A Imagem – Modo de Enunciação

 

 

 

 

 

 

                                       

 

 

«Do not create anything: it will be misinterpreted, it will not change, it will follow you for all your life.»                                                                           

 

                                                                  (Bob Dylan, 1964)

 

 

                           

 

                                                             A IMAGEM – MODO DE ENUNCIAÇÃO

 

 

 

 

 

 

A imagem é o modo de enunciação visível do homem perante o mundo e, se uma tal enunciação pode dar-se por via de uma quantidade infinita de representações, o rosto e a postura constituem, invariavelmente, os sinais perceptíveis, qual moldura exterior da necessária pintura da interioridade, também ela disfarçada perante si mesma, feita representação subjectiva e logo máscara-persona. Portanto, abordar o fenómeno da representação de si perante o mundo, de si perante si próprio, ou quantas vezes à revelia do mundo e de si mesmo, pode partir dos traços do rosto, da postura, dos sinais ditos externos e contudo portadores de tópicos imprescindíveis à compreensão da pessoa.

A pessoa de que aqui nos ocupamos é abundantemente relatada como sendo misteriosa, ambígua, paradoxal, contraditória e, no extremo, mentirosa, interesseira, oportunista, apodos que nada exprimem sobre o ser real, oculto por baixo dos traços, mas a que podemos recorrer, na demonstração da sua falibilidade.

O mistério advém-lhe de duas circunstâncias: por um lado, o seu projecto de vida fez com que ele precisasse de saltar para a ribalta e ali expor-se ao maior número possível de pessoas, traçando o seu caminho e ocupando o lugar para que sabia ser feito; por outro, essa torrencial demonstração de si, através do corpo e do rosto, das palavras, voz e melodia obrigou-o a regressar a si, sempre que os outros, perante quem voluntariamente se expunha, queriam apropriar-se dele e apor-lhe um rótulo, de acordo com as suas próprias leituras da pessoa que assim se anunciava. É ele próprio que declara: «Do not create anything: it will be misinterpreted, it will not change, it will follow you for all your life.» (1964). De tantas palavras que escreveu e continua a escrever, estas possuem o segredo do seu alegado mistério, «não cries nada» e quando o autor fala em criar refere a obra que uma vez gerada é dada ao mundo pois, continua, «será mal interpretado», ou será interpretado onde deveria ser visto literalmente, ou visto literalmente onde deveria ser interpretado, as pessoas ouvem, lêem e são incapazes de fruir apenas, querem penetrar, agarrar, vasculhar a alma e a mente de quem escreveu ou cantou, «não mudará», ir-se-á transformando numa peça mumificada despojada de fluxo vital e, pior do que tudo, «seguir-te-á para o resto da tua vida». E assim, é necessário que o artista troque as voltas a si próprio e aos outros e imprima uma direcção contrária ao rumo dos seus pensamentos e das suas acções, no exacto momento em que todos acreditavam que ele ficaria naquele para sempre. Por outro lado, há uma contradição nesta frase, alegadamente escrita quando o autor tinha apenas 23 anos, «não cries nada» é uma advertência que ele faz a si próprio; e contudo, durante mais de quatro décadas, o fluxo da criação aparentemente persistiu e as obras nasceram, uma após outra; porém, as sucessivas e constantes variações impressas nas melodias, nos poemas, no modo de estar em palco, na modulação da voz afastaram a mumificação referida antes. É certo que as primeiras criações seguiram-no para o resto da vida e a elas teve que regressar, não sabemos se, por amar, afinal, a sua criatura, se, porque o público, perante quem continuou sempre a necessitar de expor-se, lho exigia. Porém, podendo dá-las às multidões com a mesma sonoridade do início, preferiu sempre recriá-las, com uma tenacidade tal que chegou a ponto de desfigurá-las, desconstruindo-as.

Será esta atitude o sinal do mistério ou, pelo contrário, a enunciação nítida e precisa da postura do artista que, fiel à sua sentença, não permite que a sua obra estagne e que o persiga, estagnada, para o resto da vida?

O mistério parece aliás ser a nota dominante da postura deste homem feito figura pública e logo celebridade, querendo sê-lo e contudo, numa permanente atitude paradoxal, desse estado desertando continuamente, permanecendo na ribalta em postura deliberadamente rígida e fechada sem sinais ostensivos, não se permitindo comunicar ou extravasar seja o que for para o lado de fora de si mesmo. E no entanto, tocando e cantando perante multidões, quase todos os dias da sua vida, parece que continua a querer comunicar pensamentos, envolver numa certa aura mística ou simplesmente energética aqueles que acorrem aos seus espectáculos. Mas será comunicar aquilo que pretende este homem que nos seus anos de juventude se deixou apanhar dezenas de vezes de rosto fechado e óculos escuros, sem um sorriso, sem qualquer indício de que lhe fosse vital emitir ondas de comunicação perante aqueles a quem vai deixando chegar a sua voz e o seu som?

Aparentemente, a comunicação não é o factor vital que empurra o homem para os palcos, ainda que as palavras e a voz se ergam, uma e muitas vezes, nas múltiplas arenas do mundo.

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