O Despertar do Ditador

     

Francisco de Goya

 

 

O DESPERTAR DO DITADOR

      

 

 

     No seu apertado compartimento, o velho ditador remexia-se e, mesmo dormindo pesadamente, percebia que alguma coisa não estava bem, acabara-lhe aquela tranquilidade de que nem sequer tomara consciência, porque nenhum sonho ou visão lhe preenchera as horas durante três décadas ou mais. O sono deixara de ter poder catártico ou cataléptico e o velho senhor sentia o corpo esquálido e gelado percorrido por tremuras, assolado de formigamentos como se nunca mais pudesse descansar.

    O pior de tudo era o pensamento, esse que estivera ausente e agora recrudescia a cada instante, o pensamento fragmentário de toda uma vida em que se cruzavam memórias dispersas de várias idades e tempos todos enredados uns nos outros! E o pensamento dizia-lhe que fora uma personalidade ilustre, mas também odiada, e, em tempos, insignificante e depois solitária, que a solidão lhe pesou, mas que muitas vezes conseguiu aliviá-la em situações enviesadas de relacionamento humano, mais do que equívoco e depois o remorso e as conversas com o cardeal seu confessor que lhe dava penitências terríveis, E onde terei eu deixado o rosário?, e tentava mexer os dedos para procurar no bolso direito do casaco, mas a mão não lhe obedecia, ferreamente apertada na outra como se uma espessa camada de solda lhe houvesse amalgamado o corpo todo; e de novo o sono pacífico, sono de chumbo, onde um buraco negro lhe denunciava a incapacidade de perceber quem era e onde estava.

      Em casa, a mulher-a-dias, perturbada com o achado sagrado no chão de um escritório profano, sentindo que aquela era uma peça valiosa, pois ela bem via o relevo caprichoso das contas, formando pétalas delicadas de flores, a perfeição das formas e do rosto do Cristo crucificado, a nobreza do material, preservado e sólido, apesar da antiguidade, arrependia-se de o ter trazido consigo, Como se fora lembrar de o meter no bolso da bata quando podia tê-lo deixado simplesmente caído no local onde o encontrara? Receava as consequências do seu gesto impensado, decerto aquele rosário muito antigo era uma peça de coleccionador, ali presente, vá-se lá saber porquê, e, sem dúvida, naquele momento já haviam iniciado as buscas. Ora ela tornar-se-ia decerto a principal suspeita, Quem mais entrava no escritório do primeiro-ministro, assim, absolutamente só, quando ninguém exercia qualquer espécie de vigilância? Havia câmaras de video, é certo, mas, quando se baixou para apanhar o rosário e depois, quando precipitadamente o ocultou no bolso, percebeu, a posteriori claro, mas sem sombra de dúvidas, que esteve sempre fora do seu alcance. Portanto as suspeitas, se suspeitas houvesse, não teriam modo de a visar. Decidiu pois dormir descansada e, no dia seguinte, logo que fosse limpar o gabinete do primeiro-ministro deixaria cair o rosário discretamente no sítio onde primeiro o encontrara.

 

 

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