A Derrocada e a Salvação

 
 
 
 
A DERROCADA E A SALVAÇÃO
 
 
 
 
      Quando, no ano de 2005, os portugueses deram, pelo voto, a maioria absoluta ao Partido Socialista, elegendo para primeiro-ministro o Engenheiro José Sócrates, fui tomada de dois sentimentos antagónicos e complementares: por um lado,preocupou-me tanto poder atribuído a um homem e a um grupo; por outro, tive esperança de que um socialista sério, honesto e competente (eu quis acreditar que assim era o primeiro-ministro Sócrates) percebesse a responsabilidade incomensurável de tomar assim nas mãos o país, assumindo o controlo de um povo, sozinho, com uma equipa de idêntica ideologia.
     Há, neste parágrafo que acabo de escrever, certas palavras inapropriadas e passarei a citá-las. Em primeiro lugar, o primeiro-ministro não é eleito (ou não deveria sê-lo): o voto dá-se a um partido e, depois da eleição,apurado o vencedor, a equipa governamental sai desse partido, juntamente com o chefe respectivo. Em seguida, o poder, em democracia, pertence ao povo, que delega competências num grupo de pessoas que devem representá-lo, pelo que nenhum poder deveria ter sido atribuído, quer a um homem, quer a um grupo. Por último, o Partido Socialista, a que pertence José Sócrates, é, simplesmente, um simulacro de socialismo e não o Socialismo, esse, que tem as suas raízes na ideologia de Marx e Engels, esse que, historicamente, e nas linhas da filosofia marxista, é o caminho para o comunismo e para a sociedade sem classes.
     E então, o socialismo que passou a governar em maioria absoluta os portugueses, não era o verdadeiro, mas antes qualquer coisa chamada Socialismo Democrático (ou Social Democracia), expressão que nunca entendi muito bem por me parecer pleonástica, dado que, por definição, o Socialismo contém a democracia, não podendo existir Socialismo Autocrático ou Socialismo Ditatorial, por ser absurdo.
     Apelidar o tipo de socialismo do Partido Socialista Português, de Socialismo Democrático, substituir o punho fechado que, em tempos, foi o seu símbolo, por uma rosa, e o vermelho que o identificava, pelo tom desmaiado da flor que passou a simbolizá-lo representou um truque eleitoralista, uma viragem à direita, uma recusa do caminho para o comunismo e para a sociedade sem classes, a sonegação de Karl Marx – seu mentor  e ideólogo de raiz. Portanto, o Partido Socialista e os seus líderes, que governam o país há quatro anos, nada têm em comum com o verdadeiro e único Socialismo, sendo uma distorção lamentável dos ideais políticos e humanitários que, efectivamente, estiveram na sua génese há várias décadas atrás.
    De acordo com os dois sentimentos que me acometeram, no dia em que assisti à tomada do poder absoluto pelos lídesres socialistas (foi assim que eles entenderam a maioria absoluta) e tendo a noção que não estavam ali verdadeiros socialistas, não me surpreendi com a actuação do governo.A pequena franja de esperança de que, afinal, houvesse neles uma réstia de ideal humanista socializante foi-se diluindo, gradualmente, à medida que os ia escutando, à medida que ia dando conta das medidas que aprovavam, à medida que ia vendo o descontentamento social crescer.
    Passados quatro anos de uma política impopular e errónea em variados sectores, o povo, que não conseguiu ainda perceber que é ele que governa e que pode eleger ou destituir quem quiser, porque tem esse direito, que, progressivamente alienado, julga que os partidos irão resolver os seus problemas sem a sua intervenção, foi acumulando ódio, raiva, despeito e um profundo desejo de vingança. Insatisfeito, mergulhado em todas as crises possíveis, vendo ruir sonhos de abundância, o povo encontrou o bode expiatório, esquecendo que foi ele que se demitiu, esquecendo que, quando as instituições e as leis falham, é necessário abrir caminho ao estado de sítio e fechar as portas a todos esses que espreitam a frincha de entrada para novos poderes absolutos.
      No dia 7 de Junho de 2009, menos de 40% por cento dos portugueses dirigiram-se às urnas das eleições e votaram, exercendo aquele que parece ser o único sinal de democracia na sociedade portuguesa. E, qual vingança, deram a vitória aos  parentes próximos do partido que governa, esses, que a si próprios chamam de social-democratas, esquecendo, também eles, que a social-democracia é filha de Marx e Engels e muito próxima, por isso, do socialismo autêntico (basta recordar que o nome inicial do partido de Lenine, antes da divisão entre bolcheviques e mencheviques,  se chamou Partido Operário Social-Democrata da Rússia).
     Analisemos a situação: uma minoria de portugueses ( a maioria absteve-se) resolveu alimentar as ilusões governativas de um grupo político, em tudo igual àquele de que quis vingar-se, resolveu dar fôlego a uma facção política gasta, com provas dadas de que não prima pela eficácia, não zela a democracia e logo o interesse do povo. Alimentou ilusões disse eu, deu-lhe fôlego, disse também: porque estas não são as eleições legislativas, estes não foram os votos da maioria; e contudo o espírito engendrado na noite do dia 7 de Junho de 2009 vai alienar os portugueses, vai dar coragem aos que se abstiveram para, daqui por alguns meses, deixarem o seu comodismo ou a sua indecisão de lado e seguirem o exemplo dos que agora foram às urnas praticar a vingança. Mais de 60% dos portugueses ficaram a ver, mais de 60% dos portugueses não souberam em quem votar e, por isso, não foram às mesas de voto; mas, daqui para a frente, vão ser verrumados pelos políticos, uma e muitas vezes, vão ser massacrados pela comunicação social e pelos analistas de todo o tipo,  vão ler a vitória dos sociais-democratas como um indicador positivo, como uma luz de mudança ao fundo do túnel, vão ficar alienados a um ponto tal que esquecerão que os presumíveis salvadores de hoje foram os carrascos de outros tempos.
      Se tal acontecer, a catástrofe eclodirá definitivamente e talvez seja necessária semelhante eclosão. A situação em Portugal está tão explosiva, o descontentamento grassa de tal modo, que basta uma pequena centelha para desencadear o incêndio. E, caso a tendência de voto manifesta nestas eleições vier a consolidar-se, o pior acontecerá de facto, a pobreza será, ainda e cada vez mais, miséria, o descontentamente tornar-se-á revolta, a guerra surda será, então, manifesta. Digo que é necessário um tal desfecho para a demissão do povo da democracia (que é o seu governo), na exacta medida em que só desse modo poderão despertar os adormecidos que ousarão pôr de lado temores irracionais de bichos-papões situados noutros cenários ideológicos, abrindo caminho ao realmente novo e digno, cuja eficácia nunca pôde ser testada, e logo afirmada ou negada, como acontece em todos os testes.
     A sociedade está pronta para esta prova, os sinais são inequívocos. Girar em círculos como tem acontecido nestes 35 anos de democracia e fazer alternar, no poder, duas forças partidárias tornadas idênticas, conduzirá inevitavelmente à derrocada. E eu creio firmemente que a derrocada virá, como creio também que apenas ela será a salvação.

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