Sacerdotes

 
 

Marc Chagall
 
 
 
 
 
 CITAÇÃO:«Infelizmente vivo para a escrita como se fosse um sacerdócio e como não sou sacerdote não consigo viver dela.»*
 
 
 
Auto-designo-me filósofa (de facto nenhuma enciclopédia contém o meu nome nesta categoria) e, para fazer por inteiro jus à classificação, urge que dê corpo à reflexão: não basta viver como filósofa, nem sei se  será possível viver como tal neste mundo tão desfasado de pensamento e logo de filosofia, e então se nem viver ao modo dos filósofos me é inteiramente possível, ao menos deixa-me usar o pensamento para analisar o que  ouço, o que vejo ou o que  leio.
Tempos houve em que era difícil publicar pensamentos, tempos houve em que o escritor necessitava passar por um forte crivo para que as suas palavras, uma vez escritas, pudessem assumir estatuto público. Mesmo nesses tempos, nem tudo o que era bem urdido saía à luz, nem tudo passava noutra espécie de crivo, não exactamente o traço azul da censura, mas outros critérios capazes de aferir, separando o publicável do não publicável.
Hoje é fácil: escrevem-se meia dúzia de linhas, bem ou mal articuladas, carrega-se num botão e eis um texto publicado, aí, frente a um público imenso que pode de imediato aceder-lhe, apropriar-se dele e fazer, também de imediato, a crítica. E assim nasceu outra espécie de livros, estes em fragmentos, lançados dia a dia neste espaço público e colectivo a que podemos acorrer, a que podemos dar o nosso aval, a que podemos aderir, de que podemos discordar.
Partamos então do princípio de que, quem assim ousa escrever e publicar, quer, de facto, ser lido e, mais do que isso, quer que aquilo que publica seja vivenciado e dinamizado por aqueles que lêem, um pouco para além do comentário estreme ao fundo da página. Partamos do princípio que esses textos que nos vão caindo debaixo dos olhos têm a substância própria da literatura  e que, como fazemos com os livros de papel, a eles podemos aceder para realizar a crítica.
Foi assim que decidi transcrever esta frase (cuja fonte deixarei em rodapé [se acaso esta página tiver um rodapé, senão terá que ser inventado ou dispensado]) e, de três palavras usadas pelo seu autor, farei a substância deste meu comentário.
Começarei pela mais importante no contexto a que desejo aceder: «sacerdócio».
O sacerdócio, no sentido literal da palavra, é o processo que conduz alguém a tornar-se ministro de uma religião, é o estado a que chegou aquele que fez a preparação para este ou aquele ministério. Do sacerdócio advêm os sacerdotes ou seja os ministros religiosos, aqueles que, após uma preparação mais ou menos longa, se tornaram dignos de ministrar ensinamentos, práticas, rituais e por aí adiante. Ministrar quer dizer estar ao serviço de  uma causa, religiosa, no caso do sacerdote religioso ou leiga caso o ministério seja de outro teor. Porque há-de alguém tornar-se sacerdote, a ponto de fazer da sua vida um sacerdócio? Obviamente por razões de intrínseca vocação, nascida de um apelo interior e cultivada de modo teórico-prático consoante o objecto vocacional. Se o autor diz «vivo para a escrita como se fosse um sacerdócio», isso pode significar que aderiu a uma vocação sagrada e fez da sua existência uma ocasião de ministério, não no contexto de uma religião, no sentido comum da palavra religião, mas ao nível de uma tarefa na qual se revê, para a qual se sente talhado e com a qual pretende prestar um serviço a outrem, visto que não há qualquer outro modo de entender a palavra «sacerdócio» e o «viver para a escrita» num tal contexto. E esta afirmação «vivo para a escrita como se fosse um sacerdócio» elevar-nos-ia a alturas extremas, pois o verdadeiro sacerdote dá-se a uma missão, dando-se aos outros: para isso se sentiu chamado, para isso se preparou, disso quer dar testemunho. E tudo estaria bem não fosse a palavra «infelizmente» que antecede a afirmação da escrita como sacerdócio e a vida a tal ministério dedicada.
Como pode alguém ser chamado a um ministério – é esse o sentido da vocação – dedicar a sua vida a tornar-se, pelas vias possíveis, sacerdote e logo aceder à concretização do chamamento e sentir-se, no auge dessa vivência, infeliz por ali ter chegado? As explicações poderão ser efectivamente dadas; mas não serão abonatórias para o sacerdote.
Vejamos: será que não tinha de facto vocação e percebeu, em plena concretização do sacerdócio, que não era aquele o seu lugar?  Será que, vendo escolhos no caminho do ministério que escolheu, se arrepende de por ele ter enveredado, tendo como resultado a infelicidade? Será que o ministério, só por si, não lhe chega, querendo outros benefícios a que achou ter direito e que agora não recebe, tornando-se, desta feita, infeliz?
Se a frase terminasse por aqui ficar-nos-ia a dúvida, o espaço para a imaginação, a bruma de um sofrimento indeciso, onde o sacerdócio da escrita,  condição de vida, é também condição de sofrimento. Mas eis que o autor acrescenta: «e como não sou sacerdote não consigo viver dela.». Querendo jogar com  o sentido da palavra «sacerdócio» e «sacerdote», inventou uma espécie de charada, no interior da qual o óbvio e o obtuso se interimplicam. Viver para a escrita como um sacerdote é elevado, sublime, divino; significa que se foi capaz de aceder ao despojamento de outras recompensas, de todas as recompensas e que a escrita é o lugar privilegiado do ministério existencial, a escrita no sentido puro, a escrita como forma de expressão e ocasião de dádiva, a escrita como processo de auto-crescimento e modo de acrescentar o mundo. Porém, o que significará «Vivo para a escrita como um sacerdócio» e «como não sou sacerdote não consigo viver dela»…«infelizmente»?  Alguém que afirma viver para a escrita como um sacerdócio e depois que não é sacerdote, ou está envolvido num paradoxo, em que é e não é sacerdote simultaneamente, ou joga com o sentido implícito e explícito das palavras sacerdócio e  sacerdote, querendo significar, na primeira parte, que é elevado, superior, despojado, sublime, mas que no confronto com as necessidaddes comezinhas do quotidiano não consegue fazer da escrita sacerdócio…porque, e eis o que está implícito, certos sacerdotes tiram proventos do seu sacerdócio e este sacerdote particular (que o não é, embora viva a sua escrita como um sacerdócio) não consegue fazer o que fazem os outros…infelizmente! Evidentemente que a palavra vida usada no início da frase «vivo para a escrita como se fosse um sacerdócio» tem outra conotação da mesma palavra usada no seu final 
«como não sou sacerdote não consigo viver dela.» Portanto qual é  em última análise a causa da infelicidade do autor? A incapacidade de, sendo sacerdote (vivo para a escrita, ou seja, a isso dediquei a minha vida, porque essa é a minha vocação) não ser suficientemente eficaz, a ponto de poder viver dela ( ou seja, sustentar-me a partir daquilo que escrevo, obter os proventos necessários que o sacerdote de uma religião aufere porque o seu ministério lhe outorga também a sobrevivência.). Eis aqui toda a infelicidade do autor desta tirada!
Agora vejamos: deveremos censurar um sacerdote porque ele alimenta os fiéis na fé para a qual foi instruído e os mesmos que ele alimenta, de um modo, devolvem-lhe o sustento, de outro modo? Afinal, para poder cumprir o seu ministério junto dos fiéis, o sacerdote necessita estar vivo, não escapa, por essa razão, à comum condição dos mortais… Não será justo que os fiéis lhe paguem (em géneros ou seja lá no que for) para que ele possa sobreviver e continuar alimentando a fé?
Portanto, o nosso sacerdote da escrita que não consegue ser sacerdote a ponto de viver da escrita (ainda que viva para ela) terá que se comparar com esses outros sacerdotes, com os quais não se identifica, pois eles conseguem viver do sacerdócio enquanto que este sacerdote (que o não é) não é capaz…infelizmente… e tentar conferir ao produto da sua vida de sacerdócio ( vivo para a escrita como um sacerdócio) o poder e a importância do ministério dos outros sacerdotes que ele não é (infelizmente) e que lhes granjeia a generosidade dos fiéis (pois reconhecem importância no seu ministério) e tornar-se um sacerdote a sério, produzindo bens de tal modo inestimáveis (neste caso concreto, e uma vez que o ministério é a escrita, terão que ser livros) que possa viver não só para a escrita, mas também da escrita, e abolir da vida a infelicidade!
 
 
 

 

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