AMIZADE

 

 

 

                        AMIZADE (SOB  O  MOTE  DE  A QUEDA  DE  CAMUS)

 

 

 

 

Editora Verbo, Colecção RTP       Editora Livros do Brasil          Editora Bestbolso (Brasil)      

 

 

                                                                                                  

 

 ALBERT CAMUS                                                                         Contracapa/ Editora Livros do Brasil

 

 

                                                                                 Sinopse
"Posso oferecer-lhe os meus serviços, meu caro senhor, sem me tornar importuno? Receio que não saiba fazer-se entender pelo respeitável gorila que preside aos destinos deste estabelecimento". É assim, desta forma quase casual, que se inicia A Queda, porventura a mais fascinante narrativa de Albert Camus, uma espécie de viagem ao fim da noite das infâmias da espécie humana. Um homem, que se assume como juiz-penitente, comenta para um ouvinte que se adivinha simultaneamente perplexo e arrebatado as várias histórias exemplares que para ele representam a lista desesperante das pequenas fraquezas e dos grandes crimes. "Quando não se tem carácter, é preciso recorrer a um método." Esta frase dá o tom do livro…

 

 

 

                                                                               

 

 

«Nunca teve uma súbita necessidade de simpatia, de auxílio, de amizade? Sim, com certeza. Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, não nos impõe nenhum compromisso. «Creia na minha simpatia», no discurso interior precede imediatamente, «e agora ocupemo-nos de outra coisa». É um sentimento de presidente do Conselho: obtém-se muito barato, depois das catástrofes. A amizade é menos simples. A sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meio de nos desembaraçarmos dela, temos de lhe fazer frente. Sobretudo, não acredite que os seus amigos lhe telefonarão todas as noites, como deviam, para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se, ou, mais simplesmente, se não tem necessidade de companhia, se não está com vontade de sair. Oh, não, se telefonarem, esteja descansado, será na noite em que já não está só e em que a vida é bela. Quanto ao suicídio, a isso de preferência o empurrariam, em virtude dos deveres para consigo próprio, segundo eles. Deus nos livre, caro senhor, de sermos colocados muito alto pelos nossos amigos! Quanto àqueles cuja função é amar-nos, quero dizer, os pais, os parentes por afinidade (que expressão esta!), isso é outra cantiga. Têm a palavra necessária, sim, é verdade que a têm, mas é mais a palavra-bala; telefonam como quem dispara uma carabina. E acertam no alvo. »  Extracto de A Queda, de Albert Camus

 

 

 

 

Sempre que oiço pronunciar a palavra amizade (ou quando a leio)penso inevitavelmente neste texto de Camus. E cito-o. Com muita frequência. E cito também este:

 

 

 

«Sabe, ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto de que havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós? Se eu próprio seria capaz? Escute, gostaria de ser, sê-lo-ei. Sim, seremos todos capazes, um dia, e será a salvação. Mas não é fácil, porque a amizade é distraída, ou, pelo menos, impotente. O que ela quer não pode. Acaso, no fim de contas, não o quererá bastante? Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, arrumar a homenagem entre o copo de água e uma gentil amante, nas horas vagas, em suma. Se algo nos impusessem, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto de fresco que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós próprios.» Extracto de A Queda, de Albert Camus.

 

 

 

 

…E, depois de citar, espero as reacções dos possíveis ouvintes (ou  leitores) e percebo o constrangimento, o silêncio, o  baixar de olhos (as reticências, no discurso escrito, a página vazia, as palavras vagas…)

Sei então que não há amizade, embora a palavra seja usada e abusada por todos, sei que estamos sós, absurdamente sós num mundo atulhado de gente… e sabem porque o sei? É que quando estamos na prisão e dormimos na tábua dura, ninguém se deita em casa, no chão, por nós!

Mas, quando eu digo estas palavras, citando ainda Camus, olham-me com espanto agressivo e aí falam, para dizer: "Ora, de que é que isso serve se o amigo está preso e, dormirmos ou não no chão, não o libertará da prisão???"

Ah, esta lógica do comodismo, esta lógica cruel do nosso conforto e do direito que a ele temos, mesmo que o nosso amigo esteja em sofrimento!  «A amizade é distraída, ou pelo menos impotente; o que  ela quer não pode.» É isso, está claro, primeiro estamos nós e os nossos confortozinhos pessoais, depois estamos nós e os nossos problemazinhos pessoais e, quando podemos libertar-nos um pouco de nós próprios, já é tarde: porque entretanto o amigo, por quem não nos deitámos no chão quando esteve na prisão, a quem não telefonámos todas as noites, só para lhe perguntarmos se estava bem, se não era exactamente naquele dia que ele pretendia suicidar-se, saiu da prisão e reencontrou o seu caminho ou deu um tiro na cabeça e já não precisa de ninguém! E nós, nem sequer admitimos que fomos responsáveis pela dureza da tarimba do prisioneiro, pela dor solitária do suicida. Mas fomos!!!

Por isso, não me venham falar em amizade, quando o máximo de que sois capazes é de uma simpatia ténue que a nada obriga, não me venham falar de amizade quando o máximo de que sois capazes é de uma rosa virtual numa página dura, sem rosto humano!

 

 
 
                                                                                     ***************************
 
          Pertencente a uma família operária, Camus cresceu na Argélia, onde estudou filosofia. Posteriormente, filiou-se na França no Partido Comunista (1934-1935) e em 1940 aderiu ao movimento da Resistência contra a ocupação alemã, sendo um dos fundadores, naquele mesmo ano, da revista Combat (foi redactor-chefe de 1944 a 1946). Em conjunto com Jean-Paul Sartre, com quem teve uma boa amizade até 1952, foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Como tal, influenciou de modo decisivo o sentimento vital e a concepção do mundo da geração de intelectuais rebeldes da época do pós-guerra. Camus expõe a sua filosofia sobre o absurdo da existência humana no ensaio O Mito de Sísifo (1942) e no romance O Estrangeiro (1942), que assumiram o status de escritos programáticos. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que, na realidade, carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. No romance A Peste (1947), no qual aparecem todos os temas de sua obra, a beleza do instante só é percebida quando se produz a ameaça da epidemia. A dimensão política desse romance, um dos mais lidos do pós-guerra, aprofunda no que é extrapolável a qualquer situação de resistência política, que, do ponto de vista de Camus, tanto podia ser a resistência francesa como o movimento de libertação argelino contra a França. Em 1954, Camus tentou em várias ocasiões actuar como mediador no conflito da Argélia. Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957. Camus faleceu num acidente de automóvel. Outras obras suas são: O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), ambas obras de teatro; O Homem Revoltado (ensaio, 1951) e A Queda (reportagem, 1956).

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta to “AMIZADE”

  1. Maria Fernanda Says:

    Leio muita verdade neste texto mas também muita amargura e, atrever-me-ia a dizer, também algum desalento…A amizade constrói-se e necessita de alicerces para não sucumbir às inúmeras tempestades com que depara… acredito que, raríssimas vezes, uma rosa virtual, numa página dura, sem rosto humano, possa ser o início de uma amizade, mesmo que virtual. e que, por isso, não deixa de ser valiosa e verdadeira..acredito também que, quase sempre, seja desprovida de qualquer sentimento semelhante ou próximo da amizade.
    Deixo-lhe um beijo com a amizade que até ao momento pude construir e que, mesmo insuficiente, não deixa de ser sincera e deixo-lhe também a minha admiração pela frontalidade e forma como abordou a questão…talvez devesse fazê-lo de uma forma mais pessoal..não sei bem porquê, fiz questão de a deixar aqui
    Fernanda

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