Bob Dylan,11 de Julho de 2008

«Depois, chegou a lenda. Sem efeitos, sem artifícios e sem sair do lugar, Bob Dylan optou pelos blues e lavou a alma ao público, que acompanhou com danças e sorrisos mesmo os temas que não reconhecia imediatamente, de tão alterados que apareceram. É que Dylan não cantou. Preferiu usar a voz curtida para contar as histórias de canções como "Don’t think twice it’s alright", "Ballad of a thin man", "Highway 61", "Desolation row" ou "Like a rolling stone". Só nesta música, a última, se dirigiu ao público. Esteve sempre quieto a um canto, no seu mundo, debaixo do seu chapéu, a ser apenas… Bob Dylan. As canções foram longas, mas não cansaram. As palavras foram escassas, mas não fizeram falta. O coro do público não coincidiu nunca com a métrica da voz, mas isso não afectou a celebração. É nestes (aparentes) pormenores que se decide a importância de Dylan. Não há holofotes apontados a brilhos, a técnicas, nem sequer ao próprio Dylan. O importante é a música. E, de repente, torna-se bem visível o quanto essa música, a sua, funciona como mestre para meio-mundo musical.»
 
Jornal Público
 
 
 
 
 
 
 
Há quem não goste deste estilo reservado, há quem se aborreça com a permanente transformação a que ele submete os seus próprios hinos, há quem queira cantar ao mesmo tempo que o músico e fique perplexo ou contrariado porque mediocremente reconhece os temas e, mesmo quando consegue perceber de que música se trata,  nunca acompanha o ritmo novo que o artista imprime ao seu próprio som de cada vez que o interpreta. Enquanto espectadores, talvez todos gostassem que Bob Dylan se voltasse, uma vez que fosse, para o público e interagisse, talvez gostassem de  lhe ver o rosto e sentir o lucilar dos magníficos olhos azuis que teimosamente oculta debaixo da pala de um chapéu de abas largas. Mas, se estas vontades do público fossem realizadas, não seria Bob Dylan a figura presente no palco!
A  ideia que me ficou é que Bob Dylan é um homem tímido, não daquela espécie de timidez envergonhada do medíocre mas de um outro sentimento que advém da consciência de que é, acima de tudo, um profissional e, por isso, um eterno aprendiz, pois é um profissional da arte e a arte faz-se continuadamente, a arte inventa-se e recria-se a cada momento, em cada sopro de actividade. Tímido, porque não se deixou nunca impressionar com a fama a ponto de se deter nos êxitos de há mais de quarenta anos e atirá-los sobre o público, ávido do dejà-vu, desgostoso quando o novo irrompe ali, à frente dos olhos, mesmo qaundo esse novo é tecido de materiais antigos. Bob Dylan não cantou, é verdade, falou, com  a sua voz cada vez mais rouca e um pouco sibilina, com a sua pronúncia cada vez mais fechada e circunspecta. Inútil tentar perceber o que cantava, porque nenhuma canção teve, em nenhum momento, a modulação das origens, e só uma ou outra frase musical ou poética nos permitiam saber e tentar acompanhar (em vão) o som do hino, as palavras do poema.
Eu já sabia que não iria ouvir nem ver o Bob Dylan dos anos 60; já sabia que, desta vez, não o veria de frente, empunhando a guitarra, e tinha quase a certeza que em nenhum momento o veria rir ou sequer sorrir, muito menos olhar para o público e fazer um gesto capaz de elucidar a multidão heterogénea de que havia ali uma ocasião de comunhão. E assim foi. O músico chegou, ocupou o seu lugar, de pé, frente a um teclado, trocou breves sinais e palavras com os  seus músicos e, durante quase duas horas, deixou pontificar a música, muita música, inverosimelmente rica, extraordinariamente fluida, em interpretações rigorosas daquele conjunto de homens em que Dylan foi apenas mais um: o criador é certo, o veterano, sem dúvida, mas nem por isso com sinais visíveis de arrogância ou de domínio.
Pude entender o que terão sentido os fãs do longínquo ano de 1969, quando esperavam um músico solitário de guitarra e harmónica e viram aparecer uma banda poderosa com sons electrónicos a empanar a melodia, a turvar a compreensão das palavras. Os fãs são impiedosos e chamaram-lhe, nessa altura, "Judas" e "traidor", pois queriam que o artista parasse e lhes pertencesse para sempre…ora isso não pode acontecer, sob pena de assistirmos a uma espécie de mumificação que em nada poderá acrescentar o universo artístico. Por isso, que importância poderá ter não conseguirmos reconhecer a música que Bob Dylan está a cantar ou a tocar, que importância poderá ter não sermos capazes de lhe abafar a voz, já de si minguada, e cantarmos nós os seus hinos em vez dele?
Bob Dylan é verdadeiramente um músico, um criador, um artista…na plenitude do seu génio! Pouco importa que tenha 67 anos e o corpo e o rosto tenham sofrido a transformação do tempo: o que se vê é o músico de sempre, os gestos de sempre, o jogo corporal de sempre, o modo de vestir de sempre – porque o passar dos anos acrescentou-lhe virtuosismo musical, mas não lhe retirou personalidade, pois nunca aceitou vender-se ao sistema corrupto que faz e desfaz símbolos a  bel-prazer!
É bem certo que o público que ali esteve, pelo menos nas filas da frente onde tive o privilégio de aceder, era demasiado jovem e eu vi que embora o aclamassem, precisaram de moderar os impulsos, pois do lado do palco nunca veio nenhum estímulo à interacção. Imperturbáveis, os cinco músicos que  acompanharam Dylan, reproduziram o estilo sóbrio e introspectivo do líder: via-se que estavam em plena sintonia, percebia-se que corria entre eles um fluxo de profunda irmanação criativa, era palpável o prazer com que produziam sons encantados.
Não foi fácil estabelecer comunicação íntima com o artista do meio de uma multidão ululante, perdida entre muitos corpos suados e hálitos ébrios, não foi fácil criar a empatia, assim, de baixo para cima, a uma distância  física diminuta e contudo travada por uma imponderabilidade nascida de um simples facto: o de não poder, em nenhuma circunstância, saltar a barreira e colocar-me ao lado dele para ver-lhe nos olhos, ao vivo, a cintilação do génio! Só isso faltou ali, no cenário de corpos e som, perante o músico veterano, habituado a lidar com plateias gigantescas há mais de quarenta anos e no entanto, indiferente ao desejo furioso das multidões, vivendo o seu momento em cada uma das actuações, numa obstinação de palmilhar caminhos novos, em cada nova situação, indiferente ao aplauso ou à vaia!
Ele próprio o disse, há alguns anos, numa entrevista: "Sou um músico, a minha vida é percorrer os palcos cantando e tocando! Por acaso tive sucesso, tive fama: mas, se  tal não tivesse acontecido, continuaria, de instrumentos na mão, a fazer-me à estrada e a cumprir o meu destino!"
Apesar disso, Bob Dylan deu uma oportunidade ao público, na música final, deu-nos o Like a Rolling Stone, a última versão, criada ali mesmo, no Optimus Alive 08, permitiu, num momento puramente instrumental que cantássemos a versão clássica – que não a daquele momento, pois não poderíamos sabê-la! – possibilitando a apoteose possível. E também pegou na harmónica, complemento imprescindível dos seus clássicos, e mimoseou-nos com o som encantado e encantatório.
 

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