A Arqueologia do Silêncio (Parte I)

 

 

                                                                                         

 

 

 

 

                                         A  ARQUEOLOGIA  DO  SILÊNCIO

 

 

 

 

 

PERSONA – «Máscara de actor; papel, carácter, personagem (…)» – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Volume IV, Livros Horizonte, 3ª edição, 1977

 

 

Penetrar a pessoa por detrás da máscara é uma tarefa de impossível execução e é espantoso verificar de que forma todos alvitram uns sobre os outros, de que modo os juízos se vão avolumando e as prateleiras das bibliotecas acumulam verdadeiras avalanches de biografias, estudos, ensaios, sinopses e por aí adiante, sobre este e aquele, como se a persona ou as personas não digladiassem entre si, impedindo o menor vislumbre sobre o verdadeiro eu daquele que queremos sondar.

Fazer a fenomenologia da máscara é, por esta razão, o mais fascinante dos trabalhos, ao mesmo tempo que é, em termos filosóficos, praticamente tudo o que podemos alvitrar de válido, que não de verdadeiro, sobre aquele que tomamos como objecto de estudo.

Cada ser humano é inviolável, até para ele próprio, principalmente para ele próprio, e a todo o momento uma ligeira e inefável oscilação, ao nível do pensamento ou das células, determina cambiantes, feitos de subtileza ou esmagadores pela potência com que, desencadeando-se, afectam a pessoa provocando a emergência de outros eus, ocultos dos anteriores e que, por sua vez, ocultarão os que a seguir, tarde ou cedo, a dinâmica da existência determinará.

Assim, o método a utilizar neste trabalho será apenas o fenomenológico na medida em que, por ele, podemos pôr entre parênteses, sucessivamente, aspectos de uma e de outra máscara e até a máscara inteira em diversos momentos, para deixarmos fluir livremente, sem pejo ou temor de possível desvirtuamento do sujeito integral, na exacta medida em que, ele próprio, não se possui enquanto tal.

O método fenomenológico não apresenta riscos, porquanto nos autoriza a realizar a epoché fazendo sucessivas reduções eidéticas de modo rigoroso, contemplando cada esboço ou vislumbre do fenómeno como uma realidade dada à consciência que é este mesmo o sentido da palavra fenómeno. Todos os fenómenos são, deste modo, coisas, não no sentido elementar de objectos, materialmente palpáveis, mas enquanto dados apreendidos pelo sujeito e analisados apenas a esse nível.

Parece-nos ser a única perspectiva capaz de se deter sobre um objecto dado, que neste caso é, não apenas um ser humano na sua complexidade inextrincável, mas um ser humano deliberadamente mascarado, quer no que à exteriorização perante os outros diz respeito, quer no que a si mesmo, enquanto interioridade, concerne. Por outro lado, iremos tratar fenomenologicamente um artista, múltiplo e vário como é todo o artista, um artista inevitavelmente virado para dentro e contraditoriamente exposto perante o mundo inteiro, fechado nas muralhas de uma impenetrabilidade estrutural ou construída e, contudo, amplamente revelado na obra que produziu e produz, na postura com que se denuncia perante o mundo, no modo peculiar com que, na mesma medida em que se oculta, se revela.

Não faremos história porque ela está quase toda realizada, não iremos referir qualquer fonte que não seja o nosso olhar sobre a personagem e a epoché que, enquanto recurso metodológico, nos permite captar de modo desligado, como fragmentos, este e aquele sinal, feitos apelos vibrantes ao olhar, sabendo que, quando se olha, é o corpo todo que nesse gesto se implica e por ele se faz todos os sentidos.

Empreenderemos apenas a viagem possível e já iremos decerto longe de mais; contudo, foi ele próprio que autorizou esta digressão pelos sinais que envia, sem saber por completo que envia, pois não se faz acompanhar, diariamente e a todo o instante, por um espelho, tornado redoma, capaz de lhe mostrar, simultaneamente, não apenas a máscara de si para si próprio, mas também o efeito sobre os outros e, unindo num todo coeso estes dois reflexos, afinal múltiplos, ter a clara visão de si para dentro de si e de si para o mundo. E eis que essa viagem possível a que aludimos será muito  mais profunda que a que ele alguma vez pôde fazer ao sujeito integral que se assume perante o mundo – estando ele próprio nele incluído – pois nada sabe dos fluidos energéticos que desprende e envia, não querendo fazê-lo, decerto, mas apesar de tudo não conseguindo a tal eximir-se.

Comecemos pela voz, essa energia palpável, essa abertura da interioridade pelo canal prodigioso das palavras, coloquemo-la entre parênteses e, sem cuidar do sentido, detenhamo-nos somente no timbre, na modulação, na pausa, no trinado, no agudo e no grave, no gorjeio e no choro. Não nos parece que ele cante, se por cantar entendermos a harmonia inteira do som e da palavra, antes se evola da garganta presa um eco surdo de dores antigas, um sussurro contido de ecos fantasmáticos, um breve cicio que não quer, em nenhum momento, abafar o som dos instrumentos ali presentes, estranhamente átonos, na sua materialidade de meros aparelhos electrónicos ou tornados tal, tocados por mãos e enleados em corpos que nem parece distinguirem-se do material espesso das máquinas que manipulam. A voz sai, embora a boca mal se descerre, a frase musical sobrepõe-se ao sentido poético que só lograremos atingir se acaso conseguirmos desvendar a melodia e dela conhecermos as palavras. Saindo do fundo, não sabemos bem se das cordas vocais, do peito, do coração ou da alma, que todos eles flutuam nas espirais de um ar saturado de energia, rasa apenas os ouvidos preparados, penetra somente no íntimo do iniciado deixando de fora todos os outros que nada podem absorver e, por isso, nada podem compreender ou sentir.

Esta voz que emerge como um paroxismo agónico, nublada e opaca e contudo portadora do poder ancestral do homem que um dia abriu a boca para cantar a velocidade do seu poder e não pôde nunca mais calar a sua própria magnitude, a voz aparentemente exaurida e no entanto suficientemente audaz para continuar erguida, embora não suba, porque o executor empurra-a para baixo, desvia-a do ouvido da multidão, mantendo-se obstinadamente semi-oculto da populaça insolente e curiosa, a voz é, contudo, a mesma de sempre, esculpida pelo tempo, marcada pelo sucessivo e, decerto, compulsivo e talvez inflexível uso. Parecendo não ser uma voz de titã, é uma sonoridade de Hércules já que transporta consigo o vigor de mais de quatro décadas e é por isso que a boca é quase um rasgão na face, um rasgão minguado que pouco precisa de distender-se para soltar a explosão sonora.

A voz do homem que canta no palco, semi curvado sobre um teclado, de perfil para o público é a expressão autêntica do poder existencial da personagem, é a marca tangível de uma necessidade, urdida nas linhas do destino que conceptualizámos antes e absolutamente em uníssono com o génio, o deus particular, aquele que nasceu, vive e viverá com aquele por quem veio a fim de o proteger e encaminhar até à eternidade.

Este é a primeira digressão fenomenológica através das muitas emanações visíveis e concretas que, apenas elas, podem apresentar-se como fenómenos, e logo objectos, ao sujeito que contempla e, nesse acto, absorve.

As palavras estão ali como teria que ser, o verbo jorra feito espasmo ou catadupa, mas os anos ensinaram a este intérprete a importância de falar para dentro de si, de mergulhar cada vez mais na sua fonte secreta e primordial, elidindo sílabas, jungindo vocábulos numa mescla feita tecido sonoro, dizendo-as para si do mesmo modo que para si as criou ainda que a superabundância do vigor que lhe é apanágio o obrigue, qual missão super-individual e contudo irremediavelmente partilhada, a deixá-las pairar e voar e expandir-se, quais asas de sortilégio, impossíveis de cativar, exactamente porque são vocacionadas para o voo. Por essa razão, não poderemos, com o simples ouvido, realizar a fenomenologia das palavras, em si, tal como foram escritas, tal como estão impressas, precisamos de permitir que elas se confundam todas numa melopeia, como se os signos fizessem parte de uma nova língua, ali criada, no instante preciso em que os ouvimos. E é por isso que a breve trecho deixa de nos interessar seguir a frase, porque o que está a sair da garganta do cantor  e a explorar, tacteante, o caminho da saída, é uma forma audível de silêncio, o mais complexo de todos os sons possíveis.

O fenómeno a ser então reduzido a uma experiência eidética é  a arqueologia do silêncio, esse que o tempo quer suprimir numa ânsia frenética de vozear atirando sobre as multidões o soporífero alienante, feito substância de poder instantâneo, cuja magia se esfuma mal o botão da energia se desliga. Aquele silêncio que a voz do cantor nos traz na voluntária ocultação das palavras, das frases, dos versos e dos ritmos representa o auge da genialidade e não o seu estertor, como poderíamos ser erroneamente levados a pensar; e é por isso que ele regressa sempre aos palcos, coroando a sua corrida inicial para o som com a negação prodigiosa da sonoridade, nas espirais prodigiosas do não-som.  E é por ser silêncio, afinal, a melodia que rompe do peito curvado, que ela continua presa a nós, mesmo quando as luzes se apagaram, o cantor se retirou e regressámos para os nossos mundo secretos – secretos e nossos, mas nunca mais iguais ao que eram dantes.

Fazer a arqueologia do silêncio é penetrar no âmago da própria essência da humanidade, arribar aos momentos secretos da inutilidade de falar, quando a compreensão se fazia no gesto, nos ademanes do corpo e da postura, nos jogos da enunciação de si, pelo palpável, pelo visível. E é essa arqueologia que nos surge agora, inteira, na melodia feita linha recta com ligeiríssimos desvios e eis aí, por inteiro, a síntese da história de um artista, empenhado em dizer muito e cada vez mais rendido à inutilidade absoluta de qualquer enunciado a ser ouvido por quem quer que seja.

 

 

 

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