Uma espécie de introdução

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                   

 

                                             Bob Dylan,  Train Tracks

 

                                        

 

 

 

 

                                                    Uma  Espécie  De Introdução

 

 

 

 

 

 

 

A linguagem da arte é una e múltipla porque há uma única voz a falar através das gargantas de todos os artistas e contudo muitos são os tons e os cambiantes dessa voz una, tornada múltipla. Por essa mesma razão, apenas um artista pode ter acesso à raiz da expressão particular de outro artista nas linhas dessa univocidade, nas sucessivas paráfrases de todos e de cada um. A arte é a voz e é o gesto, é o traço e é a letra e cada um destes modos de ser traduz simplesmente a forma de enunciação perante si e perante o outro, a força que desentranha o acto criador, a matriz propulsora capaz de conduzir a criação para fora de si e até ao mundo. Reside, neste entrar e sair do âmago de si, um dos mistérios nunca decifrados do impulso criador e contudo conceptualizados e teorizados, uma e muitas vezes, em séculos de história humana: se a criação é um processo de laboração íntima operada nas profundezas do inconsciente, em primeiro lugar, indiscernível e fragmentário numa espécie de prenúncio servido à hora do sonho, e se , mais tarde, acorre à consciência e se liberta numa cerimónia fumegante de parto, acedendo aos poucos à maioridade, porque tem o artista a necessidade absoluta de o desalojar de si, enviando-o, qual mensageiro, qual paladino, qual grito ou sussurro, para as arenas do mundo dos homens onde cedo se verá privado da paternidade, assolado ou pervertido, elevado a píncaros e logo vítima de apropriação?

Falar em parto é rondar perigosamente o lugar-comum e contudo é de um parto, e logo de uma separação que tratamos, quando nos dispomos a empreender a hermenêutica do acto criativo. A criatura engendrada e urdida no ventre alquímico do feiticeiro, lavrada e transfigurada pelas mãos do artesão, composta e aprimorada à luz fecunda da ciência e logo revestida dos materiais capazes de a fazerem aceder à corporeidade, a criatura é deste modo trazida ao mundo por aquele que foi a sua substância, o seu berço, a sua morada, mas também a condição da sua autonomia. E assim falar em gestação e parto,   em génese e separação é aludir a uma metáfora de vida, consciente ou não, mas jungida à natureza como sua marca, sinal e condição. Nada existe, de facto, que não tenha sido engendrado um dia e, por isso, foi inventada uma fórmula de construção do próprio mundo que nos serve de habitáculo e chamou-se  «deus» ao causador do nosso território de humanos e aludiu-se ao facto de o próprio «deus» ser parte do todo que veio a conceber tornando-se, ele próprio,  a criatura da sua concepção. Não importa que esta não seja a verdade, que nem tão pouco haja uma verdade fiável, porque provada, capaz de nos fazer aceder à origem de nós e daquilo a que usamos chamar o todo. Microcosmos desse universo de que nada vale a pena saber, porque saber não acrescenta o acto palpável da existência que nos é quotidianamente servida, somos também microdeuses aptos a gerar, autogerando-nos continuadamente, seres, todos eles seres, uns, de carne, na procriação animal que também nos é apanágio, outros de materiais diversos e, contudo, todos vivos. Pode ser que, à semelhança dos deuses que nos criaram ou que nós criámos, sejamos superabundantes e tenhamos a necessidade que lhes é intrínseca de nos desfazermos do excesso e desse modo ficarmos aquietados contemplando, narcisicamente primeiro, e mais tarde com total desprendimento, o produto do nosso labor íntimo. Dar ao mundo o que representa a nossa demasia pode ser e não ser um acto glorioso de dádiva, pode ser e não ser o desejo de partilhar os mundos encantados que nos povoaram a mente e as entranhas, porque é bem provável que não aguentássemos uma gestação demasiado longa, é bem provável que fazer sair o feto já maduro e em rodopio no ventre tumefacto tenha o carácter de uma urgência inadiável.

Não é certo, contudo, que assim seja já que as explicações podem ser multiplicadas e certamente nunca acederemos à desmistificação satisfatória dos universos inefáveis do acto criativo. Se bem que todo o humano traga em si a potência criadora presente no sémen e no óvulo, no cérebro e no espírito, nas mãos e em todos os sentidos, nem todos são, porém, criadores no aspecto restrito que à arte convém.

Um certo número de particularidades deverão ser, contudo,  equacionadas sob pena de iludirmos a questão, pois se é natural e espontâneo o acto criativo e comum de certo modo aos homens, em geral, nem todos, porém, possuem  a centelha miraculosa: ou, se quisermos ser prosaicos, o talento ou a virtude no sentido preciso que os gregos deram à palavra virtude.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: