A MOSCA (2)

           

 

                                               

 

 

                                                                            

 

 

 

 

                                                            A MOSCA  (2)

 

           

 

 

            Beijinhos castos e repenicados…

            – Desses não quero!

            E com este diálogo virtual encontrou um motivo para se indispor definitivamente com o mundo. Desses não quero, escrevia arrogantemente o jovem de olhos verdes, sensual e inteligente, que se sentava na fila de trás de uma das suas turmas, desses não quero, ousava ele responder à frase, um pouco tímida, um pouco provocante, com que lhe desejara boas noites. Por dentro riu-se muito e mesmo sendo as suas gargalhadas um eco fantástico, pois não saíam dos côncavos da sua intimidade e logo ninguém a não ser ela poderia escutá-las, eram sons pavorosos e ela percebia à saciedade que era bem mais ou bem menos que um ser humano naquelas horas inesquecíveis em que percebeu de uma vez por todas o sentido da sua onda afectiva. Reflectiu, numa miscelânea  de pasmo e de gáudio, sobre o incidente do inesperado remoque aos seus beijinhos castos e repenicados e, ainda que a sua dignidade de mestre lhe desse o direito à indignação, no fundo, naquele fundo tortuoso onde a mosca continuava a zumbir pelos desníveis incontroláveis da sua existência nocturna, o prazer da resposta atrevida do jovem perverso transformou-se no pano de fundo da sua vigília. Entretinha-se em sonhos delirantes em que agarrava o rapaz com as suas mãos pequenas, mas que sabia muito bem como transformar em garras, e onde devorava os lábios túmidos e vermelho escuro (ela tinha-o observado à saciedade), não com a castidade prometida na fórmula infeliz e muito menos com a sensaboria do som repenicado mas num autêntico ápice devorativo em que não se coibia de lhos morder, fazendo esguichar o sangue que adivinhava túrgido e quente.

              Espantoso!

            Nos dias seguintes, foi para aquelas aulas com uma inusitada expectativa, ela, que usava manter-se hirta e formal ou ainda falsamente meiga – só o seu íntimo conhecia de que modo a ternura que espalhava através dos olhos (que conseguia adornar de doçura) era desprezo e repugnância, dos quais tinha que lavar-se demoradamente logo que chegava a casa. E um dia a tentação maliciosa ganhou corpo e ela convidou o jovem galante para a sua casa.

            – Eu chamo-me Vénus, ouviste?

            – Vénus?

            – Sim…  não sabes que esse planeta é exactamente o contrário da deusa do amor? Chuva de aço sulfúrico e gases mortíferos…sabias?

            Apesar da ousadia da resposta aos beijos castos e repenicados (desses não quero) o jovem sedutor estava ali estarrecido de timidez e pavor. Ela bem viu e ao mesmo tempo a mosca zumbiu-lhe nas entranhas, mesmo no centro, um pouco acima do umbigo, ela soube que se colocasse os dedos nessa zona íntima sentiria as curvas do voo vibrátil do insecto e esforçou-se para impelir as asas translúcidas e irisadas, de um verde semelhante ao pontilhamento dos seus olhos, com que a mosca adejava silenciosamente ao nível superior das vísceras, para o fundo, mais para o fundo, pois o jovem estava ali, entregue e confuso, e ela teria que conduzi-lo aos próprios abismos.

            – Chuva de aço sulfúrico e gases mortíferos?

            – Sim, aprendeste depressa, queres ver?

            Vénus estava transfigurada, pintara a face com uma camada espessa de maquilhagem branca, os lábios muito finos eram um rasgão negro na alvura do rosto e os olhos, envolvidos em eye-liner negro, pareciam despedir chispas multicolores. Pela primeira vez o jovem viu os raios verdes a tecerem ondas soporíferas no espaço à sua volta, ondas que provinham, como chispas, dos olhos dela. Nem reparou na brancura irrepreensível do espaço, onde se detinham, os dois, em pé, no centro de uma sala imaculada, toda pintada de branco, com móveis também brancos e apenas um grande tapete negro no centro, local onde ela se postara, rígida, também vestida de negro da cabeça aos pés. Olhou para trás, calculando a distância que o separava da porta, sentiu um arrepio na espinha, apesar do calor que o ambiente exalava e, antes de sair, ainda ouviu a gargalhada diabólica daquela Vénus inesperada, gargalhada que estivera presa durante anos e bruscamente ribombou pelas paredes.

(A protagonista desta história é uma vilã, como vêem, e ainda que seja uma figura inventada, foi tecida de fragmentos tirados de gente real. E sabem uma coisa? Agora que lhes tirei o véu, a todos esses vilões, descobri que não é fácil retratar a hediondez, quando a estética ainda é o fundo criativo e a realidade consegue sempre superar, em perfídia, o mais monstruoso dos vilões ficcionados…serei capaz de aguentar com o veneno insidioso desta Vénus de olhos raiados de verde e hábitos de monja gótica? Veremos!)

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