A Avaliação do Desempenho Docente (Parte II)

 
 
 
 
    
 
 
 
A AVALIAÇÃO DO DESEMPRNHO DOCENTE (PARTE II)
 
 
 
Pode parecer, a um público menos atento ou informado, que  a alegada simplificação do processo de avaliação do desempenho docente decidida ontem em conselho de ministros e anunciada, em primeira pessoa, pela ministra da educação resolve os problemas dos docentes que podem daqui em diante sossegar, levando para a frente o ano lectivo e as suas actividades, com ânimo renovado. Contudo, não é isso que os professores sentem, pois, o que primeiro solicitaram e depois exigiram não foi contemplado, ou seja: a suspensão imediata deste modelo e a sua substituição por outro.
Dizer que, na essência, o modelo nem foi "beliscado"  (palavra utilizada pela ministra da educação) significa exactamente que se mantêm os vícios de base – a saber: a divisão dos professores em duas categorias, a transformação automática de professores titulares em avaliadores, a necessidade de continuar a coleccionar fichas de registos,  ainda que em menor número ou simplificadas, as aulas assistidas a pedido e para quem queira ter Muito Bom ou Excelente (sofisma extraordinário uma vez que, a manter-se o regime das quotas, nem vejo como irá chegar-se a este ponto), a omissão de recursos efectivos capazes de contribuirem para a real formação dos professores e consequente melhoria da qualidade de ensino prestada – e, por outro lado, algumas das alterações urdidas, parecendo que simplificam, vêm obrigar a toda uma revisão daquilo que já havia sido feito e, logo a regressar ao início do processo. Por exemplo: alterar neste momento os horários dos avaliadores, quando estamos a menos de um mês do final do primeiro período lectivo, irá provocar, sem qualquer dúvida, alterações nos horários de outros docentes e, ao mesmo tempo, nos dos alunos, pois os horários estão em estreita dependência uns dos outros o que será causa de perturbação, descontentamento e readaptação. Retirar, agora, da definição dos objectivos dos professores os resultados dos alunos invalida todo o trabalho já efectuado até ao momento (nomeadamente os dois dias de avaliação intercalar, em que nos debruçámos sobre os resultados dos testes diagnóstico, sobre os resultados dos alunos no ano enterior, definindo estratégias, com vista ao sucesso) e reenvia este processo para o próximo ano, uma vez que, se o modelo vai manter-se, na essência, este parâmetro continuará a aplicar-se, sendo somente adiado. Dizer que os professores serão avaliados por docentes da sua área disciplinar é, teoricamente, fácil; contudo, continuando essa tarefa a pertencer exclusivamente aos titulares e continuando a não haver titulares em todas as áreas, não vejo como poderá isto acontecer na prática, a menos que os docentes exijam avaliadores vindos de fora o que (basta raciocinar um pouco) trará dificuldades de vária ordem: os avaliados terão que solicitar um avaliador creditado e esse avaliador terá que ser encontrado e estar disponível, de acordo com o horário do docente e de acordo com o seu próprio horário.
A manobra do conselho de ministros – porque, segundo as informações veiculadas, a alteração proveio do conselho de ministros e não do ministério da educação – é francamente política e logo eleitoralista, visa confundir a opinião pública que, cansada de tanta agitação em torno de um assunto cujos meandros lhe escapam, pois só a classe docente os conhece na íntegra, ficará convencida de que afinal as reivindicações foram atendidas (quando a ministra diz, mentindo, que não recebeu quaisquer pedidos de suspensão da avaliação), que o governo recuou, quando se limitou a retirar do conjunto do modelo alguns itens, mas apenas por enquanto, e não irá entender que os protestos continuem. Os próprios professores denunciam cansaço, ou seja, perante tantos movimentos de avanço e recuo, de inflexibilidade e de aparente abertura, muitos docentes já nem saberão nesta hora o que fazer ou como proceder.
As contradições e falsidades da ministra da educação –  que, atendendo ao facto de ser ministra e logo, segundo o sentido intrínseco da palavra,dever «servir» e, em acréscimo, da educação, o que teria que fazer dela um modelo, pois é isso que devem ser, antes de mais, os educadores –  são, neste momento, em tão grande número, que talvez nem seja possível registá-las todas.
Em primeiro lugar, ela considerou o modelo de avaliação de desempenho exequível, logo fácil, atribuindo, posteriormente, as dificuldades à incapacidade dos docentes de entender os meandros do processo; a seguir, veio declarar que o facto de estar a ser difícil de aplicá-lo, na prática, se deveria exclusivamente ao estilo dos professores portugueses que gostam de fazer tudo muito bem e que, por isso, acabam complicando o que, no fundo, é fácil. Por fim, assume de novo que , afinal, o modelo é difícil, e dispõe-se a simplificar! Por outro lado, os professores pregam que a abundância de registos e fichas a serem produzidas torna o modelo burocrático em excesso; a ministra diz que só há duas fichas para preencher e que a burocracia advém da já citada mania que os professores têm de executar tudo muito bem; por fim, admite a carga burocrática do processo e propala a necessidade de reduzir o volume das fichas! Desde Março de 2008 (pelo menos) que os professores  se movimentam no sentido de pedir a suspensão deste modelo, propondo efectivamente, outros procedimentos. O que faz a ministra? Simplifica o modelo em 2007/2008, deixa passar o Verão e, em Setembro, atira com o modelo para as escolas exactamente como estava antes de ser simplificado! Após alguns meses de tentativa de aplicá-lo, obedecendo, os professores dão-se conta, agora com renovada acutilância (pois começaram, de facto, a proceder no sentido de aplicá-lo) dos seus vícios, das suas ambiguidades, das suas injustiças e da sua inexequibilidade em muitos parâmetros; protestam de novo, ainda mais esmagadoramente, multiplicam as tomadas de posição nas escolas, ao longo do país, enviando para o ministério pedidos de suspensão, exigências de suspensão, abaixo-assinados em que as escolas decidem suspender o que não podem executar. A ministra declara que não recebeu qualquer pedido de suspensão, muito menos qualquer proposta-substituta do modelo, o que foi efectivamente realizado e apresentado, quer pelos sindicatos, quer pelos grupos parlamentares, quer por grupos de professores para tal creditados.
Que pensar de tudo isto e, pior ainda, o que fazer?
Pela parte que me toca prossigo a minha tarefa principal: vou todos os dias para a  escola, dou as aulas, elaboro testes e corrijo-os, cumpro as «horas-extra», ou seja, aqueles tempos em que tenho que estar na Biblioteca (porque assim o diz o meu horário) ou aquelas horas em que tenho que substituir professores em falta (confesso que estou a ficar especialista em inventar tarefas e exercícios para alunos de 7º ano, com professor ausente – e eu que até agora achava que , sendo professora de filosofia só deveria leccionar alunos do ensino secundário, ou seja, a partir do 10º ano, vejo-me forçada a inventar planos de aula para outras faixas etárias substituindo professores de disciplinas variadas – e, apesar da extrema confusão e perplexidade que vejo pairar sobre mim e à minha volta continuo a ser acima de tudo professora!
 

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