A Mosca

           

 

                                     

                                              Jackson  Pollock (Homenagem ao aniversário do pintor)

                                                                      

 

 

 

                                                                           A   MOSCA

 

 

           Quando tinha quinze anos a vida dela mudou, embora, naquele dia exacto em que, por assim dizer, nasceu de novo, o único incidente, desagradável a princípio e vagamente repugnante nas horas e nos dias seguintes, foi ter engolido uma mosca.

            Recordava o caso com todos os pormenores. Era Verão, o meio de Julho, escaldante e sem brisa, ela estava sentada, no alpendre da casa de campo onde vivia, com um livro, cuja leitura interrompia a espaços, pois não conseguia evitar os bocejos cada vez mais prolongados. Tinha saído de casa ao princípio da tarde para dar um passeio até ao ribeiro que serpenteava nos limites da propriedade e, para tal, atravessara o jardim onde as rosas marcavam presença e muitas outras flores cujos nomes ignorava, mas cujo odor mesclado lhe provocou um início de náusea, franqueara o pequeno portal que dividia o jardim do prado e dera uns passos hesitantes pelo meio da erva. Sentia-se estranhamente apática e o seu olhar, em geral doce ou errático, estava mortiço, como se necessitasse urgentemente de um motivo de excitação ou se, pelo contrário, fechar os olhos e dormir tivesse poder para lhe devolver a vivacidade. Sacudiu os cabelos lisos de um ruivo escuro, entremeados de madeixas francamente vermelhas, que usava cortados de modo assimétrico com umas mechas soltas quase a tapar a testa oblonga. Bocejou uma vez, entreabrindo a boca pequena de lábios finos e sibilinos e abriu os braços, numa espreguiçadela voluptuosa, erguendo o corpo esguio para um céu alvacento, semeado de nuvens minúsculas, impotentes para deter a secura tórrida do sol que lhe pareceu um vingador impiedoso do seu tempo, ali perdido. Voltou para trás, evitou o perfume obsceno do jardim, contornando a cerca, e optou pela frescura relativa do alpendre onde o livro esquecido lhe cativou, por algum tempo, a atenção dispersa. Leu trechos soltos de O Crime e Castigo de Dostoievski, e um prazer violento afastou a sonolência impenitente, perante a febre de Raskolkinov e deleitou-se barbaramente com os rasgões do sofá onde ele revolvia a sua necessidade insana de provar a si mesmo que estava para lá do bem e do mal, que era um Napoleão e não um piolho rançoso, cujo esmagamento o grande tem obrigação absoluta de levar a cabo. Amava Raskolkinov, assim mesmo como lhe aparecia, pálido mas de olhos brilhantes de febre e de maldade, mas odiava-o por não ter sido capaz de permanecer à altura do seu crime e odiava ainda mais a doce Sónia, sedenta de redenção. Detestava doçuras messiânicas, era dura e cruel, embora disfarçasse os seus infernos, os seus rasgos de ódio e a sua pulsão brutal para a violência, com o pestanejar submisso dos olhos que tinha grandes e belos, falsamente doces, falsamente indiciadores de bondade. Costumava orlá-los de eye-liner negro, para fazer sobressair a profundidade das pupilas aveludadas de um castanho suave e, mesmo detestando do fundo do coração, que sabia ter apertado e duro, todo aquele que lhe procurava o rosto e mergulhava na pureza dos seus olhos, não deixava de os ornamentar para si mesma, pois amava-se acima de tudo e a si mesma apenas queria coroar de afecto.

            Apesar do mórbido fascínio pelo livro amachucado, lido e relido até aos limites da resistência intelectual, porque nada de sentimental conseguia adequar ainda às palavras repisadas, o bocejo regressou, e a náusea, e o tédio, e foi nesse preciso instante que a mosca lhe desceu pelo nariz demasiado fino, e contudo aquilino, um nariz detestável, de falso judaísmo fisionómico, e com um zumbido discreto lhe entrou pelos lábios ressequidos. A surpresa foi de tal ordem, que só conseguiu fechar a boca e tentar cuspir o insecto, ainda vivo, preso na armadilha da saliva; mas, num desnorteamento plausível, a mosca continuou o seu caminho, sempre em frente, desceu pela garganta cálida e nunca mais pôde sair.

            Não teve nojo, nem procurou estimular o vómito para libertar-se do que acabara de entrar-lhe no estômago; pelo contrário, um prazer inesperado foi nascendo da leve cócega que sentia nas paredes surpresas do esófago, na suave irritação dos seus fluidos estomacais, decerto confusos perante o vivo e inusitado alimento. Depois esqueceu tudo.

            Na noite desse dia, uma quinta-feira, sabia-o bem, pois era quando podia, sem sobressaltos ou medos encontrar o rapaz, com quem se entretinha num namoro impreciso, já que a regularidade odiosa dos hábitos do pai inventara um calendário de saídas e aquela era a noite do cinema, dedicada à mãe, que se libertava por umas horas da escravidão do lar  e podia vestir um traje de semi-gala e ostentar as suas pérolas, em geral guardadas no pequeno relicário, feito para efígies de santos, mas profanamente usado no resguardo de anéis pulseiras e outras bugigangas de valor variável, saiu para os lados obscuros do ribeiro, na orla do prado, onde costumava deixar-se beijar e tocar nas parcas incursões do inocente e ingénuo púbere, que não lhe interessava nada mas lhe entretinha o tédio aflitivo das suas horas de então. O jovem apareceu, ansioso, e via-se que o incendiava uma verdadeira paixão pela cruel criatura de olhos mascarados e ela deu-lhe a mão, fingindo uma ternura que parecia emanar da pele acetinada dos seus dedos, do rubor indeciso dos seus lábios finos. Mas quando, encostados a um plátano centenário, cujo tronco, almofadado de um musgo cálido lhes parecia um doce cetim, os lábios dele lhe tocaram voluptuosamente a face e depois a boca, ela pensou na mosca viva que engolira há umas horas atrás e esse pensamento inapropriado, pois a boca que estava a ser beijada era a mesma por onde o insecto entrara e onde decerto ainda pairava um ou outro átomo dele desprendido, encheu-a de júbilo maldoso, pois sabia que o jovem namorado estava de todo inocente das incursões da mosca por aquela boca que agarrava com fervor e que à dele começou a render-se com paixão desusada. Não conseguia rir-se como desejava, pois tinha os lábios ocupados numa sucção desmedida, mas o seu coração, duro e apertado, começou, naquele momento, a dilatar-se e ela soube que estava a soltar gargalhadas estrepitosas, bem no fundo de si, e que isso não podia ser, pois nenhum som lhe saía da garganta presa. Percebeu que, por um estranho e ainda inviolado segredo, a mosca estava assimilada aos seus órgãos vitais, que a mosca dançava e zumbia nas suas veias e pulsava no ritmo pausado do seu coração e vibrava na textura fina dos seus pulsos e do seu sexo. Sentiu-se feliz!

            Depois acabou o Verão e ela esqueceu a quinta-feira perdida numa bruma turva e cálida e nesse esquecimento foi também a memória do primeiro beijo verdadeiramente vivo da sua existência, um beijo mordaz e cínico, pleno de gargalhadas viscerais e onde a mosca engolida, com todo o seu arsenal de imundície e zumbidos, lhe ditou as linhas do seu autêntico carácter.

            Tornou-se vegetariana a partir daquela noite, nunca mais conseguiu suportar o odor e a coloração de todos e de cada um dos pratos de carne ou peixe que até então comia sem reservas. Nem tão-pouco era capaz de olhar os pedaços de vitela ou de porco expostos nas vitrinas dos talhos ou os olhares mortiços dos peixes viscosos arrebatados ao seu meio e como que perdidos em armadilhas de gelo. Indiferente aos pais, que deixaram por completo de compreender as suas excentricidades, saiu de casa em definitivo quando entrou para a universidade e, a partir desse momento, tornou-se dona de si própria em todos os sentidos.

            Alugou um pequeno estúdio cuja renda pagava fazendo trabalhos de tradução em part-time, tornou aquele espaço decrépito num santuário brilhante de limpeza e austeridade e começou a viver apenas para si mesma, sendo em simultâneo a sua própria companhia, o seu ídolo, a única razão de ser da vida, que pouco extravasava do espaço asséptico em que flanava, mal tocando com os pés no chão. O seu rosto aperfeiçoou-se a tal ponto que parecia uma máscara veneziana de porcelana, de uma pureza absoluta, a sua pele marfínica e acetinada nunca ostentava qualquer tom rosado e apenas os lábios, mínimos, lhe imprimiam na face uma nota escarlate que ela disfarçava com batom castanho, mas que teimava em sobressair. O nariz afivelara e era o toque desarmonioso no rosto perfeito e os olhos, grandes e doces como sempre, haviam adquirido, na coloração da pupila, uns raios esverdeados que cintilavam quando o sol incidia; mas ninguém, a não ser ela, nas horas  que passava ao espelho em auto-contemplação,  tinha acesso ao fulgor demoníaco do pigmento verde, entretecido na suavidade inocente do castanho com que olhava o mundo dos outros.

            Sabia-se demoníaca, cruel, repugnante, conhecia a fundo o carácter monstruoso da sua natureza e, muito embora desejasse viver só para si, naquela espécie de castelo pendurado no alto de um edifício sobre a cidade enxovalhada, a sobrevivência obrigou-a a comunicar com o mundo dos outros: tornou-se professora.

            Dizia muitas vezes aos outros que gostava de ensinar, mas não era verdade: apenas ela sabia que odiava a insolência estúpida dos seus alunos, a mediocridade arrogante dos seus colegas, a insipidez absoluta do seu dia a dia submerso em horários e tarefas cujo horror ia suportando porque sabia que no final da tarde e pela noite dentro habitaria o segredo do seu palácio, perfumado apenas do seu próprio odor impreciso, mas absolutamente presente como uma marca, um ferrete.

            E só dez anos depois do dia de Julho em que engolira uma mosca e se sentira mudar por dentro é que novas descobertas a precipitaram naquilo que realmente viria a ser o seu destino.

 

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