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Voltar atrás, essa irrecusável proeza da mente, contrariada pelo realismo de um cronómetro que nos empurra para a frente, negada pelo cepticismo dos realistas que não se perdem em elucubrações, combatida pelo frenesim dos que lutam pela vida nas arenas cruas da moeda, voltar atrás é possível quando se deixou escrito na pedra uma porção de vida. E eu voltei atrás.

Essa viagem, breve e precisa, fez-me abanar a cabeça repetidas vezes, não de repúdio ou de negação, mas de mim para mim mesma, um abanar de cabeça de uma espécie particular de desalento, esse, que segundo as tradições poético-românticas do nosso território geogáfico e humano, nos acende a saudade, num fogo brando de inquietação mesclada de soluços e lágrimas. Isso, a saudade ergueu-se e mostrou-me que os paraísos encontrados são alucinações e que qualquer frase poética disfarça um inquestionável prosaísmo bárbaro, daqueles usados somente para fazer negócio e discutir em mercados e praças o valor das transações. Tenho pena de chamar prosaísmo a essas lamentáveis composições insidiosas, escritas para, ali, homenagearem uma pessoa e, arrebatadas para outro lado, exactamente iguais, sem a troca de uma palavra ou o disfarce de uma vírgula, homenageando outra; tenho pena de chamar prosaísmo a este ardil, porque a prosa merece-me respeito quando é pura e serve fins superiores, a prosa é a maioridade humana da coerência e do acerto, a prosa é o veículo privilegiado da entrega à humanidade, de obras por onde salta o génio. E no entanto, o prosaísmo é a alusão pejorativa ao uso insolente da palavra, ao abuso arrogante das frases, feitas e refeitas, que outrora achei prenúncios de génio escondido e que depois vi serem o escape habilidoso de  pescadores de almas incautas.

E contudo, de um modo incoerente, porque a emoção substitui-se, a espaços, ao rigor da análise, lamentei que tivesse ficado para trás, num sótão qualquer da imaginação ou do sonho (que ambos partilham um espaço de segredos) esse tempo, perdido para os outros, que pensam estar caminhando em frente quando se aventuram por novos/mesmos territórios.

O mundo dos homens é este indecoro de pretensas subtilezas, trazidas para a cena pública sem o revestimento do pudor ou a dignidade do sentimento lídimo, é este saltar de rosto em rosto tentando apanhar o que a sombra dos olhos vela e exaltar o que permanecia em sono inquieto e subitamente se entrega, desperto e esperançoso. É esse o sinal do prosaísmo, que não da prosa, o sinal de espíritos vagueantes e inconformados na própria solidão e logo atirando flechas envenenadas, daquele veneno disfarçado em cores  balsâmicas e adornado de sabores prodigiosos, mas infecto, coberto de pérolas, e contudo desfiadas num enfeite impossível de prender.

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