Cristina, a Frígida

                                     

                           René Magritte, A Filosofia de Alcova

 

 

                                         

 

                    CRISTINA, A FRÍGIDA

 

Citação: «Não se conseguia imaginar a sentir remexer nas suas entranhas um feto que lhe desfiguraria o corpo, lhe alargaria as ancas e lhe tornaria flácidos e descaídos os seios ainda rijos e bem desenhados. Horrorizava-a a ideia da transfiguração do seu físico, não pela mudança deste, mas sim pelo facto de ter que transportar dentro de si um corpo estranho que não desejava. Era a animalesca vertente egoísta e frígida que tomava posse dela.» *

 

 

 

 

Qual a verdadeira essência da mulher, de uma mulher? O que faz de uma mulher um ser humano à parte, digno de uma atitude particular não só do homem mas também dela própria, enquanto mulher, na inevitável relação consigo mesma? Há unicamente uma resposta a dar a estas questões já que a mulher é, por natureza, o receptáculo fecundador, a promessa do embrião, a ocasião grandiosa da geração de seres para o mundo.

      Nessa perspectiva, como pode alguém – um homem – ficcionar um ser do sexo feminino, atribuindo-lhe os pensamentos e expressões presentes na citação com que abro este comentário? Tenho duas explicações para o facto: ou o autor do texto não tem a menor noção do que é uma mulher, porque  nunca se abriu perante nenhuma ao ponto de lhe captar a essência, ou, no decurso da sua vida, deparou com alguém, vítima de perturbação psicológica, presa de uma qualquer neurose ou de doença psicossomática e não quis ou não pôde fazê-la aceder ao tratamento que lhe restituiria a feminilidade. Poderão procurar-se outras teorias explicativas mas qualquer uma delas desaguará inevitavelmente nestes dois pressupostos.

     Admitindo a primeira das hipóteses, se o autor do texto nunca acedeu à compreensão da mulher de modo a fazer-lhe esplender a feminilidade, enquanto essência criadora, ele nada pode ficcionar sobre mulheres, porque a verdade sobre elas lhe é estranha. E então, as palavras escritas sobre uma pretensa criatura do sexo feminino  que assim rejeita a maternidade  representam um insulto ao feminino, a descrição abusiva de uma mente aberrante que não pode ser, verdadeiramente, de uma mulher.

   Reparem, leiam: «Não se conseguia imaginar a sentir remexer nas suas entranhas um feto que lhe desfiguraria o corpo, lhe alargaria as ancas e lhe tornaria flácidos e descaídos os seios (…)» Um feto que lhe desfiguraria o corpo? Que mulher recusa a maternidade porque o corpo se lhe desfigurará? «lhe alargaria as ancas»? «lhe tornaria flácidos e descaídos os seios»?  Se alguém do sexo feminino assim puder pensar e, por estas frouxas razões, recusar a maternidade é urgente que ela saiba que nenhuma gravidez saudável desfigura seja o que for! Que nenhum processo de maternidade torna as ancas largas ou os seios flácidos! Pelo contrário: a gravidez, proveniente de uma mulher saudável, eleva-a ao esplendor supremo da sua beleza e todo o processo de transformação que dela decorre é progressivamente revertido após o acto de dar à luz! Qualquer pessoa o sabe, qualquer tratado sobre o assunto poderá elucidar quem quer que seja, e muitas experiências deste teor poderão ser narradas por mulheres que acederam à maternidade e continuaram de corpo harmonioso.

    Pode todavia acontecer que a heroína desta história padeça de qualquer anomalia psicossomática, é bem provável que seja exactamente essa a tese do nosso autor. E então vejamos a explicação dada por ele para estes tristes pensamentos da mulher que recusa ser mãe: «Era a animalesca vertente egoísta e frígida que tomava posse dela.»  Prestemos atenção ao termo «animalesca» pelo qual atribui à mulher características próprias dos outros animais, os não-racionais, os selvagens, e depois vejamos como o autor classifica aquilo a que chama de «vertente» com adjectivos de todo alheios ao mundo animal: «egoísta», «frígida»…animalesco e egoísta? Animalesco e frígido? De modo nenhum! O egoísmo, a frigidez são possíveis características do ser humano, possíveis manifestações comportamentais do ser humano, possíveis defeitos ou falhas do ser humano, nada devem ao animalesco ou à animalidade!  O animal, porque privado de consciência ou a ela aderindo de um modo incipiente, não pode classificar-se de egoísta ou de frígido, não saberia sê-lo, não conseguiria tornar-se tal. Portanto, o animalesco aqui é uma metáfora pela qual o autor insulta, em simultâneo, o animal e a mulher, pela qual o autor enuncia a sua perspectiva grosseira sobre as subtilezas do feminino e a pujança natural de um ser da natureza estreme. O egoísmo humano que representa a necessidade consciente de preservação do ego, que amarra os indivíduos humanos a si mesmos e à sua circunstância pessoal está nos antípodas do animalesco e quando a emergência da maternidade acontece – e ela só pode ser levada a cabo, de modo natural, na simbiose com o masculino – o egoísmo começa a revestir uma dupla faceta, já que a mãe potencial passa a preservar-se para dentro, a tornar-se dual na protecção de si, enquanto guardiã do filho.

     A frigidez é um mito social, uma doença ( se o é de facto) com uma componente emocional e psicológica fortíssima, raramente justificada por padrões de ordem fisiológica. Em geral, a mulher dita frígida, precisa do companheiro devotado e paciente capaz de aceder ao cerne da feminilidade que ela encerra e que, por uma ou outra razão, não deixa desabrochar; de novo, o autor do texto insulta a feminilidade e insulta de igual modo o companheiro dessa mulher supostamente frígida, impotente para abrir para si o ventre e a mente fragilizados por não se sabe que desvios passados. E não estará a insultar-se também a si mesmo patenteando, deste modo grosseiro, supostos pensamentos de uma figura feminina ficcionada na qual nenhuma mulher, nenhuma mãe poderão, com justeza, rever-se?

     A literatura é uma arte, a arte é nobre e tem obrigação de elevar aquele que a serve e aqueles que dela fruem. Que significa este pedaço de prosa insultuoso e vil, este fragmento de vida ficcionada que, desta forma existindo, só pode expressar o abismo tortuoso de quem escreve, sem possibilidade de adesão por parte de quem lê?

     Mas, se deixarmos o aspecto ideológico para nos determos no estritamente formal, no que concerne ainda ao texto citado, poderemos perceber sem dificuldade um paradoxo entre, exactamente, a primeira e a segunda afirmação, porquanto, à partida, a heroína deste texto sente repulsa pela possibilidade de albergar em si um feto, porque a deformaria; mas logo a seguir o autor fala, por ela, em transfiguração do corpo, dizendo que não seria a mudança dele a horrorizá-la mas antes o facto de trazer em si um ser estranho… Em que ficamos, então? A possibilidade de vir a ter as ancas largas, os seios flácidos e por aí adiante pesaram ou não na decisão desta mulher em não chegar a querer sê-lo? Ou, pelo contrário, o horror patológico advinha-lhe de não querer transportar em si um corpo estranho? Estranho? Mas como pode vir a ser estranho o filho gerado em simbiose? Como pode ser horrível para uma mulher a gestação da semente que a ela se acolheu num acto de amor?

      Urge reflectir, urge sair do marasmo intelectual a que o tempo parece querer condenar-nos mas de onde podemos sempre desertar: para isso somos animais racionais, para isso escalámos e continuamos escalando, em ascese dialéctica, a íngreme montanha do ser. Por isso e apenas por isso, num esforço de vocação panfletária e filosófica, vou apanhando na rede estes fragmentos de prosa, para fazer deles e através deles a denúncia possível da época que vivemos.

 

http://moises-salgado-poesia.spaces.live.com/

 

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