Diário de Bob

 

 

GOYA, COLOSSUS

 

 

 

 

 

II

 

 

            A minha família de adopção não era grande, nem dada a convívios frequentes com gente do exterior: raramente passavam pela casa pessoas estranhas à rotina diária, vivida, essencialmente, à volta do estudo, da música e dos programas de televisão… e do computador, é claro!

            Eram três mulheres, se é que me faço entender, visto que a mais pequena era apenas uma criança, e a mãe – uma espécie de rapariga perene, com aparência e atitudes muitas vezes levianas, mas capaz de pensamentos profundos e de extraordinárias realizações artísticas de que, aliás (parecia-me), não era capaz de tirar partido – tratava das duas filhas sozinha, não existindo, na casa, aquilo que é comum chamar-se de “pai” ou “marido”.

            A princípio, não estranhei a composição desta família: eu próprio que posso dizer acerca do meu pai? Se alguma vez o tive – e duvido – nunca o vi, não tenho a menor ideia do que tal figura significa e nunca me ocorreu questionar  o mundo sobre a hipotética personagem, ou – quem sabe? – partir à sua procura. Pai?! Para quê?

            A própria mãe não representava grande coisa na minha vida e eu tinha-a substituído com toda a facilidade por aquela mulher-menina de cabelos longos… quanto à irmã que cheguei a conhecer, nunca me fez falta e as duas crianças da casa, ainda que a de quinze anos se mostrasse mais distante, iam desempenhando o papel de companheiras com sucesso relativo.

            Não sei muito bem que tipo de sentimentos nutria por elas.

    Às vezes, procuravam a minha companhia e rodeavam-me de carinhos; bruscamente, afastavam-me de toda e qualquer convivência, privando-me dos meus pequenos prazeres e procedendo como se eu nem sequer existisse. Pela parte que me toca, sentia-me profundamente insultado e humilhado com esta invisibilidade a que era forçado: nessas alturas, detestava-as, tinha vontade de me vingar, queria poder gritar-lhes que estava ali, que as entendia perfeitamente e que podia dedicar-me a elas muito mais do que pensavam: bastava que os olhos se lhes abrissem e me vissem como realmente sou. Mas tal nunca aconteceu e, por essa razão, há uma réstia de mágoa na minha relação com elas. Bem no fundo, penso que, à minha maneira, amava de facto aquelas três pessoas, ainda que só o viesse a perceber realmente tempos depois.

Vivemos juntos, os quatro, alguns anos.

De um momento para o outro, porém, sem que nada o fizesse prever, apareceu na casa outra personagem.

Quando digo que apareceu não falo de uma simples visita sem consequências de maior, denunciada, quando muito, pelo aparecimento do odor insuportável de pontas de cigarro esquecidas, um dia ou dois, nos cinzeiros, ou de conversas barulhentas, com muita música, perdidas pela noite… Esses factos, se bem que desagradáveis, não me afectavam particularmente, tanto mais que a rotina serena dos dias e das noites era logo retomada, devolvendo-me a paz das minhas actividades de criatura tranquila e caseira.

Ora, a personagem que apareceu ali, um certo dia de Primavera, entrou para ficar, introduzindo, na casa, alterações profundas e radicais que, infelizmente, só tarde de mais fui capaz de compreender.

Era um exemplar humano do sexo masculino e foi apresentado às filhas, pela mãe, num êxtase – que me pareceu ridículo – como o futuro companheiro: tencionavam casar daí a pouco.

Percebi que a notícia chocou as duas crianças, principalmente a mais velha, que não resistiu a chorar, mas, dados os argumentos da mãe, tudo pareceu harmonizar-se e o recém-chegado foi acolhido como se de um familiar próximo se tratasse.

Quanto a mim – e pela primeira vez na vida – dei comigo a experimentar uma resistência absoluta perante a presença física daquela pessoa, recusando toda e qualquer aproximação. Aliás, pareceu-me que a aversão era recíproca, já que não recebi dele a menor manifestação de simpatia, o que me surpreendeu um pouco (ter-me-á desiludido?), visto ser a minha companhia, normalmente, bem aceite e até apreciada, pelos desconhecidos.

Que hei-de dizer sobre esse homem, antes de mostrar como ele me conduziu até experiências memoráveis?

Não sou particularmente sensível ao aspecto físico das pessoas, pelo que prefiro deter-me, de preferência, nas peculiaridades dos seus comportamentos. Porém, jamais poderei esquecer dois pormenores, visíveis, de imediato, a qualquer olhar incauto, pois estavam ali, ao alcance dos sentidos.

Os olhos eram de um azul metálico e frio, mas deslavados, como se a luz pudesse desintegrar-lhes a capacidade de ver. Protegia-os sempre com óculos escuros, só os deixando expostos, quando a luminosidade era reduzida. Aqueles olhos frios agrediram-me com veemência quando os poisou, desdenhosamente, sobre mim. No mesmo instante senti um arrepio, percebi que os pêlos sensíveis do meu dorso se erguiam contra a minha vontade. Simultaneamente, eram olhos de cachorro batido, escondia-se tortura e solidão para lá daqueles cílios um pouco macerados; porém, uma ou duas vezes que consegui surpreender esse toque de abandono, nos olhos à beira das lágrimas, vi também o quanto ele se esforçou para readquirir a pose, cobrindo as pupilas azuis de um véu de vazio.

Portanto, se os olhos são o reflexo da alma, como diz um antigo provérbio, era possível ler, no tecido desbotado que compunha o olhar daquele homem, uma consciência martirizada e dúplice, capaz do abandono das lágrimas e, simultaneamente, da frieza tirânica da maldade.

A outra característica tinha a ver com a postura curvada, já que as costas se lhe deformavam, avultando sob a forma de uma corcova que o vestuário não conseguia disfarçar por completo.

Agora que evoco aquela personagem, que descrevo os seus traços, não resisto a um esboço de crítica: como pôde a minha mãe adoptiva acolher aquela personagem da forma apaixonada que eu vi acontecer, sendo tão evidentes os traços de degeneração emotiva ao simples observar de duas características físicas?

Que significa ter as costas curvadas e sofrer de doença degenerativa da coluna, a não ser que o paciente é incapaz de flexibilidade, se afunda numa rigidez demoníaca, nele patente de forma absoluta e que era, por completo, sincronizada com o olhar brutal e metálico dos seus olhos azuis implacáveis?

Decerto que os médicos e os psicólogos desdenhariam desta minha análise: que ousadia misturar inflexibilidade com doença óssea e dar aos olhos o estatuto privilegiado de denunciadores de carácter! Decerto, para tais especialistas, a inflexibilidade é um traço de carácter e a doença óssea degenerativa um produto do quadro genético, susceptível de tratamento farmacológico!

Poderá ser como eles querem. Porém, enquanto observei aquele homem, li-lhe, nos traços da fisionomia e na postura do corpo, toda a personalidade, e fi-lo quase no imediato da primeira aproximação, quando os pêlos se me levantaram e todo eu tremi de susto.

Por isso me questionava amiúde: como é possível que esta mulher, que eu conheço tão bem, que preza tanto a liberdade, que sabe ser generosa como poucos, queira unir-se a esta espécie de monstro, no sentido absoluto do termo?

Tudo nele era repelente, até o cheiro. Ele podia tomar banho até que a pele se esfarelasse, que nenhum odor artificial conseguiria subtrair o visco bafiento de um mofo muito antigo (mais tarde vim a saber que aquele homem vivia numa espécie de caverna sem janelas, onde a pedra nua deixava escapar miasmas, e esse facto veio fazer luz no quadro incompleto que até aí traçara: quem, sendo humano e civilizado, aceita viver numa caverna e cobrir-se de farrapos rescendentes a bolor?)

Então comecei a entender um pouco das atitudes da minha mãe, percebi que ela queria salvá-lo desse bafio, dessa torpeza, que alguma coisa terá visto nos olhos metálicos dele que – admito! – se iluminavam por vezes quando olhava para ela, e o que ela vira, levou-a a ponto de achar que valia a pena unirem-se e partilharem a vida… mas eu só conseguia tremer.

Algum tempo depois vim a compreender o resto.

A minha mãe de adopção era uma espécie de escritora. Se não consigo dar-lhe o estatuto completo que tal actividade possui é na justa medida em que os textos dela se quedavam, incompletos, pelas gavetas, e apenas um ou dois livros, sem sucesso, haviam saído da confinação da casa. Mas eu sei que lhe agradaria sobremaneira publicar as obras que tinha esboçadas, ainda que me pareça que lhe faltava a pertinácia necessária para abrir caminho nesse universo. Penso que o mundo dos homens, no que concerne às artes, é extremamente contraditório e perverso, elevando até ao cume obras não muito admiráveis e por vezes medíocres, enquanto vai deixando de fora, num anonimato desolador, os que, tendo génio, não sabem ou não querem bater às portas certas.

Creio que a minha mãe pertencia a esta categoria infeliz: sendo generosa, gostaria de partilhar as suas palavras com os outros; porém, não se decidia a trilhar os tais caminhos que, de um momento para o outro, podiam guindá-la à celebridade, e ia-se deixando ficar, imóvel e ausente, numa espécie de concha muito peculiar.

Porém, de vez em quando, era acometida por uma espécie de febre e punha-se a produzir furiosamente, como se daqueles momentos inflamados fosse depender todo o futuro… e eu sei que, nessas horas, ela era, não apenas genial, mas profundamente feliz. Embora acabasse por me habituar a esta espécie de ciclofrenia lúcida e, bem no íntimo, estivesse convencido de que, mais tarde ou mais cedo ela romperia as cadeias, confesso que nada me liga a ela, no que diz respeito à criação. Sou reflectido, circunspecto, penso e ajo com ponderação e equilíbrio e, quando decido levar a cabo uma tarefa, faço-o racionalmente – como disse, compreendo a emoção, percebo o significado das lágrimas, mas não sou capaz de expandir-me por essas vias.

Ora, aquele homem, estava ali para que ambos dessem forma efectiva a uma das obras literárias dela: por isso e só por isso o tinha ido visitar na caverna, por isso, também, nela se encontraram várias vezes depois. Logo que ela se convenceu, por razões que jamais conseguirei explicar eficazmente, da genialidade do colaborador, percebeu, numa espécie de delírio místico, que estava ali a sua alma-gémea e que, precisavam de estar juntos a tempo inteiro, a fim de darem à luz uma obra magnífica. Ao mesmo tempo acreditou que poderia salvá-lo do bafio, erguer-lhe as costas curvadas, adoçar o brilho metálico dos seus, apesar de tudo, belos olhos azuis.

E então, ainda antes do casamento anunciado, ele mudou-se para esta casa, trazendo uma onda de mofo dos seus dias de caverna, mas também vários aparelhos maravilhosos, semelhantes ao computador que eu  vinha usando há algum tempo, mas capazes de muito mais maravilhas.

      Nos primeiros dias mantive-me, cuidadosamente, à margem, afastado, por aquele halo de perversidade que nos separava em absoluto, dos magníficos computadores e demais aparelhos. Senti que toda e qualquer aproximação minha seria rejeitada, percebi que jamais ele me deixaria olhar – quanto mais tocar – aquelas peças fantásticas e percebi, ao mesmo tempo, que o  sentido da vida daquele homem estava ali, que podia andar desgrenhado e coberto de farrapos, mas jamais renunciaria ao fascínio total da tecnologia que manipulava com mão de mestre.

Porém, aproveitando os poucos momentos em que ele saía de casa – de noite, com ele presente, nunca me atrevi! – cheguei a tocar nos botões mágicos e a percorrer os teclados. Acontece que ele deu conta, conseguiu detectar a minha presença, eu vi, pela modo como me olhou, que ele estava disposto a defender de mim os seus tesouros, tanto quanto fosse possível!

Começou, primeiro, a fechar a porta do quarto sempre que saía, mesmo sabendo que a minha mãe não concordava com esse gesto – está sempre tudo aberto nesta casa! Mais tarde, estendeu a sua hostilidade por mim aos meus outros hábitos: e eu vi, aterrado, as minhas pequenas liberdades e ousadias a serem-me retiradas uma após outra, com a concordância monstruosa da minha mãe adoptiva que me pareceu, em absoluto, enfeitiçada e incapaz de ver que, de certo modo, estava a cometer um crime.

Aos poucos, fui ficando sozinho, a maior parte do tempo fechado no pequeno aposento que me servia de quarto, sem poder movimentar-me livremente pela casa, sem poder participar na vida da família que, de súbito se tornou parada e monótona como nunca. A casa, habitualmente alegre, cheia de vozes e de conversas estimulantes passou a ser sombria e quieta como um túmulo. Pelo menos, foi assim que eu a senti nas semanas que durou o meu insólito cativeiro.

Quando olhava a minha mãe não conseguia reconhecê-la: passara a euforia entusiástica dos primeiros dias, a obra que os juntara não avançava quase nada e ela, contrafeita e resignada, desviava de mim os olhos, sempre que eu lhe dirigia um apelo mudo. Percebi que ela sofria, percebi que ela estava a despojar-se demais em benefício de um monstro que, aos poucos, ia lançando os tentáculos e que não tardaria a destruí-la. Soube que eles não iam produzir nenhuma obra magnífica, vi que ele era um doente mental e que a pobre companheira seria, aos poucos, conduzida ao mesmo destino. Que poderia eu fazer?

Nada, já que a cegueira da paixão se apossara daquela mulher feita de fogo.

Nunca senti paixão fosse por quem fosse, mas reconheço, nos outros, essa doença, vejo de que modo ela tem um poder, quase sempre destrutivo, quando comanda os destinos da humanidade, quer se trate do arrojo sanguinário dos heróis das batalhas, quer se limite à força individual que atira os humanos uns sobre os outros na ânsia delirante da posse. Ora, aquela mulher a que tenho chamado mãe, é uma apaixonada e só consegue agir no fogo do entusiasmo, só faz, seja o que for, quando animada por essa espécie de febre irracional cujo nome é, entre os homens, paixão. E sei que ela se orgulha de ser assim, sei que prefere deixar a vida correr no improviso dos desejos fanáticos e que não se importa de cair bem fundo, desde que antes tenha andado a consumir-se, bem perto do sol! E então que podia eu fazer – repito – tanto mais que outras pessoas haviam tentado (em vão) suster tal avalanche?

Foi por isso que, num dia quente do princípio do verão, decidi abandonar a casa.

Aproveitei uma hora em que todos haviam saído, percorri os aposentos, numa espécie de despedida muda – não pude ver os computadores, fechados à chave, como se de um tesouro se tratasse – e, sem qualquer espécie de bagagem (eu não tinha nada a que pudesse realmente chamar meu) – abri devagarinho a porta e saí.

 

 

                                                                                                                 

 

 

                                                                                                                 (continua)

 

           

 

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