Ain’t Talkin’

                           AIN’T TALKIN’, JUST WALKING

                

                                             

 

                                                          Regina Sardoeira, O Crepúsculo da Terra, Acrílico s/ Tela (díptico)

    

   Não falo, apenas ando, eis o título e as palavras repetidas do refrão daquela que vamos considerar a última canção escrita por Bob Dylan *.

De imediato convocamos uma imagem, gravada em tela, e aí duas figuras irrompem feitas guardiãs do espaço e uma, do lado esquerdo, representa um tigre, de olhar feroz e boca exibindo presas temíveis, enquanto o lado direito é encimado pelo rosto, a três quartos de Bob Dylan, de boca cerrada e ar circunspecto, qual génio saindo da lâmpada de Aladino, com uma guitarra apenas esboçada, um microfone que rodeia com a mão, e calado, como se dissesse: Não falo! A meio da tela, ergue-se uma enorme nuvem de fumo, indo direita ao céu, escuro, ainda que traçado por raios brilhantes, e, quase a rasar o horizonte, a terra, planeta azul, com a sua lua em quarto crescente, acede ao seu próprio crepúsculo. Na praia, um grupo de pessoas, sentadas em cadeiras de lona, assistem, com absoluta descontracção, ao cenário ou decerto entretêm-se em conversas de acaso, ignorando a catástrofe, crendo que o fumo da explosão mortífera é apenas resultado da fogueira que talvez julguem ter acendido, antes de se sentarem para aguardar o espectáculo.

Associar as duas simbologias – aquela que decidimos designar como sendo a última canção escrita por Bob Dylan (e, se tal nos permitimos, é na exacta medida em que com ela encerra o álbum Modern Times de 2006, pelo que tomaremos essa ordenação como critério) e o quadro, deste modo descrito, concebido no ano de 1998 – levar-nos-á, de um modo metafórico, mas nem por isso privado de significado verosímil, ao cerne da criação poético-musical (e logo existencial) do homem a cuja compreensão pretendemos aceder. Se escrevemos a palavra homem e não artista, músico, poeta, criador, e por aí adiante, é na exacta medida em que o homem Bob Dylan se encontra inevitavelmente comprometido consigo mesmo, no próprio cerne da sua criação, pelo que compreender a obra é aceder a compreender o homem.

Não falo, apenas ando, e no entanto sabemos desta situação através de palavras cantadas, e o tom da melodia, assim como o teor dos signos utilizados remetem-nos para universos inefáveis e místicos onde o caminhante vai passeando a sua dor de viver, a sua raiva, a sua solidão, o seu apelo a forças ocultas, do âmbito do divino, que acolham o caminhante e o enviem para territórios propícios.

Mas esse caminhante é o produto inquieto de uma multiplicidade de eus ou de sis, nenhum deles explicitamente referido ao narrador que por meio deles se vai enunciando, mas participantes exclusivos da vivência deste sujeito que acede a caminhar, calado, por veredas e jardins e estradas e ora se rende esvaído, ora se exalta, em anelos vibráteis, ora assume os contornos do Deus vingador do Antigo Testamento, ora parece evocar os momentos da ressurreição de Jesus, quando o jardineiro abandona o horto do sepulcro.

Talvez não seja de facto Bob Dylan que canta e que por isso fala, talvez ele seja o médium, o porta-voz de outros poderes que assim percorrem estradas e trilhos, jardins e desertos de onde a humanidade se ausentou de vez. Um génio dos tempos perdidos, um deus descrente da sua obra, um demónio vingador, um vidente carregando os arcanos do ser e rugindo por dentro a ferocidade lenta de uma angústia sem fim e a melodia, sombria e terna, porque de contrastes vive este poema, avesso a qualquer interpretação (porque toda a poesia o é), e assim, o que fica é a emanação do trovador e tudo tem que ser levado em consideração, desde as palavras, ora enigmáticas, ora carregadas de uma certa clareza que pode ou não convir ao sentido expresso ou decerto inexpresso, até à voz, síntese dos sons de toda uma vida, doce, e contudo crispada em nasalações impossíveis de aclarar, lamentos nascidos de uma solidão a que chega sempre o homem projectado nas legendas dos outros homens, solidão povoada de memórias, densas e esfumadas, mas todas ali, perdidas e achadas como filamentos do tempo, esse, que parece arrastar-se, cada vez mais lento, e contudo precipitando a voz e o corpo que caminha para territórios indizíveis, onde nada se diz e nada se faz, e a música, sonoridade de crepúsculo, crepúsculo do dia e crepúsculo da vida da terra e dos seres, não falo, só caminho, e levo comigo todos os acasos que outrora me pareceram verdades certas, o pai e a mãe e os amigos e mesmo os inimigos, que dormem em quartos de onde não deixarei que voltem a sair e os rios cujas pontes queimarei para que fiqueis todos do lado de lá, não falo, só caminho, e as cidades estão empestadas e eu quero amar os meus amigos e até fazer bem aos inimigos e não posso porque me afundei no meu próprio eu, em solipsismo desmesurado e até parece que quero dizer-vos isto, que afinal não digo, porque eu não falo só caminho. Faço-me, dezenas de vezes, deus, sim, fui eu que me criei e estou onde queria estar, quando o destino começou a formigar a sola dos meus pés e a coruscar os torvelinhos do meu cérebro e não consigo abrir as mãos que aperto, de mim para mim, cada vez mais, e quero um culto, mas não tenho altares, um culto que me faça render mas não vejo igrejas, e continuo a minha trova dolente, neste livro sonoro que me pus a escrever e que, mesmo calado, não cessarei de desfolhar perante o mundo, esse que não quero conhecer, nem amar, não me diz respeito, eu não o sei, eles não me sabem O meu peito ainda arde, tenho fogo aqui dentro, mas não permitirei que seja visto, cerrarei os olhos e os dentes nesta ânsia de não permitir que entrem na minha voragem – e que me importam as auroras e os crepúsculos, em cuja luz me não banhei, nem banharei jamais?

A poesia, a poesia-canção, tem que ler-se como música e sendo abstracta e não-conceptualizável enquanto possível linguagem, ou acto comunicativo, trava-nos constantemente a emergência do sentido e impele-nos a questionar as linhas da melodia e do poema, ambas tecidas do mesmo material difuso, ora encontrado e logo perdido.

Bob Dylan parece querer comunicar sentimentos e ideias no conteúdo expresso desta história, Ain’t Talkin’ Just Walkin’,  e no entanto o próprio título nos desencoraja, no momento exacto em que nos dispomos a interpretar: o que significa dizer não falo, apenas ando, e apesar disso, durante 8:47 minutos, desenvolver uma espécie de elegia onde as palavras se desvelam para depois se apressarem a ocultar o próprio desvelamento?

                                              *Ain’t Talkin’

As I walked out tonight in the mystic garden /The wounded flowers were dangling from the vine/ I was passing by yon cool crystal fountain/ Someone hit me from behind

Ain’t talking, just walking/ Through this weary world of woe/ Heart burning, still yearning/ No one on earth would ever know

They say prayer has the power to heal /So pray for me, mother/ In the human heart an evil spirit can dwell/ I am trying to love my neighbor and do good unto others/ But oh, mother, things ain’t going well

Ain’t talking, just walking/ I’ll burn that bridge before you can cross/ Heart burning, still yearning/ There’ll be no mercy for you once you’ve lost

Now I’m all worn down by weeping/ My eyes are filled with tears, my lips are dry/ If I catch my opponents ever sleeping/ I’ll just slaughter them where they lie

Ain’t talking, just walking/ Through the world mysterious and vague/ Heart burning, still yearning/ Walking through the cities of the plague.

Well, the whole world is filled with speculation/ The whole wide world which people say is round/ They will tear your mind away from contemplation /They will jump on your misfortune when you’re down

Ain’t talking, just walking/ Eating hog eyed grease in a hog eyed town./ Heart burning, still yearning/ Some day you’ll be glad to have me around.

They will crush you with wealth and power/ Every waking moment you could crack/ I’ll make the most of one last extra hour/ I’ll revenge my father’s death then I’ll step back

Ain’t talking, just walking/ Hand me down my walking cane. /Heart burning, still yearning/ Got to get you out of my miserable brain.

All my loyal and my much-loved companions/ They approve of me and share my code/ I practice a faith that’s been long abandoned/ Ain’t no altars on this long and lonesome road

Ain’t talking, just walking/ My mule is sick, my horse is blind./ Heart burning, still yearning/ Thinking about that girl I left behind.

Well, it’s bright in the heavens and the wheels are flying/ Fame and honor never seem to fade/ The fire gone out but the light is never dying/ Who says I can’t get heavenly aid?

Ain’t talking, just walking /Carrying a dead man’s shield/ Heart burning, still yearning/ Walking with an ache in my heel

The suffering is unending/ Every nook and cranny has it’s tears/ I’m not playing, I’m not pretending /I’m not nursing any superfluous fears

Ain’t talking, just walking/ Walking ever since the other night. /Heart burning, still yearning/ Walking until I’m clean out of sight.

As I walked out in the mystic garden/ On a hot summer day, a hot summer lawn/ Excuse me, ma’am, I beg your pardon/ There’s no one here, the gardener is gone

Ain’t talking, just walking/ Up the road, around the bend./ Heart burning, still yearning/ In the last outback at the world’s end.

 
Bob Dylan, Modern Times, 2006

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: