Sons

 

 

 

 

 

 

                                           

 

                                                                

 

 

                                                       P I C A S S O

 

 

                                                          

 

                                                         

 

                                                        SONS 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SONS do abismo e da altitude

os sons vagueiam na superação infinda da brisa em vendavais ciclópicos feitos de gemas de cristal e outrora os diamantes também luziam nos becos e nas avenidas e ninguém lhes pegava pois tinham o cheiro pútrido do sacrifício e perlados de suor de garimpeiros teciam auréolas translúcidas nos ares inviolados

e SONS

sempre sons a flauta o violino a harmónica gemendo roucos lamentos uivando na serenidade enganosa da loucura de uma  noite sem brisa e onde pararam as musas cedo foram erguidas catedrais entusiastas como se houvesse celebrações urgentes quando todos estavam recolhidos soltando o ronco nocturno e tecendo espirais de neblina sobre cabeças atoladas em silêncio

SONS em fúria

crescendo nos épicos subterrâneos de alquimias profanas

sons chegados agora mesmo à porta do cemitério

e logo barrados  pelo triunfo imortal de espíritos desolados outrora crentes e entretanto enclausurados no eterno retorno

SONS

tudo coberto de sons plásticos e tangíveis

como quadros de Dalí empastados em ocre violento como as telas de Van Gogh mas sempre soando e rangendo e tremendo e nem era melodia embora soasse melódica mas arranhava os parapeitos e escorria em matéria violácea pelas paredes outrora transparentes e numa súbita eclosão qual ovo de aviário suburbano entrou na perfídia das cavernas e sobre rodízios de nenhures apanhou o eco e soltou no ar

SONS

sempre sons todos eles e mais outros tantos esculpidas em pequenas ninfas coalhadas em leite de cores ebúrneas saindo e flutuando nos mares encapelados que Camões cantou que afinal todos cantaram porque vogar em ondas como se fossem cristas de loucura é simultâneo e confrangedor na mente dos homens

SONS

e eu nem sei se teremos ouvidos para tecer com eles uma espécie de sinfonia ou ópera que todos havemos de compor no dia em que soltarmos as gargantas presas anquilosadas patéticas com mesclas de genialidade mas vazadas por mil torrentes onde a escória tece a sua trama de vómito e de medo

SONS

esses aqueles e os outros todos

os teus também que tocas violão na esquina poeirenta sabendo que não serás ouvido porque hoje há apenas pressa e se pararem é para te olharem como se fosses vadio e mesmo sendo mereces o respeito da turba sim e eu vejo-os limitados e jungidos como lianas pescados dos rios limosos como trutas viçosas e depois

só ficaram sons e nenhuma nesga por onde tapar a poeira e o brilho dilacerante do sol em agonia

 

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