A Sinceridade é a Verdade

         
 
 
 
 
 
Teixeira de Pascoaes na Brazileira (na altura escrevia-se com z…) do Chiado, em 1928
 
 
1 – Teixeira de Pascoaes  2 – Gustavo de Matos Sequeira  3 – Pintor António Soares
4 – Joshua Benoliel  5 – Pintor Adolfo Rodríguez Castañé  6 – Augusto Ferreira Gomes
7 – Pintor Jorge Barradas  8 – Criado de mesa João Franco
 
 
 
 
 
«A SINCERIDADE É A VERDADE»
 
 
         «Na composição da minha obra, recorri sempre às minhas experiências emotivas. Fui sincero. Não procedem assim alguns cientistas livrescos, temperamentos de papel impresso, pedagogos cheios de gogo e míseros sacristães da ciência. Mastigam inconscientemente o latim do missal ou do compêndio…
          Mas o sentimento é a substância original  de todas  as criações intelectuais e o seu ambiente genésico, aquecido, que nelas permanece, tornando-as animadas e impressionantes. Uma ideia, fora do seu ninho seria um esqueleto de pássaro ou planeta sem atmosfera.
         O campo sentimental é o Parnaso dos poetas; uma altura donde se avistam directamente as primeiras verdades.
         Qualquer verdade aparece envolta em nuvens, que se dissipam, mas não de todo. A ideia pura, sem liga emotiva, se existe é no vidro dos óculos científicos, não nos miolos dum sábio, por mais industrializados ou racionalizados. A ideia pura não existe, nem existe pureza de casta alguma. Até a dos anjos é suspeita…diria Camilo, com aquela sua caveira  roída de desenganos, sob uma pele roída das bexigas, mas emanando um  íntimo luar, a luz  romântica da morte. (…) Definir, traçar um recinto fechado, num mundo aberto é como conceber o útil no centro da Inutilidade, ou  encher de números a barriga de um zero, esse burguês…Definir é caso grave, para mim. Quem é que não morre com os seus defeitos agravados? Se os nossos defeitos morrem, as nossas virtudes amam a imortalidade. Imaginam-se da mesma essência dos deuses, que a vaidade é ilimitada, como o próprio homem.
       A minha concepção é pobre; mas pertence-me, como já demonstrei, servindo-me, que tristeza! da cronologia! De resto, quem me souber ler, verificará a verdade demonstrada pela sucesão fatal do tempo psicológico, descoberto por Santo Agostinho.
       Saber ler é saber distinguir o inato do adquirido, o que nasce do que é feito. E é saber acompanhar o escritor em todas as formas do seu pensar. Quando este se nos escapa, como quem foge de avião, ficamos mal-humorados e consideramos o escritor nebuloso, filosófico,  obscuro, germânico, anti-latino e até inglês, conforme a opinião a meu respeito do professor Le Gentil, na sua Litterature Portugaise: «On le croirait intelectualiste, s’il ne se reclamait de l’ínconscient et du subconscient; nationaliste, s’il ne se révèlait, dans l’execution, impregné de lectures anglaises. On le doit juger surtout d’après un poeme ciclique, Maranos, etc..»
       Não conheço a língua de Milton; mas um professor e poeta inglês, Aubrey Bell, acode em minha defesa: «Here too, Teixeira de Pascoaes sets an excellent example, for he is throughly Portuguese and regional, wraped in the life of Traz-os-Montes.»
Conten to breathe his native air
In his own ground. (1)
       Há pessoas de lunetas que me chamam de obscuro, nebuloso, incompreensível e outros nomes colados ao manto da noite pelos que se dizem cotovias matutinas. Vem a propósito recordar uma frase sublime de Vale Inclan: Um poeta quanto mais confuso mais divino. Esta confusão significa distância, longínquo, afastamento. Quem divaga no fim das coisas. nesse remoto litoral, veste-se de sombra crepuscular. Descrever as trevas com palavras luminosas, pintar o negro com tinta branca, é arte parisiense desbotada em lisbonense – , o lúcido espírito latino,  Voltaire e Eça, o Sátiro e o Dandy da ironia, deuses de fogo-fátuo…Mas Voltaire incendiou Paris e Eça incendiou a Piolheira.
          Nebuloso ou obscuro (casos relativos) fui sincero; e a verdade é sinceridade, pouco mais. É verdadeiro o que é sincero, não o útil. A sinceridade existe (olhai o sol); mas duvido muito da existência do útil, para além da côdea e do trapo. A sinceridade é a verdade; e, por isso, há mentiras verdadeiras, como a vida, e verdades mentirosas, como por exemplo, a morte. E é o que há…      [ (1) A. Bell, The Portugaise Litterature , Trad. Port. 1931]»
 
 
 
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal, Assírio & Alvim, 1993, pps 68, 69, 70
 
Evocando o poeta/filósofo Teixeira de Pascoaes, neste Dia de Finados que também foi o da sua génese mortal ou vital – os termos equivalem-se –  escolhi um texto de reflexões auto-biográficas extraído de O Homem Universal, fugindo assim  à tentação simplista de copiar simplesmente um poema e passar adiante.  Homens existem na História, e logo no Tempo e no Espaço, que não podem ser passados adiante sob pena de quase sacrilégio – e este quase indicia apenas a denotação do termo sagrado e não apouca o génio do homem que evoco!
 
2 de Novembro de 1877 – 2 de Novembro de 2008 ou  131 anos de distância entre datas que emolduram a perenidade do homem para além da obra e contudo dela emanando numa corrente contínua e imparável.
 
 

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