Múmias

 
     Claude Monet
 
 
 
 
MÚMIAS
 
 
 
 
 
Deixei o ditador adormecido ou em estado de coma ou quem sabe perdido num devaneio pós-túmulo e farei um interregno poético já que a luz doira o espaço à minha volta e não quero afundar-me em negrumes insolentes : quem sabe não exorcizarei a múmia e em vez dela farei com que se erga uma deidade ou um meteoro?
Múmias, segui o caminho ou deixai-vos estar no túmulo – ruínas esfareladas da vida que já não tendes – e então que as flores esbeltas, penduradas em altos vasos diamantados recubram de perfume a insolência verminosa dos restos de vida jazentes em pedaços de trevas
Flores ,aquelas e estas, flores que podem bem ser pedaços encantados de outras substâncias, nascidas nos orvalhos matinais, ensombrecidas nas trevas, e logo revigorados num pedaço de brisa, flores, que somos nós, eu e tu, enleados pelas esferas, ora sombrias, ora diáfanas,  mas voando sempre, voando sem receio de tropeçar nos veios da escuridão ou nas cataratas da luz diamantina
Múmias, essas que se acoitam na solidão verminosa , essas que tornam bafiento o ar da floresta:  quando  um dia despertardes, ide assombrar as outras múmias todas, disfarçadas de gente viva, pois só nelas encontrareis o auditório privilegiado!
 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: