A Arqueologia do Silêncio – Parte II

 

 

 

                                                                                 

 

 

 

 

 

 

                                A  ARQUEOLOGIA DO SILÊNCIO – PARTE II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SILÊNCIO do latim silentiu, «silêncio; ausência de qualquer defeito na tomada de auspícios ou agoiros (…)» [auspícios ou agoiros: «observação e interpretação dos sinais mágicos (sobretudo do voo das aves); o próprio presságio; o que se oferece ao áugure (…)] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Volumes I e V, Livros Horizonte, 3ª edição, 1977

 

 

 

 

       Afigura-se-nos que o silêncio é o intervalo, a pausa da música e contudo eles estão inscritos na pauta, pelo que são ainda condições íntimas da melodia, momentos preenchidos de sonoridade sem os quais o todo da composição não soaria do modo adequado. A sonoridade é composta, de facto, por uma quantidade variável de não-sonoridade, mas, em nenhum momento, isso, que designamos como não-sonoridade, significa silêncio.

       O silêncio é uma experiência subjectiva, decorrente no âmago do ser e, permanecendo no método fenomenológico para tratar este eco de si em si mesmo, referir-nos-emos ao emergir do silêncio, enquanto tal, sempre que a necessidade de comunicar, de interagir se aquieta e o espírito se acolhe no seu mais íntimo reduto para poder escutar-se. Sendo intangível, enquanto experiência expressa, uma vez que, quando a voz irrompe, já o silêncio deixou de ser, pelo menos na dimensão que é susceptível de tornar-se visível, ele é, contudo, fenomenologicamente conceptualizável, pois, nos antípodas do que é uso conotar-se com o termo silêncio, esse estado de aparente impassibilidade corresponde ao ruído primordial do ser. Ruído, não porque haja nele a imperfeição da dissonância ou, se tal existe, ela não poderá ser tomada como imperfeição, uma vez que é a condição elementar da possibilidade da obra nascente na sua coesão e completude.

       Tomando como tópico inicial a transcrição em epígrafe, veremos que o áugure representa o porta-voz do silêncio e, na tomada dos auspícios, ele necessita de uma ausência, e essa ausência é o defeito, pois ela é necessária à contemplação, a subtil tomada de consciência dos sinais mágicos, presentes aqui e ali, quer seja no voo das aves, quer nas palavras e gestos dos homens, nas paisagens ou nas obras, pouco importa. O áugure reside, pois, em todos e em cada um, esse que entra em si depois de feita a recolha do fora de si e vai compilando e compondo, no silêncio advindo, a estrutura da obra, o ritmo do verso, a trilha sonora da composição musical.

       Ser áugure é aceder a penetrar o futuro e o futuro é contemporâneo do presente e do passado, coexistindo num mesmo tempo e a redução eidética aqui possível conduz-nos, sem apelo, ao que de mais íntimo pode suceder no âmago de um humano, quer seja a gestação de um embrião, vagamente compreensível do lado de fora, apenas intuída pelo sujeita que alberga a gestação, quer seja o instante propulsor da incubação artística.

       Quando a génese da criação acontece e o grito ou a letra explodem em vertiginosa e fumegante produção dir-se-ia que uma pressa ou urgência demoníaca se apossou do criador e é de facto essa a percepção de quem investe, em fúria incontrolável, para o papel, para a pauta de música, para seja que instrumento for que demande a criação específica. É como se de uma explosão se tratasse, uma explosão meteórica e alucinante vinda aparentemente de lado nenhum, e logo expressa em catadupas prodigiosas de harmonias que têm que ser urgentemente patenteadas, transmitidas, comunicadas enfim. E no entanto o que houve de mágico na exteriorização do segredo do áugure precedeu o acto de libertação, esteve escondido nas regiões inomeáveis do silêncio, quando parecia que tudo estava calmo e inexpressivo. O silêncio, esse que, como diz a definição proposta, é «a ausência de qualquer defeito na tomada de auspícios ou agoiros.»

       O defeito na tomada de auspícios pode ser a intromissão de agentes externos, perturbadores da observação e interiorização do fenómeno sobre o qual será feita obra, pode ser a ânsia de outrem em obter o produto que só pode ser exteriorizado em tempo oportuno, pode ser a necessidade de produzir sob pena de não chegar na hora certa ao local adequado. Bloqueadoras do silêncio gestante, estas condições são obliteradas pelo criador legítimo que sabe, enquanto áugure, encontrar o momento oportuno para fazer sair a sua criatura. Não que ele necessite da reclusão monástica ou da subida a uma montanha; passear no torvelinho das ruas de uma metrópole, misturar-se no meio de uma qualquer turba, num qualquer local infestado de ruídos pode ser a condição necessária do silêncio, esse murmúrio íntimo, essa ausência de defeito, essa incubação do augúrio.

       O silêncio ou a oblívia separação que encerra o criador adentro de si é um processo transcendental, como se o sujeito pudesse separar-se por um lapso de tempo, mais ou menos longo, de todo o acervo das impressões colhidas em torno de si e, no âmago da esfera de si, como pura emanação a priori, desocultar o novo, o nunca observado ainda que o material seja antigo como o próprio homem.

       A redução transcendental permite-nos aceder ao fenómeno puro, penetrando na esfera da consciência a que apenas o sujeito poderá ter acesso em pleno, mas onde, pesquisando o resultado proveniente do silêncio da consciência em laboração, nos é permitido entreabrir uma brecha, vislumbrando a intenção do criador.

A intencionalidade está deste modo presente, em simultâneo, na esfera pura da consciência subjectiva, no âmago da qual se faz o silêncio gerador dos augúrios e na exterioridade em que o sujeito se orienta para fora de si, extravasando a matéria criada para vê-la reflectida nas outras consciências e por elas aceder uma vez mais a si.

Sendo assim, torna-se lícito abordar transcendentalmente, num percurso de fenomenologia das intenções, o acto criador, oriundo de uma consciência que antes absorveu o resultado, feito acto. de outras consciências e posteriormente a elas advindo, num percurso de projecção inalienável.

A imaginação, no sentido puro, é um puro nada e a nada pode corresponder, a nada podendo, só por si, dar origem o que significa especificamente que o criador necessita de colher fora de si uma matéria a que virá a dar forma pela e na consciência, ainda que essa consciência possa assumir modos delirantes. O artista é, pois, um observador meticuloso, aquele que sorve do mundo circundante cada pedaço, cada fragmento, sem cuidar se são pedras preciosas ou apenas escória, sem aparentemente catalisar seja o que for, a priori, e a sua consciência vai-se transformando num imenso armazém de memórias ou de material a que dará destino em tempo oportuno. Mas, enquanto a génese não liberta o fruto dos arcanos secretos do artista, é exactamente o silêncio, feito guardião das memórias e preservador do material, que funciona como couraça, resguardando o áugure do ruído e logo do defeito.

 

Uma resposta to “A Arqueologia do Silêncio – Parte II”

  1. Joaquim Says:

    Olá Regina
    Porra , (usando linguagem do norte, carago)..cada texto teu é uma aula que apetece repetir
    Gostei dos "arcanos"

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