O Pulo do Lobo, um esboço de exegese

           

 

 

 

 

O PULO DO LOBO, UM ESBOÇO DE EXEGESE

 

 

 

                                                                                                       

 

 

 

 

           

 

 

 

            O Pulo do Lobo é um romance e se, segundo Hegel, pode constituir-se como uma espécie de “epopeia burguesa moderna”, deve situar-se, contudo, muito para além do convencionalismo desta definição do século XVIII, já que a sua génese ocorre no ano de 2005, absorvendo e sintetizando todas as sucessivas recriações e transformações da arte do romance, ultrapassando o mero conceito de narrar uma história, à semelhança do pioneiro Dom Quixote na arte de efabular, para se deter e ater à concepção de Alain Robe-Grillet ou Margueritte Duras, segundo a qual o acto de contar uma história, e assumir-se, portanto, como mera narrativa foi transcendido dando origem ao nouveau roman.

            De facto, O Pulo do Lobo transgride as noções clássicas do espaço, do tempo, da própria verosimilhança, transgride as normas do discurso convencional, subverte as linhas do discurso romanesco e converte-se em poesia, drama, ensaio e ainda pode constituir-se em roteiro cinematográfico, de tal forma é visual e plástico.

            O leitor erudito nega a ficção, rejeita o romanesco e prefere acostar-se ao rigor esquemático ou científico daquilo a que chamará a verdade; e contudo, o romance no seu sentido vivo e contemporâneo, para poder resistir e manifestar-se enquanto género literário, acopla em si todos os outros géneros e constitui-se em obra total. Rolland Barthes afirma que a «única verdadeira crise do romance acontece quando o escritor repete o que já foi dito ou quando deixa de escrever».

            Com estas considerações preliminares pretendemos dizer que, se a partir do século XIX, é anunciada a crise do romance e o erudito se afasta, preferindo os géneros ditos sérios, ou a poesia, o facto, evidente e comprovado por uma plêiade de romancistas notáveis, é que a metamorfose foi ocorrendo e a narrativa romanceada foi reerguida com novos contornos, retendo o seu papel e crescendo em profundidade.

            O Pulo do Lobo entronca nesta categoria pois, constituindo-se enquanto narrativa, percorrendo os acidentes existenciais de uma trama envolvendo personagens e sítios, vai muito para além da linearidade de uma história, desocultando a matriz psicológica, filosófica, metafísica e plástica de situações vividas, de percursos interiores e suas repercussões externas, de acontecimentos, ora inverosímeis, ora simbólicos, cuja interpretação ou assimilação possibilitarão exegeses múltiplas.

            Os protagonistas, sendo homem e mulher, representam o que de uno e múltiplo subsiste à categoria humana tanto mais que, enleados na esteira existencial de Joana e Sérgio, outras personagens-símbolo emergem, guindadas, também elas, à categoria de protagonistas, visto que constituem a condição do desvio, na linearidade vivida até ao momento do encontro.

            No que diz respeito a Sérgio, María, a inverosímil «internacionalista das artes», a sevilhana em fuga da ancestralidade ubíqua da mansão paterna, representa ocasião de experiência emotiva no ápice da paixão incendiária e corrosiva, da tragédia e da vinculação macabra a um filamento de ser que merece as honras de um funeral catártico e, subitamente, a necessidade de recolhimento à sombra secular da casa dos franciscanos.   Joana, porém, vai em demanda de valores excêntricos, procura o oculto, desvendado nos minaretes da Mesquita-Igreja de Mértola e nos símbolos omnipresentes da cultura da Vila-Museu e, enquanto se evade das cinzas de uma vivência tida como pacífica e decisiva com o pesquisador da morte, o arqueólogo Pedro de Castro, continua a procurar o subterrâneo, nas linhas de uma pós-graduação em Estudos Islâmicos, na longínqua Sevilha.

            Percorrem caminhos territoriais inversos: Sérgio vem de Sevilha, onde realizou o último ritual catártico, fazendo o funeral do filamento de filho que, simultaneamente, nasceu e morreu sem nunca ter vivido; e, numa ilusão em conflito com a pujança física da carne e dos sentimentos anímicos, corre a martirizar-se, entregando-se, presa de uma fé mais do que frágil, à sombra do Convento. Joana vai para Sevilha, vinda de um território tido como seu, o norte de Portugal (perdido na descoberta abrupta de um outro modo de ser, português e simultaneamente de muitas outras identidades, dentro dos muros da Vila-Museu) encontrado de novo no âmago de um desconcerto que a leva a sentir-se estrangeira, onde antes era patrícia, e logo fugindo em demanda do sortilégio perdido. E é então que estas duas personagens foragidas vêm a cruzar-se no abismo pré-histórico do Pulo do Lobo, esse fenómeno natural, quase virgem, quase livre da mão humana, muito mais adequado aos saltos das feras que lhe dão o nome e ao voo furtivo de cegonhas negras, raras e pouco vistas, mas figuras omnipresentes do lugar.

            É deste modo que o Pulo do Lobo começa a desempenhar o seu papel, um papel que é humano, um papel que nenhum rochedo, nenhuma gota de água, nenhum salto de nenhuma fera pôde representar, mas que se torna palpável na descida ritualística que ambos fazem ao poço dos seus ruídos mais secretos, antes de levantarem voo para os ares que supõem ser a sua redenção.

            O Pulo do Lobo metamorfoseia-se deste modo no salto ruidoso e temível para um despenhadeiro físico, psicológico e espiritual e, ao mesmo tempo, no levantar da queda abissal em direcção ao vórtice das alturas. Esta metamorfose é vivida em simultâneo pelos dois protagonistas que ali aportam sem prévio acordo; mas, enfrentando-se inevitavelmente, olhos contra olhos, no espaço deserto e demasiado bravio para admitir desvios ou jogos de disfarce, vendo que da diferença entre ambos crescia a identidade, nos picos da necessidade catártica, não conseguem largar-se mais, mesmo sabendo que cada um deles leva um destino, consciente e racionalmente traçado e que, dessa traça, a verticalidade que transportam, urdida nos desencontros do passado, não admite desvio.

            É o imperativo categórico da ética kantiana, a formulação que afirma a necessidade absoluta de tratar o outro e a si mesmo sempre como um fim e nunca como um meio, esse mandamento por demais conhecido e tido como norma de vida para Joana, e logo servido a todas as horas ao companheiro de breves dias, que medeia entre ambos, que lhes limita o desejo anímico de se fundirem após a constatação da identidade existencial pressentida nos momentos de contemplação sobre o abismo geológico. E, numa assumpção fiel dos seus próprios desígnios existenciais que os levam em sentidos opostos, acobertados pelo rigorismo ético do preceito kantiano, impeditivo de se usarem a si mesmos e reciprocamente como meios, querendo ser fins em si mesmos e um para o outro, encontram-se e logo se largam na renúncia ao compromisso fácil, na preferência do trilho que acreditam necessário.

            O Pulo do Lobo é, deste modo, uma trama existencial e metafísica, onde o vigor das pulsões anímicas, incendiárias e trágicas que Joana e Sérgio transportam consigo, tecidas e consolidadas nos percursos anteriores de cada um, serenadas no auge de decisões finais em que ambos estão, de facto, em fuga de si próprios, crendo ter encontrado o caminho, se abate na defesa rigorista e sem apelo da ética kantiana em conflito com a existência. Joana recusa servir-se de Sérgio como meio para se deter no gozo do instante, afastando-o da sua decisão de tomar o hábito, mesmo percebendo que aquele homem ferido procura o olvido por detrás de paredes austeras, no convívio com um deus em que mediocremente crê; recusa servir-se de si mesma, dando vazão aos impulsos violentos dos sentidos, despertos naquele encontro ritual, pensado apenas para si mesma e afinal partilhado a contra gosto. Sérgio aprende a respeitar a necessidade ética da companheira inesperada, sente que não está de modo nenhum pronto para novo enlace, ferido ainda pelas convulsões espasmódicas da união com a «internacionalista» María e vai até ao seu porto, encerra-se, volta-se para o espírito, confronta o seu corpo ferido, a sua mente torturada com o benefício da contemplação e desentranha-se, emerge na sua própria luz.

            Há algumas personagens adicionais, presentes na obra, não como meros adornos ou figurantes, mas com a necessidade absoluta que os faz participantes activos no desenrolar dos percursos de Sérgio e Joana. Sara, a mãe de Sérgio, expressando, em simultâneo, a função de ícone para o filho mas também ocasião de escândalo, e, contudo, nessa mesma medida a oportunidade de crescimento na passagem do adolescente para a maioridade; Lucas, o franciscano de vocação, o teólogo convicto e logo o homem, em contenda com a flagelação dos sentidos e a necessidade violenta da queda na sensualidade; Paulo, o filósofo, excêntrico e lúcido, idealista e crente na inevitabilidade de uma redenção da filosofia enquanto serviço, enquanto prática; artista virtuoso e contudo atento ao rosto humano, à palavra humana, geradores da possibilidade da desocultação inevitável.

            O Pulo do Lobo é, deste modo, toda uma galeria de arquétipos e cada um deles é e não é a personagem que representa e à qual foi aposta uma designação onomástica: porque, nas linhas dos seus percursos, é todo um destino existencial de humanos em busca que se desenha.

            Os próprios locais por onde as personagens se encontram e desencontram – o Pulo do Lobo, em primeiro lugar, mas também Mértola e Sevilha – assumem a categoria palpável de personagens impregnadas da humanidade, que, em si mesmas, pode ser que não possuam mas que ganham, na trama que os humaniza inexoravelmente.

            O Pulo do Lobo deixa de ser, nas linhas deste romance, mera marcação turística, por onde vagueiam os curiosos, munidos de objectivas, tentando captar o prodígio, para se metamorfosear na simbólica dos saltos existenciais, no mergulho necessário nas origens, no baptismo fervente no mar turbilhonante, na ascese rumo aos píncaros da espiritualidade máxima, na experiência do perigo, na eminência palpável da catástrofe. O Pulo do Lobo começa a ser, a partir do momento em que esta obra foi criada, a metáfora das quedas necessárias, o apelo da morte pelo regresso ao dilúvio bíblico, a transfiguração revigorada no parto prematuro de um ser que não estava apto para a vida, porque gerado na inconsciência, e logo filho indevido de uma falsa união. Mas transforma-se também na necessidade premente da subida, para além do abismo, para além da paisagem árida que serve de moldura ao fenómeno natural, representa o momento necessário de reencontro do âmago de cada um, mas logo a necessidade urgente de pairar um pouco acima do voo rasante da cegonha, muito para além do salto, afinal exíguo, do lobo. O Pulo do Lobo representa ainda, para as personagens do romance, a oportunidade de vivenciar momentos excepcionais de evocação íntima, espaço/tempo privilegiado de meditação e apelo, de celebração ritual na mística dos sentidos, na epopeia da alma e do espírito. É o ponto nevrálgico da nostalgia ou da saudade, vocábulo e conceito com que a história se inicia, pois é esse sentimento simultaneamente luso e universal que empurra Joana para as planícies do sul de Portugal 

            Mértola é lugar de passagem ou de iniciação, logo a marca mítica pende, inflexível, sobre todos os recantos do lugar, desde a Mesquita-Igreja e o Castelo medieval, ladeado pela estátua equestre de Ibn Qasi, O Senhor de Mértola, passando pelo casario, térreo na sua maior parte e esmagador de brancura, até ao ar seco e pesado próprio de um clima que não admite meios termos ou brumas ou frios rigorosos e à aridez de montes escalavrados, semelhando proeminências lunares, e incluindo até as gentes, de linguajar estridente e quase incompreensível, de cenho franzido e temperamento desconfiado. Mértola é, ainda, a encarnação viva, e logo paradoxal, da necrópole, como se um imenso cemitério fosse o chão privilegiado por debaixo das ruas, e tudo, nessa terra condenada a estiolar, em todos os sentidos possíveis da palavra estiolar, fica explícito na designação de Vila-Museu que lhe foi justamente aposta. Espaço sagrado, por excelência, Mértola não foi nunca a sede pacífica da morada de Joana, ali prisioneira, ali confinada, feita emigrante no próprio país; porém, o sortilégio do local seguiu-a quando rumou ao norte e fez-se ocasião de nostalgia. É no ritual do regresso que a encontrámos, rendida à planície, à secura, à transcendência e à esteva.

            Sevilha representa o acúmulo de vários sonhos, desde as vivências exóticas de María, na tempestade de um ser marcado para um destino aristocrata e apesar de tudo rugindo, de sangue bárbaro e explosivo, em fuga da prisão das tradições, para um destino internacionalista e errante; mas Sevilha é ainda o deslumbramento da Andalucia, o esplendor da féria de Abril, o odor da flor da laranjeira e do jasmim e o festejo do vermelho, cor que lhe dá sangue e seiva, cor que lhe faz acolher a morte e reanunciar a vida.

            Por isso, os sítios de O Pulo do Lobo perdem, muito cedo, o seu cariz de pontos circunscritos no mapa ou na fotografia, para se alçarem a um poder mais amplo, enfileirando na categoria das personagens vivas.

            Merecem destaque nesta reflexão as características peculiares do epílogo que, partindo da raiz grega da palavra – aquilo que se acrescenta ao que foi dito – permite à autora desocultar-se da trama onde esteve envolvida sem contudo o querer estar por completo, visto consentir em disseminar-se por personagens esculpidas na hora. De facto, neste epílogo, o que a autora acrescenta ao que foi dito não tem já uma relação directa com a história que naquele momento havia cumprido o seu papel; o epílogo é o anúncio de que a autora existe, corporalmente falando, a autora esteve lá na modelação das personagens e do verbo e, na hora-limite em que a história cerra as suas portas, faz um apelo ao leitor para que cumpra, também ele, o seu papel de criador.

            O Pulo do Lobo não é uma narrativa fechada, sugere finais e possíveis percursos existenciais, mas não os desvenda, e então, aquele que lê, terá que tornar-se parte integrante do périplo existencial das personagens e constituir-se também como outro dos protagonistas. É este o repto lançado ao leitor no epílogo, este convite à leitura activa e participada em que cada um pode ser ora Sérgio, ora Joana, ora Paulo, ora Lucas, ora María ora uma síntese inextrincável de todos eles, visto todos terem a consistência viva de pessoas em busca de si mesmas.

            Quanto à autora, podemos dizer que, de facto, foi ela que se sentou ao volante do seu carro naquele dia dos princípios de Abril do ano de 2005, foi ela que usou a escrita para combater a nostalgia de que fala logo no início. Não estava nos desígnios da autora escrever nenhum romance, não havia traçado plano, ou decidido um roteiro. Como qualquer verdadeiro viajante que deixa os caminhos serem os seus guias privilegiados, pôs a mão a correr sobre as teclas e deixou-se ir, galgou alguns quilómetros, fruiu sensações, verteu uma ou duas lágrimas. Mas, de repente, como se qualquer poder transcendente começasse a guiar-lhe a mão em labor, ela transmutou-se, enquanto personagem residente da obra. E, quando Joana sai do carro em plena planície alentejana, ao faltarem dez quilómetros para chegar a Mértola, percebemos que a pessoa que assim se levantou, no rigor implacável da paisagem, tem uma outra estatura e um outro cariz psicológico. É necessário perceber que também a obra encerra um ritual de passagem, também nela, e à medida que a história vai nascendo, se cumprem as metamorfoses necessárias: e a Joana que se refugia no Pulo do Lobo para escapar ao predador, ignorando que ali mesmo vai deparar-se com aquele de quem desertara, já pouco tem a ver com a dona das mãos que a princípio se senta ao volante do seu carro e parte numa viagem catártica. Desse modo, qualquer uma das outras pessoas, engendradas a partir do acto propulsor da escrita, inicialmente biográfica, é um alter-ego da autora, um desdobramento: María, e os seus ofuscantes caracóis vermelhos tem o poder de materializar a ânsia de fuga, a coragem da excentricidade e da cisão com os ancestrais, o gosto de se passear pelo mundo, como anarquista, como Aquela Que Passa, como internacionalista das artes, sempre rodando, sempre caminhando, com a cicatriz cigana no ventre a indicar-lhe, quando rubra, que chegou a hora de partir, que ali não pode ser porto, que ela não pode ter porto; Sérgio é a feminilidade de Joana, sedento de afago, homem, e contudo carente do regaço materno, vivido, e no entanto, inocente como se houvesse acabado de nascer, mostrando uma multiplicidade de cambiantes, pois escolheu o teatro para se exprimir e prefere a representação no palco às glórias da vida real; Paulo é a voz mais profunda de toda a trama e também a mais idealista, capaz de se ausentar do mundo de todos para dar corpo à utopia de uma missão em prol do todo e persistindo na rota do utopismo mesmo quando vê cair em frangalhos o sonho da sua vida; Lucas e Sara são personalidades antitéticas, mergulhadas no misticismo religioso até às entranhas, entregues por vocação a uma missão monástica ou quase, e contudo, irradiando sensualidade, presas dos sentidos, como se em simultâneo não pudessem aliar as duas vocações mas para essa aliança tivessem que ser constantemente atraídas.

            A autora foi assim deixando caminho aberto para uma galeria, ora concreta, ora abstracta de figuras e, com elas, deu corpo a um romance de tese, pois não pôde nem quis escrever à margem de uma filosofia da existência, que poderá ou não ser a sua, mas que quis tornar palpável a cada um dos leitores.

            De facto não é a filosofia kantiana, e muito menos a ética rigorosa e rigorista do imperativo categórico, a base da formação filosófica da autora de O Pulo do Lobo, pelo contrário. Na exacta medida em que a sua formação de filósofa entronca, acima de tudo, nos aforismos nietzschianos, nos ditirambos dionisíacos ou na fluidez dançarina dos cantos de Zaratustra, a autora de O Pulo do Lobo parece romper com a superabundância pagã do seu autor de eleição para se quedar, teimosamente e como que à revelia de si própria, no mandamento ético que transforma no fundamento existencial de Joana, capaz de, na sua convicção, contagiar a formação algo débil, em termos filosóficos e éticos, de Sérgio, o seu inesperado companheiro de trajectos.

            A tese que subjaz à trama, urdida no imperativo categórico de Kant, obriga cada uma das personagens, essencialmente as protagonistas, a colocarem a ética e o respeito pelo dever acima dos intensos apelos existenciais emanados pelos seus próprios sentidos e servidos na amplidão de uma paisagem indomada, como é a do Pulo do Lobo. Por causa dessa tese, fio condutor de toda a história, nenhuma das figuras que compõem o enredo ousa forçar-se a si própria e ao outro rumo a caminhos que não sejam, reconhecida e assumidamente, o seu próprio dever. E, quando resvalam, no império incontível das emoções e acedem a trair as marcas que trazem em si como ferretes do mandamento ético, necessitam de se redimir, ora de si para si mesmos, ora uns em relação aos outros. Este cenário psicológico e sentimental é o pano de fundo da vivência de Sérgio e de Joana, mas também de Sara e de Lucas e mesmo do filósofo Paulo; apenas a internacionalista María zomba do rigorismo, caindo no extremo oposto, desafiando deveres e tradições, ignorando as regras e o respeito que, segundo a tese da obra, cada um deve a si mesmo e ao outro. Por essa razão ela é vitimada, destruída, impedida de dar à luz, no ápice de uma tempestade improvável nos rochedos do Pulo do Lobo. De forma menos marcante mas também presente, o arqueólogo Pedro de Castro desafia o rigor ético do kantismo, na sua atitude dúbia e escarninha, no modo impúdico como engana Joana, a mulher que a ele se acolhera e que ele quis envolver na mistificação algo abjecta de um triângulo conjugal. Também dele sai morte, também dele rompem emanações existenciais sombrias.

            Deste modo, a tese forte do romance não exprime as concepções filosóficas da sua autora, antes emerge da transmutação anunciada, quando Joana sai do carro e deixa de pertencer à mão que no teclado a ela se soldou no início. Ou seja: o rigor do imperativo categórico é a postura existencial de Joana e torna-se sensível desde o início, quando o livro apresenta a descrição física da personagem: «Secou os olhos e o fulgor castanho das pupilas reacendeu-se neles. Joana tinha um rosto largo de maxilares pronunciados e bem esculpidos e a testa alta sugeria força. Não chegava a ser rude a expressão marcada da boca carnuda, mas não emanava dela nenhuma espécie de doçura. Naquele momento tinha, no jeito entreaberto dos lábios, um esgar de triunfo, uma antecipação de vitória, nem ela saberia dizer porquê.» (p.8) Determinação e rigidez, eis o aspecto externo desta mulher, estatura acima da média, porte imponente como marcas de uma vontade que não admite desvios; e é esta criatura habituada a planar sobre a vulgaridade, habituada a impor-se, enquanto presença física e postura psicológica, que marca a linha ideológica do romance, não cedendo um milímetro, mesmo quando a ternura emerge ou os conflitos passados desentranham a sua marca traumática.

            Nessa medida, Joana é o elemento necessário da sublimação de todas as outras figuras, primeiro na pessoa de Sérgio, mais tarde na experiência mística do encontro com Esperanza, a mãe de María, através do qual se torna capaz de unir as pontas de um encontro prematuro, potencialmente aberto ao tempo seguinte.

            Através de Joana a autora alienou a sua própria concepção do mundo; mas fê-lo em que medida? Para provar através dos percursos de Joana e de Sérgio que nenhum imperativo ético se compadece da experiência emocional onde outros imperativos se agigantam? Para justificar a necessidade de equilibrar o mundo, seguindo o rigor do filósofo pietista ou dar conta da patente utopia e contradição de semelhante preceito? Para enfatizar, através das fugas ou pseudo-catarses das personagens que, afinal, a internacionalista das artes, ao despenhar-se no Pulo do Lobo, ao recusar dar à luz o filho que não queria, encarnou efectivamente, ela, e não Joana ou Sérgio, o carácter de martírio daquele que ousa ser, apenas ser, e não dever-ser, à semelhança das plantas e dos bichos?

            Ou será que a autora não se alienou, enquanto pensadora, na sua própria obra, e caberá ao leitor sondar, para lá do rigorismo imposto ao vigor indeclinável de Joana (a máscara aparente da escritora de O Pulo do Lobo) a fonte jorrante de um ser a necessitar abrir as suas comportas mas a fazê-lo, apenas, a partir do momento em que, por sua decisão, o seu papel de personagem termina, ao mesmo tempo que a história?

            Parece que O Pulo do Lobo, se lido com a necessária atenção, para lá das linhas, no cerne das entrelinhas e ainda para além delas, poderá fornecer múltiplas leituras, tornando-se desse modo uma obra que é necessário absorver e discutir.

 

 

 

 

 

 

 

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