O DESPERTAR DO DITADOR

O DESPERTAR DO DITADOR

 

 

 Francisco Goya

 

 

        Depois de dormir descansado durante mais de três décadas, sem sonhos ou visões, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e um velho rosário pendente dos dedos esquálidos, um primeiro tremor agitou-lhe o corpo escanzelado, pendente de um fato negro coçado nos cotovelos. Os olhos, ainda presos por debaixo das pálpebras cerradas, esboçaram um movimento ténue e o nervo eferente anunciou à zona cerebral respectiva um início mais que fugaz de pensamento. Depois voltou a adormecer, ou pelo menos pensou nisso quando, dias ou anos depois, as pálpebras abriram por completo e deu consigo sentado à mesa.

          Era um dia morno de Maio e, pela janela entreaberta do escritório (pois que de um escritório se tratava) entravam perfumes e sons de tal maneira intensos que o velho ditador não teve outro remédio senão afastar a cadeira e dirigir-se à janela. Custou-lhe muito aquele gesto, e os passos que necessitou de dar fizeram estalar todos os ossos do seu corpo velho, mas acabou por terminar a caminhada e pôde afastar a cortina e olhar o largo fronteiriço de onde emanava a inusitada agitação daquele dia.

          Havia traços brancos na rua pintados no asfalto de um passeio a outro, mesmo ali por debaixo de seu nariz de águia, muito afilado e quase transparente: o velho ditador não entendeu a simbologia de semelhante zebra e fixou nela os seus olhos encandeados pela reverberação solar. Bruscamente, os carros que desciam celeremente a via travaram ao mesmo tempo e um grupo de pessoas, com ar sossegado e decidido, atravessou a rua sem olhar para os lados e, volvidos alguns instantes, os carros arrancaram com inesperada pressa deixando a rua de novo calma e adormecida no calor do princípio da tarde.

          O velho ditador reflectiu, É verdade eis aqui as passadeiras e os semáforos, mas como é possível terem-nos instalado sem a minha autorização? E como sabe o povo o que fazer se ninguém lhe explicou ainda? Ora é sabido que o povo não é inteligente, eu não quero!

        Olhando mais para a frente, numa parede esburacada que havia num prédio semi-arruinado, o velho conseguiu ver, franzindo muito os olhos (onde teria ele deixado os óculos?) um conjunto de cartazes colados em banda com o rosto sorridente de um homem que ele reconhecia vagamente. Como é possível a polícia deixar ali aqueles papéis? E aquele rosto, aquele rosto…ah já sei, mandei-o prender, açoitar e torturar! E ali está ele a exibir-se, sorridente e bem-humorado!

        Desgostoso e cansado, como se arrastasse consigo o peso do mundo inteiro, regressou ao seu assento atrás da secretária. Procurou o telefone mas não encontrou o sólido aparelho preto, com um disco robusto a meio onde se marcavam os números e só pôde franzir a testa de descontentamento, pois tinha uma necessidade imperiosa de chamar o secretário e não era adequado ao seu alto cargo levantar-se e ir à porta procurar a telefonista.

        Mergulhou numa espécie de torpor logo que decidiu sentar-se de novo e só teve tempo de perceber que haviam retirado o crucifixo de pau-preto, único enfeite que permitia para a parede pintada de um austero cinzento. A seguir, mergulhou no sono.

      A funcionária de limpeza entrou no escritório sem bater pois àquela hora – um pouco depois do almoço – costumava fazer a primeira ronda de faxina limpando o pó, passando a esfregona pelo chão, endireitando os cortinados e outras ninharias, e sabia, por força desse hábito, que não havia ali ninguém, demorados os dirigentes em almoços de prazer ou circunstância. Não olhou à sua volta, conhecia sobejamente todos os recantos da sala, a tal ponto que poderia sem dificuldade perceber se o dono daquele escritório havia estado ali muito ou pouco tempo, sozinho ou acompanhado, se fumara às escondidas ou se naquele dia cumprira a lei, e até se estava nervoso ou descuidado, pois todos estes sinais lhe eram diariamente transmitidos pela atmosfera da sala, pela disposição dos objectos sobre a secretária ou dos poucos móveis normalmente colocados numa certa ordem – secretária, cadeira atrás, cadeira à frente, sofá junto da parede, mesa de apoio, tapete, candeeiro de pé – e, em geral, comprazia-se com a sua própria inteligência, pois embora fosse apenas mulher-a-dias aspirava a muito mais, logo que tivesse oportunidade.

        Quando afastou a cadeira de braços, estofada a couro preto, para assim concluir a rápida limpeza, um objecto enrodilhado no chão, próximo da zona onde habitualmente o primeiro-ministro apoiava os pés, chamou a sua atenção por ser de todo incomum. Não era um lápis ou caneta, nem sequer uma carteira esquecida, mas um grande rosário negro velhíssimo, de contas quase transparentes pelo uso, um rosário no sentido literal da palavra pois continha o triplo das contas dos terços homologados pela religião católica. A sua surpresa foi tão grande que não resistiu a apanhar o objecto e a analisá-lo demoradamente percebendo que era uma peça de artesanato antiga, feita de pau-preto, com um crucifixo de dimensões razoáveis onde se percebiam ainda nitidamente os contornos esculpidos do corpo do crucificado. Mas depois reflectiu, Como podia aquele rosário pertencer ao primeiro-ministro se – toda a gente sabia – o homem era ateu? Toda a gente sabia, é claro, embora ele não o declarasse em público pois era o dirigente de um país católico e não custava nada fingir devoção, desde que semelhante hipocrisia lhe garantisse a reeleição. Porém, a mulher de limpeza e a sua perspicácia, treinada no contacto silencioso com as altas personalidades, percebia bem que fingir devoção não levaria o fingidor ao extremo de transportar consigo um rosário daqueles, antiquado, gasto, com todos os sinais de um uso intensíssimo. Ouviu um barulho no corredor, percebeu que duas ou mais pessoas haviam parado no corredor muito perto da porta do escritório. Estremeceu; e, sem se dar conta inteiramente do que fazia, ocultou o rosário no bolso da bata, juntou os apetrechos de limpeza e saiu.

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