(DES)CONSTRUÇÃO

 

 

 

(Possível) Manuscrito de Blowing in the Wind

 

 

(DES)CONSTRUÇÃO

 

 

      Há apenas um processo criativo latente no cerne do criador, um processo irradiante em múltiplas direcções, mas uno e coeso e reconhecível pelo próprio ou pelo outro – aquele que comunga ou comunica em idênticas esferas, podendo assim conceptualizar e definir. Se chamarmos construir ao acto que impele o construtor a unir peças, segundo um método que implica uma ordenação lógica ou racional, não podemos alienar o passo precedente em que as parcelas se mantiveram separadas, meros fragmentos de um todo ainda não realizado, inúteis e desapossadas de ser e contudo já prenhes do resultado nas regiões inescrutáveis do silêncio – aquele a que já aludimos antes.

      Bob Dylan é soberano nesta arte de desconstrução de si e das suas criaturas, pode mesmo dizer-se que vários sis conflituam no imenso quarto, subterrâneo e, a espaços, sombrio, onde habita e faz habitar os fragmentos esparsos da arquitectura ou da geometria abstracta que subitamente convoca e reúne de um modo coeso, mas que não tarda a retalhar uma vez e outra ainda, a fim de que possa sair da peça criada todo o seu poder ou, quem sabe, até que dela não reste qualquer sombra e o criador/construtor possa sentir-se livre para demandar outros caminhos.

      A dialéctica construção/desconstrução é aqui a marca da genialidade e não a sua negação, o poder da sua gigantesca capacidade e não o sinal da exaustão. Na medida em que vai desconstruindo, vai depurando materiais, fechando-os no subterrâneo, até que uma luz se abra sobre esse espaço penúmbrico e a coesão aconteça.

      Muito cedo o jovem Robert percebeu que tinha que ser o obreiro da sua própria separação de si e – já o vimos antes – de que modo lhe foi vital quebrar as amarras com a cidade natal, com a família, com o nome. Porém, a desconstrução parece ser a única chave capaz de entender esta persona/máscara tão ciosa da sua carapaça e contudo fendendo-a centenas de vezes, em cada momento de ordenação do caos tumultuoso do seu arquivo na cave do ser, e logo patenteando ao mundo, sob a forma de uma obra, as profundezas de si.

      Pouco importa a vida pessoal do homem, se por vida pessoal entendermos os pormenores factuais das suas idas e vindas, a família a que deu corpo, as mulheres que amou, as casas em que viveu ou os bens que possui. Não são esses elementos que nos facultarão a verdade sobre a persona/máscara, nem eles importam muito: enquanto homem, e logo sujeito às especificidades muito próprias do ser, simultaneamente animal e social, a sua existência não diferirá essencialmente da de qualquer um. Bob Dylan respira, come, dorme, conversa, passeia, descansa e nenhuma destas acções merece análise ou abordagem fenomenológica, pois elas correspondem ao lado factual dos seres que todos somos, dados ao mundo e dele reféns. Nem nos parece que Bob Dylan faça o menor esforço para ser diferente a esse nível, decerto pouco importa ser original na satisfação das necessidades comuns e disso não rezará a História – porque não é essa a sua História.

Por essa razão, ao fazermos alusão a episódios que inevitavelmente rondam os pormenores biográficos, não teremos em mente historiar (já o tínhamos, aliás, exposto antes) mas sim apanhar um ou outro detalhe e extrair deles o significado profundo.

É Bob Dylan que de si mesmo diz: «Algumas pessoas nascem de pais errados, com nomes errados…isso acontece…» (Entrevista a Ed Bradley, 60 minutes, 2004).

Vejamos, contudo, esta questão à luz de uma outra óptica: e se os pais e o nome não tivessem sido errados, mas antes a condição necessária para que, dos genes por eles adquiridos, resultasse uma combinação única, e por isso original, capaz de fazer o jovem Robert manter o ouvido e os outros sentidos todos acutilantes, de modo a perceber a inevitabilidade de seguir o seu caminho? Então, os pais de Bob Dylan, nas linhas do destino, a que o próprio abundantemente alude, esse que, como referimos, corresponde à inevitabilidade de seguir um objectivo traçado, só chegou a ser quem é, exactamente, porque nasceu naquele lugar específico, daqueles pais específicos, com aquele nome específico, pois estas circunstâncias uma vez reunidas e originárias de um ser humano nunca devem ser subvalorizadas, visto constituíram o sinal e a marca indeléveis da iniciação do ente no mundo.

 E assim, este homem, especificamente situado num tempo e num espaço, oriundo de uma matriz genética e genealógica determinada espácio/temporalmente, jamais chegaria a ser quem é se os pais que ele considera errados, o nome que ele classifica de igual modo, não tivessem sido exactamente aqueles. Não cremos que, ao longo de 67 anos de existência, lúcida e vigilante, esta circunstância lhe tenha passado despercebida; e, se naquele contexto, Bob Dylan deu a resposta que deu, fê-lo à semelhança do seu procedimento habitual perante a imprensa: ludibriando o jornalista, iludindo e subvertendo as questões, terminando o caso por ali, pois quando se proclama: nasci dos pais errados, com o nome errado, nada mais pode ser questionado a esse propósito!

Arriscando-nos a cair em desgraça à luz de teorias ultra-positivistas, no contexto das quais apenas o absolutamente certificável, pela via experimentalista, merecerá as honras de credível, mas nem por isso acedendo a semelhante entrave visto que, no nosso tempo, a própria ciência acolhe a metafísica como seu limite ou sua derradeira e inefável perspectiva, decidimos abordar a reencarnação e a correlativa necessidade de aperfeiçoamento da alma e logo da pessoa. Se as almas preexistem à existência do indivíduo e costumam pairar em regiões insondáveis aos sentidos humanos, limitados e limitativos, até ao momento em que encontram o instante exacto e as condições oportunas para reencarnarem, diremos que a alma, tornada sábia nas sucessivas reencarnações, toma a decisão e faz a escolha, não apenas do local para regressar à temporalidade, mas também dos veículos que lhe conferirão, uma vez mais, o estatuto humano. Deste modo, uma certa alma, proveniente não sabemos de que outras encarnações, escolheu, por decisão sábia e reiterada, um local – Dulluth, Minnesota –  um casal – Abram Zimmerman e Beatrice  Stone – uma data – 24 de Maio de 1941 – e logo um contexto específico onde, gradualmente, foi colhendo influências e aderindo a uma visão do mundo capaz de lhe traçar as linhas do destino. Foi, por isso, necessário que Bob Dylan tivesse nascido Robert Allen Zimmerman, no Minnesota, em 1941, de Abram e  Beatrice, para se tornar capaz de empreender a caminhada em direcção ao seu verdadeiro eu e posteriormente ao reconhecimento do seu mais profundo si.

Ele próprio afirma: «O som dos comboios ao longe fazia-me sentir mais ou menos em casa, como se nada faltasse, como se estivesse num local seguro, nunca em verdadeiro perigo e onde tudo se encaixava. (…) O tocar dos sinos também me fazia sentir em casa. Ouvia-os e escutava-os desde sempre. Sinos de ferro, de latão, de prata – os sinos cantavam. Ao domingo para a missa, nos dias feriados. Troavam quando alguém importante morria e quando havia gente a casar-se. Os sinos repicavam em qualquer ocasião especial. Tinha-se uma sensação agradável quando se ouvia os sinos. Até gostava das campainhas e do sinal de despertar da NBC na rádio. (…) Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida.» (Bob Dylan, Crónicas, Ulisseia, pág. 30.)

Sentir-se em casa é uma expressão plurissignificativa, podendo essa referência a casa dizer respeito ao seu mundo interior, à sua própria segurança enquanto indivíduo, aparentemente indefeso, pois acabara de chegar a New York e, segundo as suas próprias palavras, « não conhecia ali uma única alma (…), mas também às referências paradigmáticas da sua região natal – primeiro Dulluth, depois Hibbing, mas sempre no Minnesota – que primeiro lhe marcaram os sentidos e, se ouvirmos bem as canções e as músicas que realizou pela vida fora, ali permanecem como marca e sinal.

Por isso, quando na entrevista a Ed Bradley, em 2004, Bob Dylan diz que nasceu das pessoas erradas com o nome errado (e portanto também, no local errado, com a religião e a educação erradas) está sem dúvida a mistificar, a fazer o diálogo mudar de perspectiva para não ter que dar explicações – essas, que sempre lhe pareceram intromissões desnecessárias no seu universo privado.

Vejamos: em 2004, Bob Dylan tem 63 anos, uma carreira de quatro décadas, centenas de canções expostas ao mundo e acaba de publicar um livro, onde narra, em primeira pessoa, algumas das suas mais importantes vivências. Será necessário dizer mais de si, seja a quem for? Não estará tudo mais do que expresso nas melodias, nos poemas, nas atitudes e também nos silêncios e na expressão fechada?

Parece assim que Bob Dylan foi entendendo ao longo da vida o sentido de ter nascido Robert Zimmeman, de pais judeus, numa terra de minas e trevas, ainda que a princípio forcejasse por iludir essa circunstância e fechasse, perante os outros e perante si, a sua marca original.

 

     

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: