JOGOS

 
 
 
 
 
Dríade (Escultura de Fauno, presente na Exposição de Escultura, Arte Pública, em Sintra, hoje inaugurada.)
 
 
 
 
 
JOGOS
 
 
 
Não gosto de jogos em geral, principalmente dos designados «de azar» ou «de sorte», que os dois termos andam juntos à semelhança das faces opostas de uma moeda. Certos jogos (talvez todos!) derivam de regras e, por isso, logo que conhecidas e bem treinadas pelos praticantes, o desafio é insignificante pois a mestria levará à vitória certa ou, se a resolução do jogo não depender apenas da mestria e o azar ou a sorte aí tiverem, portanto, o seu lugar, eis-nos  de novo no enunciado inicial: não gosto de jogos! Dependem de regras pré-estabelecidas e também de acidentes ou de circunstâncias que decidirão a vitória ou a derrota, em última instância. Portanto, participar (ou mesmo observar ou assistir) num/a um jogo, cujo desenvolvimento não se entende, por desconhecimento total ou parcial das regras e, ainda por cima, sabendo que, mesmo havendo as tais normas a respeitar, pode ficar-se dependente de um acaso que decidirá o resultado das jogadas, parece-me, no mínimo, pouco inteligente.
Ora, uma certa forma de escrita em uso na actualidade (pelo menos em Portugal), um modo muito peculiar de encher páginas e páginas de livros designados ( a priori, ou a posteriori) como romances, assemelha-se, em tudo, a um desses jogos, alguns deles com as regras explícitas, outros sem quaisquer regras expressas (e, portanto, implícitas, ou do conhecimento apenas de quem  escreveu, ou nem isso) e, portanto sujeitos à lei do azar ou da sorte.  Do azar ou da sorte do leitor, quero sublinhar, pois o autor, a partir da hora em que dá o seu livro ao público deixa de ter sobre ele qualquer espécie de poder.
Vem este interlúdio ( reparem na permanência da palavra jogo em «interlúdio»)  a propósito  do romance "Ontem não te vi em Babilónia" de António Lobo Antunes.
Não vou mentir acerca do efeito que esta leitura produziu em mim e, por isso, direi que li o livro exactamente até à página 114, num esforço tirânico para vencer a enorme sensação de angústia que a narrativa ( se é que de narrativa podemos falar) me provocou, linha após linha, parágrafo (?) após parágrafo, página após página. Angústia, sofrimento, uma sensação terrível de participação num pesadelo. Depois disso, folheei o livro, capítulo a capítulo, até à página 479 ( a última!) e li a frase derradeira: «porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.», e foi então que agarrei decididamente o volume e o coloquei na estante, dando por terminado o pesadelo.
Pouco importa tudo o que li acerca do livro ou acerca do seu autor, pouco importa que certos leitores e críticos (sem dúvida eruditos excepcionais) se tenham dado ao trabalho de percorrer todas as linhas do pesadelo e feito a partir daí interpretações e exegese. Por nada deste mundo lerei uma linha mais, correndo o risco ( todavia calculado!) de não poder enfileirar na lista dos eruditos…paciência! Prefiro, de longe, a liberdade mental da minha vigília povoada, dos meus próprios sonhos, que a prisão alucinante ao desespero psicótico da meia dúzia de personagens elípticas e quase indiscerníveis que povoam este romance.
Sei bem que as insónias ou os pesadelos ou as visões psicóticas da racionalidade demente poderão corresponder à narrativa sincopada, absurda, torrencial, tresloucada de António Lobo Antunes em "Ontem não te vi em Babilónia". Mas não experimentei o mínimo deleite, psicológico ou estético na leitura das 114 páginas que ainda assim fui capaz de ler. Dir-me-ão que não é esse o objectivo do livro, que o autor quis exprimir os seus próprios infernos, a sua própria loucura, a sua própria insónia ou pesadelo, lançá-los para o papel em 479 páginas de terror, libertar-se deles e deixá-los ir…não creio que António Lobo Antunes consiga ler este livro agora que o escreveu, nem creio que o deseje, nem me parece que isso tenha agora para ele a menor importância. Compreendo-o inteiramente visto que, como disse antes, logo que publica, logo que a obra se expande e encontra leitores, sejam eles quem forem, ou críticos, ou até instituições capazes de a premiarem, o autor ausentou-se em definitivo e pouco poderá acrescentar para lá do que permanece escrito. Portanto, arredado o autor da obra, pelo mesmo processo que torna o filho estranho à mãe que o gerou, apenas é cortado o cordão umbilical e o nascido se encaminha para a sua própria maturidade e autonomia, fica apenas o leitor, essa testemunha, esse cúmplice ou esse inimigo, e ele fará do livro o que quiser.
Quanto a mim, ousei deter-me na frase final e entendi-a de diversas maneiras. Em primeiro lugar, se é o autor que fala quando diz «aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.» a mensagem para o leitor é clara e eu fiz a experiência: era de noite, estava a ler na cama, apaguei a luz, abri o livro e olhei para ele – nada vi! E, como o texto não estava em braille, nem um cego conseguiria operar o prodígio da leitura às escuras. Chamei o meu gato ( ele consegue ver no escuro!) pus-lhe o livro à frente, folheei-o e percebi que também ele se desinteressou dos caracteres impressos, limitando-se a cheirá-lo, a arranhá-lo ao de leve, posto que, num jeito muito próprio deste meu felino, se deitou sobre o livro, primeiro e, mais tarde, adormeceu tranquilamente com uma das patas sobre a página aberta. Como adormeceu tranquilamente, não creio que tenha lido fosse o que fosse do romance, pois nenhum  pesadelo o assomou. «Aquilo que escrevo pode ler-se no escuro, pois eu próprio escrevi no escuro» talvez possa ser uma segunda interpretação, e posso garantir que percebo exactamente o que isso significa: é a tentativa suprema de apanhar a corrente do pensar e do sentir sem permitir  que a lógica se intrometa, deixando correr os dedos que escrevem ao mesmo tempo que o pensamento se organiza, desorganizando-se continuamente. Ler no escuro, permitindo  que a nossa própria torrente se enuncie nos meandros da prolixidade inexorável do pesadelo ou da insónia do autor e então, dispensar por inteiro a descrição inclemente dos pesadelos entrecortados, das frases recorrentes, dos suspiros gemebundos desta galeria que habita a mente de Lobo Antunes, e determo-nos na nossa própria avalanche, no usufruto da nossa própria insónia, na vivência do nosso próprio pesadelo.
Ler no escuro, ou seja, nem sequer ler, porque não vale a pena e aqui encontramos, talvez e por fim, a honestidade plena do escritor que nos convida a fechar o livro, seja lá em que capítulo  for, porque após 479 ginas  em nada teremos sido acrescentados e só nos restará um nó ansioso na garganta estrangulada.
Curiosamente, é neste repto final de "Ontem não te vi em Babilónia" que absorvo a grandiosidade do escritor, comparável (uma vez garantidas as distâncias devidas) à frase com que Wittgenstein termina o Tratado Lógico-Filosófico : «Sobre aquilo que não se pode falar deve manter-se o silêncio.». E poder-se-á falar do pesadelo, da insónia, do terror das horas percorridos pelo delírio do cansaço ou do desespero, poderá conceptualizar-se toda essa torrente agónica e atirá-la para um leitor desprevenido, como se ele pudesse ser o cúmplice de angústias sofridas na escuridão povoada de um autor? Parece que ao cabo de 479 páginas, António Lobo Antunes caiu em si para entender que havia levado longe demais o desenrolar da sua própria angústia e deu ao leitor a solução: «Lê no escuro aquilo que eu escrevo, porque também em ti tens a matéria dos meus pesadelos, fecha o livro deixa a minha mágoa intacta…não vês que me servi de ti para lhe dar escoamento?»
"Ontem não te vi em Babilónia" obedece às regras de um jogo que é preciso conhecer ou descobrir ou inventar enquanto se vai lendo, e, como não gosto de jogos, não gostei das 114 páginas que mesmo assim cheguei a ler; no entanto, tal como acontece quando, ao fazermos palavras cruzadas não conseguimos encontrar  o sinónimo que falta para resolver a charada, recorri às soluções e lá estava ela, na página final, na linha derradeira, como resposta para a angústia de não termos compreendido a narração: « porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.»
 
 
 

Uma resposta to “JOGOS”

  1. MAZINHA Says:

    A capacidade que a alma tem….de ler no escuro é tão intensa que o perispírito o faz com simplicidade….
    a alma é o cérebro mortoque ressurge das cinzas e faz coisas tão simples quanto uma pessoa viva….
     
    Mistérios de Deus……
    somente….
     
     
     
    beijos Regina
     
    Marilis

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