«Binómio Mortal»

 

Dalí Atomicus, Philip Halsman, Fotógrafo (1906-1979) 

 

 

 

«BINÓMIO MORTAL»

 

 

«O que pode em geral dizer-se pode dizer-se claramente; acerca daquilo de que se não pode falar tem que se ficar em silêncio.». (Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, p.131)»

 

«Neste mortal binómio Ministério/professores alguém quererá – de facto – salvar os alunos?» (Maria João Avilez, Sábado, in Público, 12 Dezembro 2008)

 

Desde que li no jornal Público a frase em epígrafe de Maria João Avilez que penso obstinadamente na sentença que encerra o livro, também citado, de Wittgenstein.

A citação de Wittgenstein é dupla e daria azo a inúmeras especulações mas não é especular que pretendo e é por isso que ela me serve tão bem. Vejamos: posso, em geral, dizer alguma coisa sobre algum assunto? Posso dizê-lo claramente. Não posso falar deste ou daquele assunto? Devo calar-me. E então eu posso falar de ensino, de avaliação de alunos e de professores, de filosofia, de métodos pedagógicos e por aí adiante. «Posso», porque sou professora, em primeiro lugar; e «posso falar claramente» porque estou imbuída do espírito do problema em que se tornou o ensino em Portugal. Por outro lado, Maria João Avilez é jornalista, não está imbuída do mesmo espírito que eu e, por essa razão não pode falar deste assunto; logo deve calar-se.

Como sei tão claramente que a autora desta frase não pode falar daquilo que não sabe e que, por isso, devia calar-se?

Se ela soubesse sobre o que está a escrever nunca afirmaria que os alunos estão desprotegidos no interior daquilo a que chama «mortal binómio Ministério/Professores»; e não o sustentaria porque, sendo professora, estaria no «teatro» da sala de aula a cumprir o seu papel exactamente como em tempos mais pacíficos, pois é precisamente o que eu, enquanto professora, tenho feito e, comigo, milhares de professores em todo o país. Sei-o, portanto, desse saber pessoal, e também porque o verifico, quotidianamente, no funcionamento da minha escola. Sei que apesar do tumulto gerado à nossa volta, apesar de estarmos efectivamente em luta, não por capricho ou por mera teimosia, mas porque efectivamente estamos a ser punidos, quais bodes expiatórios, e atirados para uma batalha que em nada tem favorecido a nossa imagem pública, batalha essa que, aos poucos, se transformou num amontoado de procedimentos absurdos e de desvarios onde ninguém sabe muito bem o seu verdadeiro papel, apesar de tudo isso, o que se passa nas salas de aula entre alunos e professores não tem sofrido a menor beliscadura. Posso falar disto e posso fazê-lo claramente porque, chegados que estamos ao final do primeiro período, posso afirmar que cumpri integralmente o meu horário lectivo e não-lectivo, respeitei as planificações múltiplas que realizei, levei a cabo junto dos meus alunos todas as acções necessárias e possíveis para que eles sentissem que eu sou a professora que já conheciam e que sempre fui.

O que se passa é apenas isto: nós, professores, continuamos a dar as aulas e a cumprir todos os deveres inerentes à nossa função pelo que, ao nível das aulas e da assistência aos alunos, tudo continua no seu lugar; por outro lado, é a nossa vida pessoal que está a ser violentamente agredida, é no plano estritamente individual, familiar e social que esta guerra desigual, travada com armas também desiguais, tem espalhado os seus efeitos devastadores.

Os alunos estão, por isso, verdadeiramente salvos, os professores não só não os abandonaram como, mesmo embrenhados em batalhas burocráticas, em batalhas reivindicativas, em batalhas de gestão pessoal do tempo e por aí adiante continuam firmemente a comparecer todos os dias nas salas de aula e a cumprir o seu papel. Posso falar disso e faço-o claramente: sou professora, participo como todos na guerra a que a jornalista chama «mortal binómio Ministério/Professores» mas não deixei, um dia sequer de comparecer na escola para cumprir o meu horário integralmente. Não deixei de elaborar testes e de os corrigir, durante o fim-de-semana e pela noite dentro, não deixei de planificar minuciosamente todas as aulas e cada uma, não deixei de definir planos e estratégias direccionados para o sucesso real dos alunos que lecciono.

Considerar que existe um «binómio mortal Ministério/Professores» é proferir um absurdo já que um binómio é uma combinação harmoniosa de duas partes não podendo por isso ser mortal – o significado latente desta expressão usada pela jornalista anula-se a si próprio: um binómio resolve-se segundo os padrões matemáticos, a morte é o fim de todas as resoluções vitais, pelo que não existem binómios mortais!

E então recupero Wittgenstein e digo a jornalistas, políticos, advogados, engenheiros, agricultores (…) que «o que pode em geral dizer-se pode dizer-se claramente; acerca daquilo de que se não pode falar tem que se ficar em silêncio.»

 

 

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