Salvador Dalí: nome de gato persa?

 
 
 
SALVADOR DALÍ: NOME DE GATO PERSA?
 
 
 
 
Desde há muitos anos que tenho gatos em casa: dois. Muito diferentes, quer em raça, quer em temperamento (o que, provavelmente, estará relacionado), habituei-me e afeiçoei-me profundamente aos dois, chegando ao ponto de entender (tanto quanto isso é possível) as suas linguagens específicas. Um, é um Bobtail japonês, raça bastante rara entre nós, tendo sido trazida do Japão para a Europa pelos soldados, durante a Segunda Guerra Mundial. O outro é um Persa fulvo, genuíno, quer quanto à raça, quer quanto aos comportamentos, absolutamente padrão.
O Bobtail é muito grande, expansivo, vivo, parecendo que quer falar connosco quando nos olha com uma certa expressão no olhar, quase humano; o Persa é delicado e distante, passa quase despercebido, não aprecia conversas ou carícias, mas gosta muito de água, de apanhar uma fonte (que pode bem ser uma torneira aberta) e ali ficar a beber do jacto,  deixando pingas a cairem sobre a cabeça. Muitas vezes o Bobtail observou este comportamento com um ar perplexo, mas nunca o copiou, nem sequer experimentou.
Os dois conviveram, durante quase nove anos, nas suas diferenças, com breves escaramuças, de quando em quando, e com uma notória e tácita admissão da superioridade do Bobtail sobre o Persa. Não escrevo os nomes próprios dos gatos pois, embora lhos tivese atribuído aquando do registo na Clínica Veterinária ( o Bobtail é o Van Gogh, o Persa é o Salvador Dalí) nunca, de facto,  eles se reconheceram em semelhantes símbolos onomásticos.
Há algumas semanas, o Persa começou a acusar sinais de peturbação. O pêlo, comprido, começou a embaraçar-se e encheu-se de nós, resistentes à escovagem e não tive remédio senão levá-lo à Clínica, onde lhe cortaram o pêlo aqui e ali, receitando um produto, pois o animal sofria de um problema ou carência de ácidos gordos. Tratei-o durante algum tempo, até que percebi que a magreza se acentuara e isolei os dois gatos, de modo a atestar a sua relação com a comida: vi-o a comer pouco ou quase nada, a olhar para mim como se quisesse qualquer coisa e fui experimentando outros sabores de alimentos, a ver se seria apenas uma situação transitória. Porém, ele continuou a emagracer, tornou-se uma sombra do que era e eu regressei à clínica. A veterinária falou-me de doenças e de suspeitas e disse-me que só haveria um diagnóstico preciso após a recepção do resultado das análises ao sangue; referiu a fraqueza do animal e eu soube que o prognóstico não era animador. Estava longe porém de supor que na tarde do dia 24 de Abril, quando o deixei internado e ele miou para mim e me estendeu a pata, seria também o último da vida do meu gato Persa. No dia seguinte enterrei-o no jardim da casa da minha mãe e fi-lo com a sensação de que deixava ali um elemento da família e que o ambiente doméstico jamais seria o mesmo.
Já lá vão quatro dias e a tristeza que me invade continua viva. Percebo que um gato é, simultaneamente, um ser semelhante a nós, pois consegue coabitar connosco, mas é, em simultâneo,  um enigma; vejo que o meu gato Persa teve necessidades que provavelmente tentou comunicar-me e às quais eu não fui  inteiramente receptiva. Afinal, levei-o a tratamento no último dia da sua vida, não interpretei  a tempo os sinais que ele me foi enviando nas últimas semanas, deixei-o sozinho, cada vez mais minguado, cada vez mais triste. A culpa aocmpanha-me desde então, se bem que a médica me tenha garantido tratar-se de um padecimento crónico, próprio dos seus nove anos, sem remissão a partir do momento em que os sintomas se manifestam. Porém, não sou capaz de aceitar inteiramente o diagnóstico e o desfecho, lidei muito mal com a morte do animal e com a necessidade de lhe dar um enterro digno. Mas digno até que ponto? Que sei eu da dignidade post mortem de um felino? Aliás, que sei eu da dignidade existencial de um gato, daquele que morreu e deste que, um pouco abalado pela ausência do companheiro, vai dormindo e comendo como sempre?
E reflicto: teremos o direito de trazer para junto de nós estes animais, sem os compreendermos cabalmente, teremos o direito de tentarmos ajustá-los à nossa maneira de existir, quando a deles é tão específica quanto a sua peculiaridade individual que, de modo nenhum, nos revelam? Os gatos são, de facto, verdadeiros enigmas, soberanos e não domesticáveis, plenos de sabedoria que não comunicam, querendo adivinhar-nos, a nós que nos achamos infinitamente superiores, mas que nunca conseguimos penetrar no muro dos seus rostos, apesar de tudo, expressivos.
Este texto não é um epitáfio, nem sequer um in memoriam ou mesmo uma homenagem: nada disto tem qualquer importância para aquele gato que doravante só persistirá no lugar vazio que deixou e na lembrança dos espaços que havia tornado seus. Este texto serve apenas para descrever um facto e anotar reflexões sobre esse mundo que nos será para sempre alheio (por mais teoria que tenhamos) e que é o dos animais, nossos companheiros.
 
 

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