Teste de Filosofia

 

Considero-me escritora e filósofa e assim me enuncio no perfil; porém, este ano sou, acima de tudo, professora de Filosofia, o que é e não é ser escritora e filósofa! É, na medida em que produzo constantemente textos, logo escrevo, na medida em que exercito constantemente o pensamento, logo filosofo; não é, na medida em que realizo estas duas actividades sujeita a horário, sob pressão e em luta acesa com interlocutores um pouco perdidos e muito imaturos! Para manter a página activa não tenho outro remédio senão publicar aquilo que produzo e, por isso, eis aqui um teste que dei há umas semanas atrás a uma das minhas turmas do 11º ano, que corrigi e entreguei e a quem facultei a correcção integral por escrito e que também publico!

 

 

TESTE DE FILOSOFIA

 

11º ANO 

 

Objectivos

                    

 

 

                     I Perceber se os alunos adquiriram o vocabulário específico necessário ao tratamento das questões gnoseológicas;

                     II Testar a capacidade de análise de um texto, a compreensão do pensamento nele expresso e o nível de argumentação que os aluno detêm neste momento.

GRUPO I

 

1.      Considere o texto seguinte. Reescreva-o, utilizando os termos constantes da lista abaixo, e faça uma síntese do seu conteúdo.

 

O ———- e a utilização da ——— constituem, nos ——– do conhecimento e da ———, dois elementos ——— de uma unidade. A sua ——- é tão orgânica, a sua ———– tão estreita, que nenhum dos dois ——— jamais se pode manifestar ————- sob uma forma “pura”.(…)

O pensamento e a ———- da linguagem devem ser ——- como dois ——– de um único processo: o processo ——– do conhecimento do mundo pelo———, da reflexão sobre o ———- e da ———– dos seus ———- a outros indivíduos.

 

Adam Schaff, Linguagem e Conhecimento, Coimbra, p. 209

            

       

 

homogéneo; homem; pensamento; processos; união; elementos; independentemente; comunicação; captados; aspectos; utilização; resultados; interdependência; conhecimento; linguagem; indissociáveis; independentemente.

 

 

GRUPO II

1.     

 

Leia atentamente o texto seguinte. Em seguida, elabore uma argumentação que lhe permita situar a posição do autor relativamente ao problema da Possibilidade, Valor e Limites do Conhecimento.

(…) Suponham que um homem, se bem que dotado das mais poderosas faculdades da razão e da reflexão, é subitamente transportado para este mundo. Certamente notaria de imediato, uma constante sucessão de objectos, um acontecimento seguindo-se a outro; mas, seria incapaz de se aperceber de algo diferente. Em primeiro lugar, seria incapaz de chegar à ideia de causa e de efeito através de qualquer raciocínio, porque as capacidades específicas que realizam todas as operações naturais nunca são evidentes aos sentidos; e não é legítimo concluir, somente porque um acontecimento precede um outro numa única ocasião, que um é a causa e o outro é o efeito. A sua ligação pode ser arbitrária e acidental. Não há razão para inferir a existência de um a partir do aparecimento do outro. Em resumo: um homem como esse, sem outra experiência, nunca faria conjecturas ou raciocínios acerca de qualquer questão de facto; não estaria seguro de nada, excepto do que está imediatamente presente à sua memória e aos seus sentidos. (…)

 

 

COTAÇÕES:

 

 

I GRUPO

Reescrita correcta do texto…………………………….80 pontos

Síntese…………………………………………………20 pontos

 

II GRUPO

Argumentação adequada……………………………….90 pontos

Identificação correcta da corrente gnoseológica……….10 pontos

 

TOTAL……………………………………………….200 pontos

 

 

 

A Professora

 

 

Regina Sardoeira

 

 

Correcção do teste

 

GRUPO I

            

 

O pensamento e a utilização da linguagem constituem, nos processos do conhecimento e da comunicação, dois elementos indissociáveis de uma unidade. A sua união é tão orgânica, a sua interdependência tão estreita, que nenhum dos dois elementos jamais se pode manifestar independentemente sob uma forma “pura”. (…)

O pensamento e a utilização da linguagem devem ser captados como dois aspectos de um único processo: o processo homogéneo do conhecimento do mundo pelo homem, da reflexão sobre o conhecimento e da comunicação dos seus resultados a outros indivíduos.

 

Síntese: O processo do conhecimento, sendo homogéneo, admite, contudo, a colaboração de dois elementos, a saber: o pensamento e a utilização da linguagem. Pelo primeiro, o real é captado; pela segunda, pode ser comunicado aos outros indivíduos.

 

GRUPO II

 

O autor do texto parte de uma suposição: a de que um homem «dotado das mais poderosas faculdades da razão e da reflexão», fosse «subitamente transportado para este mundo». Tratando-se de uma suposição do autor, tal afirmação não nos permite concluir que ele admita o carácter inato dessas duas faculdades (razão e reflexão), mas apenas que se dispõe a supor essa realidade como ponto de partida para a reflexão posterior. De facto, continua, afirmando, que esse homem imaginário, colocado pela primeira vez perante o mundo, apenas «notaria de imediato uma constante sucessão de objectos, um acontecimento seguindo-se a outro; mas seria incapaz de se aperceber de algo diferente.», o que nos faz entender que, muito embora possuidor de poderosas faculdades de razão e de reflexão, elas de nada lhe serviriam no que diz respeito, por exemplo, e em primeiro lugar, à captação da « ideia de causa e efeito, através de qualquer raciocínio.» pois, seguindo a sequência das razões apontadas no texto, perceber um acontecimento a seguir a outro, não nos permite concluir necessariamente que um é a causa e o outro o efeito. Vemos então que mesmo uma poderosa capacidade de raciocinar e de reflectir é incapaz de perceber, pela simples observação das coisas, qualquer relação de causa e efeito com valor absoluto, dado que uma tal verificação se revelaria «arbitrária e acidental.».

Regressando à suposição inicial do texto e confrontando essa hipótese com os argumentos apresentados posteriormente, percebemos que o autor desvaloriza, em absoluto, as capacidades racionais do homem, pois delas não pode nunca decorrer a simples relação de causalidade, mas apenas a constatação de uma sequência ordenada de acontecimentos, operada pela via dos sentidos, os quais apreendem objectos e acontecimentos, em «arbitrária e acidental organização». Esta organização arbitrária e acidental levar-nos-á a ter sensações, a sermos capazes de uma orientação no mundo, pela força do hábito, e logo da experiência, mas nada de universal e de absoluto poderemos conhecer, a partir dessas verificações empíricas.

No entanto, apenas o parágrafo final do texto nos permite decidir, sem margem para dúvidas, a posição gnoseológica do autor quanto à Possibilidade, Valor e Limites do Conhecimento. «Um homem como esse, sem outra experiência» – a experiência da constatação de uma sucessão de acontecimentos e de objectos – «nunca faria conjecturas ou raciocínios acerca de qualquer questão de facto.» – e logo seria incapaz de conhecimentos evidentes. O autor assim o declara, dizendo que, tal homem «não estaria seguro de nada, excepto do que está imediatamente presente à sua memória e aos seus sentidos.», recusando, com esta conclusão, qualquer possibilidade de conhecimento certo. Com efeito, um homem assim, dotado de «uma poderosa capacidade de razão e reflexão» não seria, contudo, capaz de estabelecer uma articulação entre tal capacidade e os dados sensíveis, «captados como sucessões de objectos e de acontecimentos», sem nenhuma espécie de nexo causal. Nessa medida, o valor do seu conhecimento não seria nenhum, pois nada lhe restaria a não ser «o que está imediatamente presente à memória e aos sentidos» ou seja, uma acumulação de sensações sem qualquer vínculo entre si. Este homem defrontar-se-ia com os limites da sua própria razão, incapaz de estabelecer uma relação com a sensibilidade e, por essa via, aceder ao conhecimento universal; ver-se-ia, portanto, imerso no mais radical dos cepticismos, visto que o acto de captar sensações e acumulá-las, podendo trazê-las, eventualmente, à memória não merece, sequer, o nome de conhecimento, sendo considerado pelo autor «ligação arbitrária e acidental». Esta atitude céptica reforça-se em outra parte do parágrafo final, quando o autor escreve «um homem como esse, sem outra experiência, nunca faria conjecturas ou raciocínios acerca de qualquer questão de facto», visto que ele está confinado ao poder das suas sensações e jamais consegue conhecer para além delas, pois apenas a memória lhe permite uma ligeira e fraca evocação das impressões captadas pela sensibilidade.

Chegados a este ponto, podemos agora entender a suposição inicial do autor: ele pretendeu, através dela, negar a hipótese inatista do racionalismo cartesiano, visto que, levando em conta a sequência das ideias presentes no texto, nem mesmo um homem dotado à nascença dessas faculdades (a razão e a reflexão) seria capaz do conhecimento, estabelecendo um nexo de causa a efeito entre duas constatações efectuadas pela sensibilidade.

Mesmo não conhecendo o nome do autor do texto, é possível, após esta análise, perceber que estamos perante um pensador empirista – ele nega o valor da razão, pois não lhe reconhece capacidade de estabelecer relações de causa a efeito – enaltecendo a experiência sensível, pois apenas ela permite notar «uma constante sucessão de objectos, um acontecimento seguindo-se a outro.». Esse é todo o conhecimento de que o homem é capaz. Já vimos que a suposição inicial pretende constituir-se numa crítica às ideias inatas defendidas por Descartes, o que coloca o autor, cronologicamente, numa época posterior ao século XVII. No entanto, a incapacidade anunciada de inter-relação da sensibilidade com os poderes da razão – o homem é incapaz de perceber, numa sucessão de acontecimentos, a relação de causa e efeito – mostra que o autor do texto é pré-kantiano ou anti-kantiano, pois é a Kant que a filosofia deve a demonstração de que as duas faculdades do homem – razão e experiência – podem articular-se harmoniosamente, ao nível do entendimento, produzindo o único conhecimento possível – o científico – no interior do qual a causalidade é uma forma a priori do entendimento, e logo capaz de transformar o «arbitrário e acidental» em necessário e universal. Ora, o autor deste texto nega o princípio da causalidade, e esta negação anula a possibilidade de conhecimento seguro, que para Kant era possível, ao nível do entendimento.

Partindo do princípio que fizemos um estudo profundo de autores como Platão, Descartes, Jonh Locke, David Hume e Kant e que, neste momento, assimilamos o principal do pensamento desses autores torna-se evidente estarmos perante o cepticismo de David Hume, o qual centrou a sua atenção na defesa do empirismo e na negação do poder inato da razão, caindo no empirismo céptico e logo na impossibilidade do conhecimento científico.

 

 

 

 

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