DEIXEM-NOS SER PERUS!

 

 

 

 

 

DEIXEM-NOS SER PERUS!

 

O ruído era ensurdecedor e os gritos, estertorosos, absolutamente ininteligíveis, de tal modo brotavam de gargantas enrouquecidas no limiar do pavor.

A Vigilante, com os óculos pendurados apenas por uma haste e caindo sobre o rosto flácido e redondo, levantou-se da secretária com a dificuldade própria das suas formas abundantes, endireitou a saia descomposta naquele surto de sono em que tombara, atravessou a estreita cabina envidraçada, tropeçou em dossiers, blasfemou uns quantos vitupérios a não sei que entidade demoníaca, porque não ousava imprecar o divino, e aproximou-se da janela embaciada.

Centenas de milhares de perus – a sua criação – erguiam as cabeças peladas e arregalavam os olhos, tentando mover-se e contudo absolutamente prisioneiros da falta de espaço, gritando não se sabia o quê, pois eram múltiplas gargantas já roucas num único guincho de dor e raiva.

A Vigilante esfregou os olhos e endireitou os óculos, enrugou o cenho num espasmo de contrariedade, onde ressumava uma malevolência mal disfarçada pela camada de maquilhagem que usava sempre, mesmo na sua torre de Vigilante de Perus, e estarreceu literalmente quando observou bem o aspecto apavorado e sanguinolento daquela multidão, querendo sair do armazém gigantesco, mas incapaz de dar um passo que fosse.

O primeiro dos perus que a viu, desenhada numa espécie de círculo de luz por detrás do vidro baço, passou a palavra aos outros e eis que as pobres asas se abriram como bandeiras, quebrando as penas umas de encontro às outras, exibindo um dístico multiplicado por centenas de milhar, pois todos o haviam decalcado nas costas ou nas asas ou no peito, um dístico marcado a vermelho – e era a metáfora do sangue verdadeiro que parecia prestes a jorrar. Presa de horror, a Vigilante leu o grito fantástico: DEIXEM-NOS SER PERUS!!!!

Banhada em suor nauseabundo, afastou-se da janela e tentou absorver o sentido daquela espécie de pedido. Deixem-nos ser perus? Mas não era isso que eram já aqueles animais e não era isso mesmo que haviam sido sempre? Porquê reivindicar de repente uma prerrogativa que já possuíam há milhares de anos?

Olhou de novo, desta vez agachada para que não suspeitassem da sua presença, o seu exército de perus, ali conservado com o único objectivo de servir o povo – muito em breve aguardando em fila, à porta do armazém, pois aproximava-se o Natal – e de, ao mesmo tempo, rechear de uma abundante maquia a sua já sólida conta bancária, visto que a Vigilante era dona e senhora absoluta do armazém e a sua reputação havia ganho tais proporções que nenhum superior hierárquico ousara até ao momento retirar-lhe o poder.

Apurando o ouvido conseguiu suspeitar, mais do que realmente entender, a causa da reivindicação maciça e absolutamente inesperada dos seus animais, pois – toda a gente sabia – os perus são animais cordatos e se permanecem unidos é porque lhes costumam dar pouco espaço e não por sentirem unanimidade de gostos ou de opiniões. A verdade é que a Vigilante, com o intuito exclusivo de tirar mais rendimento da criação, concebera um novo alimento, depois de pesquisar noutros países – Turquelândia e Turquevile principalmente – conhecidos por serem pioneiros na arte de alimentar perus com um dispêndio económico mínimo, pelo qual as aves cresciam parecendo suculentas e (era esta a parte melhor da sua descoberta) com grande fragilidade nas penas, o que constituía uma vantagem no momento de as preparar para o forno.

            Era essa então a reivindicação do seu exército de perus! E ela nunca poderia conjecturar que esses animais, tão passivos e até mesmo inconscientes, acabassem por entender que a mistela engendrada e concentrada em pacotes de dimensões consideráveis, posta ali todas as manhãs, não havia sido feita para perus, apenas adaptada de outros animais estrangeiros, com outras características genéticas e mesmo culturais, e que, por isso, estava a retirar-lhes lentamente toda a sua identidade. Mas a verdade é que ali estavam eles, feitos exército, gritando e exibindo, num acinte de horror, os traseiros tatuados com o dístico sangrento: DEIXEM-NOS SER PERUS! e já forçavam as asas, pouco habituadas a voar, a alçarem-se até à torre de vigilância, onde sabiam estar acoitada a sua implacável verduga, e já pairava nos ares embaciados uma nuvem de penas arrancadas, pobres penas tornadas frágeis pelo alimento importado de outras regiões onde, decerto, perus menos sensíveis ou de outra índole sabiam sobreviver, comendo-o.

            Bruscamente, um ruído de estilhaços obrigou a Vigilante a recuar até ao fundo do seu cubículo na Torre de Vigia, e foi de tal modo tremendo o impacto, que ela sentiu que morreria mesmo se não viesse o auxílio – que se esquecera de pedir, no ápice da surpresa. E foi esta espécie de antecipação de uma morte terrível que devolveu a autêntica vigília à adormecida Vigilante de Perus, afinal recostada de boca aberta sobre o sofá da sala de estar, colocado à frente de um ecrã de televisão de dimensões consideráveis no qual se via desfilar, pelas ruas da cidade, uma multidão de gente com bandeiras erguidas e camisolas estampadas onde se lia a frase do seu pesadelo: DEIXEM-NOS SER…. Não leu até ao fim a legenda centenas de milhar de vezes reproduzida, desligou o aparelho com as mãos trémulas, atravessou o aposento, abriu a porta da casa de banho, encheu de água o lavatório e, com uma espécie de delírio neurótico, lavou e lavou e esfregou e voltou a esfregar as duas mãos que tinha, mas que lhe pareciam centenas de milhar, até voltar a sentir-se aquela que de facto era.

           

 

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