O Leitor

       O LEITOR

 

      É extraordinariamente redutor aludir a este filme dizendo que o seu tema é este ou aquele e, nessa medida, não o direi. O filme e o livro têm, como título comum, O Leitor, assinam-no, respectivamente,  Stephen Daldry  e Bernhard Schlinck e o que pode dizer-se é que o título convém ao filme e ao livro, deixando tudo em aberto, para lá do título. E são assim os títulos: chaves, motivos para abrir a obra e desvendar o que vem dentro e não pode resumir-se a uma palavra só, a do título. 

      Vi o filme duas vezes no espaço/tempo de uma semana e li o livro de um fôlego só, entre as idas ao cinema. O que o filme transporta, para quem quer realmente perceber, é a realidade vivida, vivida certamente por alguém – o cunho autobiográfico é muito forte no livro de Bernhard Sclhink, para não nos determos a pensar se terá sido ele o real protagonista da história que conta (e se não é, tanto mais demonstra o génio literário, uma vez que ficciona como quem vive e esta capacidade parece-me de génio.).

       Na medida em que cada um dos espectadores conseguir colocar em si mesmo as vivências e os sentimentos das personagens envolvidas na história e perguntar: que faria eu, enquanto Hanna Schimtz ou Michael Berg (adolescente e adulto), que faria eu se fosse analfabeta, mas orgulhosa e se quisesse manter a auto-estima, que faria eu se necessitasse de sobreviver, trabalhando, e nem sequer compreendesse por inteiro o alcance dos meus actos, mas apenas me esforçasse por cumprir o dever? acederá à compreensão do filme e do livro. E mais ainda, que faria eu se fosse jovem e encontrasse uma mulher capaz de ter tempo para mim e me dar o estímulo para crescer (foi isso que aconteceu com o jovem Michael) e que faria depois, quando entendesse que a mesma que me mostrou a vida fora capaz de tirar, com aparente frieza, a de outros?

       O filme é, afinal, a narração, sem artifícios, de dilemas humanos, dilemas a que todos chegamos de uma forma ou de outra e onde, não raro, as normas éticas e morais de nada servem porque não funcionam a certos níveis existenciais. O filme não vive de efeitos especiais, não tenta elidir ou agigantar pormenores, nem sequer toma partido, separando inequivocamente os bons dos maus, dando tudo por encerrado no final, com o castigo ou a recompensa: saímos da sala do cinema com as questões todas por responder, não podendo condenar ou aprovar seja quem for, porque nós não estávamos lá, não foi por nós que passaram as linhas da história.

      Quanto a mim só pude pensar: e eu, que faria eu, naquelas circunstâncias? E, como não as pude viver, não posso responder e muito menos arvorar-me em juiz.

 

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: