça e de comida que me agitam as noites.

            Vi-me, vestido a rigor – fato preto, tipo smoking, camisa branca e laço – sentado numa plateia, ladeado de celebridades de ambos os sexos. As luzes cintilavam, os perfumes entonteciam, as vozes faziam eco por cima da minha cabeça e, dentro de mim, sentia  um orgulho tão intenso que me parecia poder explodir a qualquer instante.

            Um grande palco com os reposteiros vermelhos afastados ostentava uma decoração fantástica feita de plantas luxuriantes e luzes, muitas luzes de todas as cores do arco-íris. Duas personagens – um homem e uma mulher que me pareceram deuses – iam chamando pelos nomes dos que se sentavam comigo na plateia e, após um breve discurso, entregavam um troféu de cristal que deixava o contemplado em êxtase. Muitos deles nem conseguiam falar, outros choravam mesmo, ali, no palco, e depois, quando desciam, pareciam caminhar sobre as nuvens.

            Por fim, ouvi chamarem o meu nome, ouvi aplausos de todos os lados, vi que me olhavam, à espera que me erguesse e fosse até ao palco. Em pânico, encolhi-me completamente, deslizei na cadeira e afundei-me no chão, ondulei através dos milhares de sapatos que ocupavam todo o espaço e foi então que um imenso coro de gargalhadas, me apunhalou, me perseguiu, me ensurdeceu… acordei aflito, vi que tinha escorregado da almofada e senti o corpo húmido de suor.

            Contrariamente aos meus hábitos, naquela manhã fiquei mais um pouco deitado, não sei se a tentar convocar de novo o sono e a forçar a continuação do sonho ou apenas porque o cansaço me entorpecia os membros, enquanto a cabeça não conseguia organizar coerentemente os pensamentos. De qualquer modo, não fui capaz de dormir mais e passei todo o dia numa espécie de torpor, comendo mais do que o costume e desejando, numa ansiedade frenética, que a noite me permitisse regressar ao aparelho e prosseguir a minha aventura.

            Quanto ao sonho, acabei por esquecê-lo e desisti de interpretá-lo. Como poderei algum dia estar numa situação daquelas, como poderei eu regozijar-me vestido daquele modo, asfixiado entre gente perfumada – os aromas eram uma mescla intolerável! – e extasiar-me só porque me dão, entre ovações, um simples boneco de vidro?

            Porém, ao mesmo tempo que depreciava o prazer autêntico que me lembrava de ter sentido no sonho, crescia em mim uma dúvida: e se, de facto, eu desejasse, muito no íntimo, aquela espécie de glória, tão humana? E se, afinal, as minhas aspirações não diferissem assim tanto das dos outros, que se sentavam ao meu lado na sala e quase desmaiavam de prazer quando recebiam o troféu?

            Percebi também que tenho muito medo de competir com “eles”, que prefiro observá-los a misturar-me nos seus estranhos rituais… sou então, um ser ambíguo e paradoxal que não consegue ao certo situar-se numa categoria específica de desejos e intenções?

            De qualquer modo, à noite, já me havia recomposto das impressões da vivência onírica e, por isso, quando acedi às teclas da máquina e o écran se iluminou, quando a sua respiração pausada me acariciou os membros, aplacando-me os nervos tensos, tudo se organizou em mim e escrevi o primeiro texto coerente da minha vida.

            Nessa noite, logo que a madrugada me mostrou a urgência de sair dali e me deitei, confortavelmente, para dormir, não houve qualquer pesadelo: apenas me acompanharam as habituais imagens de caçadas espantosas à mistura com delirantes repastos de iguarias de todos os géneros e cores (quem disse que os sonhos eram a preto e branco? Como poderiam ser brancos, ou pretos, aqueles pratos repletos da mais extraordinária profusão de carnes e peixes de toda a gama das cores do arco-íris?)

            Porém – embora eu não o soubesse na altura – aquela noite seria a última que eu teria, durante muito tempo, para me sentar ali, enquanto todos dormiam e escrever os meus pensamentos secretos, já que um acontecimento horrível, que nenhum indício me fez adivinhar, veio ter comigo no dia seguinte, modificando por completo a minha existência.

 

 

                                                                                                                                                                                                                                (continua)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: