A Liberdade de Expressão e o seu Censor

      

 

 

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O SEU CENSOR

 

      

 

       A audiência – chamemos-lhe assim – deste tipo de blogues assemelha-se bastante à espécie de fanatismo que preside à escolha de uma filiação partidária, por exemplo. A noção de partido está intimamente ligada à noção de parte, pelo que o programa ou a ideologia de uma determinada facção representam um segmento do todo e não o todo, e logo apenas possuem (se possuírem) uma fracção da verdade. No entanto, cada partido ou facção apresenta-se ao público como sendo o todo, como sendo detentor da solução única e absoluta,  e tenta convencer o auditório que, efectivamente, ele tem a verdade por inteiro, ainda que no contexto limitado de um partido, logo de uma parte. Por outro lado, quem principalmente ouve os arautos dessas partes da verdade são os seus próprios fiéis, logo aqueles que apenas escassamente necessitam de ser convencidos, pois partilham do fanatismo totalizante (ainda que partidário) dos arautos.

      Nestes espaços públicos da internet sucede aproximadamente o mesmo: cada dono vai construindo a sua rede de adeptos, os adeptos passam uma vista de olhos pelos conteúdos expostos e comentam ou não de acordo com o teor das publicações.

      É possível, ao fim de algum tempo de análise, entender quem são os fanáticos, os partidários: eles expressam as suas opiniões (em geral elogiosas, quando não bajuladoras), o elogiado dirige-se ao espaço do elogiante e faz-lhe vénias, e pode muito bem acontecer (e efectivamente acontece) que do público se transite para o privado e se teçam outras redes específicas, por detrás da cortina que os comentários polidos disfarçam.

     Acontece que, de vez em quando, eu, enquanto dona de um espaço em tudo idêntico aos demais, quanto à forma, percorro os congéneres e nem sempre comento, porque nem sempre os conteúdos expostos me despertam o menor ensejo de reflexão. Efectivamente, comentar é reflectir, analisar, perspectivar teses ou teorias diversas e não elogiar gratuitamente, ceder à bajulação, ou proferir exclamações de júbilo. Portanto, quando comento, comento mesmo; quando não há nada para comentar, nenhuma ideia para contrapor, passo adiante.

      Há alguns dias atrás comentei o espaço de um desses autores. Não direi o seu nome porque pouco importa, tanto mais que, muitas vezes, os nomes utilizados são falsos, bem como as informações dadas no perfil, ou mesmo a fotografia com que se enunciam (ainda que não seja esse o caso a que aludo.).  O certo é que não foi o texto que li em particular (e abaixo do qual escrevi)  que me suscitou o comentário, mas sim o conjunto das produções desse autor, que vou lendo, sem comentar; e, porque naquele dia estava para ali virada, decidi condensar, num único texto, o que me aprouve teorizar sobre os textos publicados por ele e,  ao mesmo tempo,  sobre a pessoa que os assina (já que o conheço, também de trato, e não apenas na virtualidade das páginas da internet). Não creio que o conteúdo do meu texto tivesse chocado o autor do blogue: o que ele publicou logo a seguir tem todas as marcas de uma resposta subjacente e eu li, nas entrelinhas desse poema e da imagem que o coroa,  o que ele, de facto, quis dizer. Porém, os comentadores ou bajuladores do autor leram o meu comentário, não entenderam a sua essência e acharam que deviam defender o seu «ídolo», pensaram que havia insultos ou perfídias veladas nas minhas palavras e comentaram o meu comentário com um palavreado estulto e até um pouco ridículo. Aí, o autor do blogue despertou e, para agradar aos fãs (porque ele sabe muito bem que o meu texto tem inteira razão de ser) escreveu como comentário e aviso,  e para que eu lesse (e os outros é claro)  mais ou menos o seguinte: «Defendendo a liberdade de expressão dou-lhe 24 horas de tempo de antena posto o que eliminarei o seu comentário.» (não transcrevo literalmente, porque não copiei a frase e, entretanto, o tempo de antena acabou e nem o meu texto inicial permanece na página, nem tão pouco esta advertência… mas o teor da frase era este!)

        Atónita com esta arrogância não reagi de imediato, não atribuí à frase o sentido implícito que ela, de facto, tem e que passou despercebida ao autor (ou não teria ousado escrevê-la!). Mais tarde detive-me a reflectir.

        E agora reparem: o autor defende a liberdade de expressão e, por isso, autoriza que comentários não-bajuladores fiquem algum tempo na sua página! Mas a verdade é que o blogue dele não é um jornal nacional ou uma revista ou um programa de televisão: ele pode, de imediato, suprimir o que não lhe agrada, o que não quer apenso às suas produções literárias, pode barrar, por completo, o acesso dos comentadores, não tem que permitir liberdade de expressão a quem quer que seja porque, efectivamente, não é dono dela (da liberdade de expressão) e ninguém lhe pede autorização seja para o que for! Por outro lado, que liberdade de expressão é essa, com prazo de validade? «Dou-lhe 24 horas porque defendo a liberdade de expressão»…Defende ou controla? Defender a liberdade de expressão seria permitir que o  texto ficasse, exactamente como os outros, tendo a dignidade de perceber e de assumir que um comentário não é taxativo, mas apenas um manifestar de posição e que em nada belisca a qualidade do autor, se ela existir!

       Almada Negreiros escreveu o Manifesto Anti-Dantas e não há provavelmente na história da literatura portuguesa um texto tão virulento, potencialmente difamatório… e contudo, Júlio Dantas continuou a escrever e a ter o seu público e diz-se que, apesar do Manifesto, os dois continuavam a tirar polidamente o chapéu um ao outro, quando se cruzavam nas ruas de Lisboa! Mas o autor a que me refiro não suporta Manifestos contra si, teme, provavelmente, que lhe tirem a clientela ou que as senhoras que deliram com os seus arroubos liírico-românticos comecem a desconfiar da sua autenticidade…Uma delas disse: «É pena que haja gente, que ainda hoje, no século XXI, confunde alhos com bugalhos» e eu delirei com a imagem dos alhos e dos bugalhos, tão provinciana, vinda de alguém que provavelmente se considera muito avançada por existir no século XXI! De facto, nunca entendi este provérbio, não vejo como podem confundir-se semelhantes produtos das plantas e, realmente, nunca lidei com bugalhos para saber se haverá alguma possibilidade de os confundir com alhos…vou fazer a experiência um dia destes e arranjar um saco de bugalhos, pô-los na prateleira, ao pé dos alhos, a ver se farei mesmo semelhante confusão (embora eu pense, é claro, que no provérbio ou adágio são utilizados estes dois termos apenas porque rimam e não porque seja comum confundi-los, na prática.).

        Regressando à liberdade de expressão, propalada pelo tal autor de textos de um certo  blogue, direi apenas que o senhor se confundiu e, usando a expressão da sua amiga e defensora, talvez bajuladora ou candidata a mensagens privadas, confundiu «alhos com bugalhos». Estamos no século XXI, é verdade, em Portugal foi abolida a censura há mais de 35 anos e, por isso, já não existe a profissão de censor; contudo, quando ele escreve «dou-lhe 24 horas de tempo de antena e depois elimino o seu texto» está a recuar mais de 35 anos e a empunhar o lápis azul – aqui convertido num clique numa tecla – e fá-lo, ufanamente, pois, qual Ministro da Cultura de tempos idos,  julga-se executivo de um departamento redactorial e, por isso, dá ou tira liberdade de expressão consoante lhe apraz! É estranho dar liberdade de expressão num tempo em que ela está estatuída, mas também é estranho dar-lhe um prazo, e depois retirá-la outra vez ( a liberdade de expressão)! Quão paradoxal se tornou esta personagem, assim arvorada em paladino da liberdade da expressão e censor ao mesmo tempo!

      É óbvio que este meu texto não será comentado: é um texto filosófico (porque eu sou filósofa por fatalidade minha) e comentar textos filosóficos não é o mesmo que extasiar-se perante poemas de amor ou lançar lágrimas virtuais sobre teclados de computadores. Comentar filosofia exige um domínio do pensamento e da expressão que apenas um talento inato, aliado a uma prática intensíssima, poderão lograr.

 

      

 

 

 

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