Altifalante

 

 

Magritte, Le Fils de l´Homme

 

 

 

ALTIFALANTE

 

 

Escrever?

Sim escrever porque não temos púlpito onde falar e a voz que deveria sair natural e espontânea quebra-se num cicio incoerente perante o arrazoado dos que detêm o altifalante

Altifalante reparem esta palavra insípida e nada literária e no entanto era dele que precisávamos nós todos

nós que percebemos o vácuo na plenitude do fraseado dos outros esses que enfunam o peito e pigarreiam nervosamente para que não se perca um átomo de sentido

 Mas que sentido?

Oiçam bem os que berram pelo altifalante oiçam-nos e digam: que sentido?

Nada

nada acrescentam ao já dito nada apresentam que permita lobrigar

ao fundo de qualquer túnel

qualquer beco com saída ou sem saída

porque de facto tanto faz uma luz ou uma cascata ou uma lufada de ar não contaminada

É que não existem luzes cascatas ou lufadas de ar não contaminados

a infestação deu-se há séculos e nenhum antídoto foi criado ou sequer pensado para deter a derrocada final e absolutamente imparável

a derrocada que pode bem já ter acontecido

apesar de sentirmos que vivemos e olharmos o amanhã

como se dele pudesse vir alguma coisa

Escrever?

Talvez nem isso faça qualquer diferença porque ler já não é o que foi antes

ler é um mergulho solipsista na imagem sombria do indivíduo confinado a si e à sua própria miséria pessoal

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