Diário de Bob

IV

 

 

Vincent Van Gogh,  Ameixieira Florida

 

 

IV

 

 

           

 

            Durou apenas meio ano a minha experiência na Casa Assombrada – foi assim que passei a designar aquele antro mesquinho, onde as coisas perdiam a cor e as pessoas se transformavam numa espécie de fantasmas. Sim, porque o Vasco – tal era o nome do meu raptor – tinha muitos amigos e amigas, todos de idade indecisa, todos ladrões, drogados e vagabundos… e eu, sempre que havia visitas, escondia-me no vão mal iluminado de uma escada, e esperava o fim do pesadelo.

            Ali acontecia de tudo.

            Às vezes, as conversas, prolongadas até de madrugada, tinham laivos de literatura e tocavam questões de natureza política ou filosófica: já que não havia televisão nem livros, fui sabendo, através delas, os sucessos da política nacional e internacional e obtive a narração dos escândalos e de todas as notícias do exterior. Nunca participei nessas tertúlias, nem tão pouco me mostrava muito, pois isso não parecia agradar ao Vasco que tinha um medo terrível que eu quisesse sair. É verdade: aos poucos, tornei-me o amparo psicológico daquele rapaz, sempre famélico, sempre com uma luz demoníaca no fundo dos olhos castanhos e secos; simultaneamente, dei comigo, mais uma vez, encarcerado, integrado numa existência que não saberia explicar ao certo, perdidos pais, irmãos e referências!

            Penso que, por causa disso, e para fugir ao tédio das horas do dia em que ficava completamente só, comecei a ler as minúsculas revistas, guardadas nas prateleiras do armário, em perfeita ordem.

A primeira coisa que me feriu foi a crueza de certos títulos.

Fiquei a lê-los, um após outro, a interiorizar as palavras em destaque, a remoer, num espanto que me eriçava os pêlos do dorso – sou muito sensível nessa zona do meu corpo! – o sentido daquele conjunto de frases absurdamente espantosas.

Depois, fechei as revistas e olhei as capas.

Invariavelmente traziam mulheres de uma beleza vulgar e espalhafatosa, em poses provocadoras – eu não diria provocantes ou eróticas –, ou casais jovens em posturas cheias de malícia. Ostentavam um nome feminino – Susana, Dina – e o seu tamanho sugeria consultas discretas ou ocultamento no escuro das bolsas das mulheres. Eram, como logo percebi, revistas femininas – ou dirigidas a um público feminino: há diferença nestas duas categorias – e a sua tiragem semanal, aliada ao preço baixo, sugeriram-me edições consideráveis e, portanto, muito público-leitor.

Folheei-as e li alguns artigos.

Superficialmente, tratavam de todos os assuntos, desde as intrigas das novelas televisivas, até aos pormenores banais da vida dos “famosos”, passando pelas receitas de culinária e de beleza e, – pasme-se! – chegavam a deter-se em psicologia e numa ou noutra abordagem científica, assinada por  doutores!

Obsessivamente regressei aos tais títulos. E desde logo os misturei todos numa dança frenética de palavras, curiosamente atravessadas por um cunho existencial muito peculiar.

 

 

Quero a mão dentro da vagina, menti e disse-lhe que sou virgem, ele engravidou outra mulher, gosto que me bata no acto sexual, sou ajudada por um homem casado e muito ciumento, faço-lhe telefonemas obscenos, pede que lhe morda o sexo, apaixonei-me por um gay, acaricia-me a vagina em público, serei ninfomaníaca?, será que ele me engana?, o meu pénis é torto, pratico sexo no gabinete, serei gay?, fazemos muito barulho na cama, tenho orgasmos ao telefone, amo duas mulheres, faço colecção de filmes pornográficos, visto a roupa interior dele, serei lésbica?, excito-me com um professor, quer que lhe bata, sinto dores na vagina, não tem erecções, masturbo-me após o acto sexual, a mulher do meu amigo beijou-me, adoro a penetração anal, quero trocar carícias com outro casal, não quero sexo anal, quero ter sexo com outro homem, o médico percebe que me masturbo?

 

Li com um estranho desagrado alguns dos artigos deste modo intitulados e senti-me muito deprimido, pois nenhum dos assuntos ali mencionados me parecia ter qualquer relevância em termos de informação cultural – era assim que eu entendia, até ao momento, a existência e o valor de livros e revistas – e não era capaz de assimilar a vantagem prática do aconselhamento que se seguia às insólitas questões dado por supostos psicólogos. Muito menos compreendia a razão que levaria o meu ex-carcereiro e actual amigo a trazer consigo para casa todos os dias dezenas e dezenas das referidas revistinhas.

Vim a percebê-lo mais tarde, muito perto do fim da minha estadia na Casa Assombrada.

Soube que, apesar de ladrão e de drogado, o Vasco era uma espécie de filantropo ou moralista e elegera como missão existencial à sua escala, privar os consultórios médicos e outros locais públicos, onde fazia as suas investidas, de semelhantes publicações! Pareceu-me um bem estranho motivo para permanecer vivo, mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de nutrir por ele uma secreta admiração mesclada de pena pois, por muito que trabalhasse, por mais que percorresse sem cessar todos os antros onde tais revistas correm, céleres, de mão em mão e de olhos em olhos, como iria ele conseguir isolar o mundo de semelhante deboche literário?

Um dia, ao ver-me absorto na leitura, ele riu-se e comentou:

– Sabes? Eu sei que apreender essa sujeira dos quiosques e salas de espera não terá poder para acabar com a edição de tais abortos mas, pelo menos, estas que eu trago (e se vires bem tenho aqui milhares) não serão lidas, nunca mais, por ninguém! Penso que deste modo poderei estar a contribuir, à minha escala, para a limpeza do mundo!

Dei-lhe razão, claro. Mas ao mesmo tempo entendi que estava perante mais um idealista, semelhante à minha mãe adoptiva, tão criativa e tão ingénua em simultâneo, e que, ao saltar de uma vida para a outra, pouco tinha afinal evoluído em termos de conhecimento da espécie humana.

No dia em que mantivemos este curto diálogo sobre o roubo das execráveis revistas e seu motivo, o Vasco estava mais animado do que o costume e, olhando à sua volta, desatou a rir e propôs-me:

– Vamos incendiar esta lixeira?

A princípio não entendi por completo a ideia dele, pensei que estava a referir-se somente às revistas e acedi, com o entusiasmo moderado de que sou capaz: porém, cedo o vi despejar uma lata de um líquido mal cheiroso de uma cor avermelhada por cima, não só da estante das revistas, mas sobre mesas, cadeiras e até sobre o pobre catre que lhe servia de local de repouso. Achei que ele havia, definitivamente, enlouquecido, pois, enquanto atirava jactos do produto sobre todo o espaço, ria e tropeçava, encharcando-se ele próprio e rolando pelo chão viscoso, e eu, temendo pela minha sobrevivência (os meus instintos extremamente acutilantes entram em choque, de imediato, com a razão logo que pressentem a ameaça vital) aproveitei a insanidade temporária do Vasco e corri para a porta, que entretanto aprendera a abrir, disposto a sair dali logo que possível.

Foi então que o desastre aconteceu: o Vasco acendeu um fósforo, atirou-o para o meio do aposento e tudo se abriu numa súbita fogueira envolvendo papéis, móveis, estilhaçando os míseros vidros e, coisa acima de todas aterradora, abrangendo o corpo do rapaz que nada fez para escapar das chamas! Ignorou os meus esforços para o dissuadir da imolação, continuou a rir e a executar uma espécie de dança estulta e eu, Bob Tailor, só pude fugir daquele local com todas a energia de que fui capaz!

Escondido num beco próximo do armazém abandonado, cedo ouvi as sirenes de carros da polícia e de bombeiros, assisti ao modo como apagaram o incêndio e vi, com o terror e a emoção das lágrimas que não consigo verter, o Vasco ser transportado numa maca, inconsciente ou morto (nunca pude vir a sabê-lo!) para uma ambulância que o levou a alta velocidade dali para fora.

Uma vez mais entregue a mim mesmo e ainda desconhecedor, em absoluto, daquele mundo feito de ruas e casas, de gente e de veículos barulhentos e malcheirosos fiz o que havia feito há seis meses atrás: desatei a correr sempre para a frente, com os mesmos resultados da minha primeira e, até então, única corrida.

Foi bastante mais fácil, porém, esta minha derradeira fuga do que as circunstâncias de que me lembrava do meu primeiro contacto com o asfalto e os automóveis em delírio por ruas atravancadas. Estava frio e seco, podia correr sem aquela antiga e ainda memorável sensação de visco a colar-me ao chão os membros transidos; e assim cheguei, sem saber muito bem como, a uma espécie de largo com uma estátua de mulher no centro rodeada de pombas e, arquejando, deixei-me cair na relva, ligeiramente húmida.

Mal tivera tempo para me recompor da emoção e do cansaço quando ouvi chamarem o meu nome e o som era tão comovente e familiar que bruscamente fui invadido por uma calma tão intensa que só pude abrir a boca num bocejo prolongado.

Quando olhei, vi, como no meio de uma névoa brilhante, os cabelos longos e o rosto bem delineado da minha mãe adoptiva! Ela olhava-me com espanto mesclado de ternura (assim me pareceu) e, sem transição, fez um gesto mudo de convite e empurrou-me para dentro do carro, cuja porta deixara aberta. Por instantes senti o pavor antigo regressar, vi, como que em delírio, a corcova do homem monstruoso rescendendo a bafio de caverna e quis fugir, agarrei a porta com toda a força que ainda me restava e lutei pela minha liberdade. Foram em vão os meus esforços pois, com mão firme, a minha mãe adoptiva fez-me deslizar para o assento e olhou-me de um modo cúmplice como que a dizer-me que tudo estava resolvido e poderíamos doravante ser felizes.

Não me lembro de chegar a casa nem dos dias que se seguiram. Julgo que caí de cama com uma febre nervosa ou qualquer coisa do género, mas nada posso garantir quanto ao teor do meu sofrimento, se é que foi mesmo sofrimento, pois o tempo da minha recuperação foi de uma doçura indescritível. Um dia acordei e percebi que a casa onde nascera e de onde o intruso de olhos metálicos me havia feito desertar, recuperara toda a sua antiga placidez, ainda que dois ou três sinais denunciassem despojos de batalhas ainda não removidos. Havia um espelho partido, duas cortinas arrancadas, alguns quadros rasgados com a tela pendente; mas, como se não dessem por nada, as três mulheres, se bem que uma fosse ainda uma criança, pareciam mais unidas que nunca e, de momento, nada interessadas em remendar os rasgões. Acabei por restabelecer-me, ganhei a minha antiga vitalidade e um dia, quando a casa toda dormia, fui até à sala onde o velho computador, tão familiar como sempre fora, jazia inerte no seu apoio de madeira polida.

A princípio hesitei. Qualquer coisa mudara em mim durante aqueles meses insólitos, uma súbita e intensa necessidade de aderir por inteiro à minha autêntica identidade que, afinal, pouco ou nada tinha a ver com livros, televisão, artes e, como é óbvio, computadores. Porém, por outro lado, eu desejava muito narrar a minha história, tentar demonstrar, num esforço talvez superior à minha capacidade e inteligência, que também eu e, quem sabe, todos os que a mim se assemelham, temos vivências importantes, protagonizamos factos memoráveis e que, se estamos no mundo e dele nos apercebemos, ainda que nem sempre de modo nítido e pleno, é para podermos, dele, dar também o testemunho. Foi por isso que subi para a cadeira, carreguei no botão que – eu sabia-o! – abriria a luz fulgurante de um belo ecrã azul e, de um momento para o outro, seguro de mim como jamais estivera antes, comecei deste modo a minha narrativa:

 

O meu nome é Bob Tailor mas eu sei que só sou chamado deste modo porque um belo dia, há muitos anos atrás, julgo que durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos trouxeram um dos meus antepassados do Japão, o qual cedo se miscigenou, expandindo a linhagem, pelo menos de modo parcial. Segundo outros relatos, essa migração forçada terá acontecido por volta dos anos sessenta, altura em que a minha estirpe superior foi reconhecida no ocidente. Sou, portanto, oriundo do Japão e a minha linhagem remonta ao século VII, estando desde sempre associada a acontecimentos marcados pela sorte, pela prosperidade e pelas ocorrências felizes. O nome originário dos meus antepassados deveria ser qualquer coisa como Maneki-Neko, um título auspicioso entre os nipónicos; porém, logo que americanizado, por força da tal expatriação a que fomos submetidos, tornou-se Bobtail o que, em termos sonoros, nada tem já da língua do país das minhas referências étnicas.     

Sabendo isso, a minha mãe adoptiva decidiu baptizar-me como Bob Tailor, se bem que eu não seja americano, muito menos japonês, mas nascido e criado em Portugal, mais exactamente nesta casa onde escrevo e que me viu nascer, estranhamente, um dia depois da minha irmã gémea, que em nada se me assemelhava.

 

Fisicamente, sou muito elegante e esbelto, ainda que dotado de uma excelente musculatura, o que me torna um exemplar masculino pleno de atractivos. Se acrescentarmos ao retrato físico que de mim acabo de fazer, as minhas peculiaridades psicológicas ou de carácter, sem querer parecer vaidoso ou auto-complacente, afirmo, com toda a segurança, que sou propenso à tranquilidade, pauto-me por uma rigorosa escala de valores, onde a fidelidade avulta e, se me torno amigo de alguém, o que acontece com toda a facilidade, nada me arreda dos meus afectos. A curiosidade é outra das minhas tendências, o que por vezes traz dissabores sendo, contudo marca de génio aqui, no Japão, ou mesmo na América, países que me dizem respeito, mas para os quais não creio vir algum dia a viajar. Não tenho nenhuma dificuldade em adaptar-me, desde que o ambiente garanta a minha estabilidade física e emocional, gosto muito de conversar, se bem que o faça de modo assaz característico e perceba que nem sempre sou entendido pelos que me cercam, ainda que eu, Bob Tailor, os entenda perfeitamente, sem excepção.

Que companheiro mais precioso poderia desejar aquela que me habituei a considerar como mãe adoptiva, perdida a legítima em tenra idade, se, ainda por cima, pouco ou nada exijo dando-lhe em troca, e por inteiro, a fidelidade de que me sinto capaz?

          Efectivamente, nós, os felinos, não temos nada em comum com esses outros companheiros dos homens – os cães – que abanam a cauda e se deitam no chão como se fossem meros tapetes e, em pouco tempo, aprendem a fazer as mais humilhantes tarefas só para lhes agradarem. Não, nós, os gatos, precisamos acima de tudo de cultivar a independência, o que não significa que não estejamos dispostos a reconhecer quem nos ama e  acedamos a amar em retribuição…mas nunca permitimos que nos ponham uma coleira e nos exibam como troféus por praças e ruas. E, sabendo eu que os meus antepassados nipónicos foram venerados e transformados em ícones nos templos, poderia alguma vez sujeitar-me ao jugo, à escravidão?

          Eis pois que eu, Bob Tailor, sou, de facto, o senhor do meu lugar e, mesmo depois de escorraçado pelo meu rival de olhos faiscantes, cheiro nauseabundo e coluna torcida, consegui magicamente regressar, por instinto, ao local da minha origem e, vejam só! tive a percepção exacta do momento, pois à hora do meu regresso já o intruso havia partido para não regressar nunca mais!

 

 

                                                                                       

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