ACASO OU INTENÇÃO?

 

 ACASO OU INTENÇÃO?

 

 

 

 

     Nunca poderei saber se a colocação deste cartaz de campanha eleitoral para as autárquicas levou em conta a simbologia rodoviária presente em abundância ao seu redor. Porém, o slogan do candidato – Num mundo em mudança/ Amarante não pode continuar parada – sugere que, se não foram propositadamente seleccionados, quer a localização, quer os sinais de trânsito que lhe dão expressividade, eles não podem ser mais eloquentes e então a acaso (se acaso foi) veio de encontro aos desígnios da inscrição.

      A primeira vez que o conjunto aqui representado me saltou à vista, ri-me e passei de novo, para ter a certeza de que não estava a ser vítima de alucinação; depois, parei e captei a imagem em fotografia.

     Vejamos: Num mundo em mudança/Amarante não pode estar parada: e contudo, mesmo sobre o cartaz com esta legenda, avultam dois sinais, nada conformes à mudança e ao movimento – um, de STOP e outro, de proibição de virar à esquerda. A primeira leitura é de antagonismo e contradição entre a mensagem e os sinais de trânsito que a emolduram: como se pode mudar ou prosseguir a marcha perante um sinal de STOP e um de proibição de mudar de sentido? Obviamente que quer um quer outro inibem a liberdade de escolha, inibem o próprio avanço para a mudança que o slogan propõe e então, o acaso ou a escolha deliberada da colocação do cartaz, tornaram absurdo e até mesmo ridículo o conteúdo das palavras de ordem!

       Porém, se o objectivo da colocação do cartaz, naquele local específico, levou em conta os sinais de trânsito para fornecer ao público uma simbologia ou uma motivação, o resultado é interessante: STOP – leia-se: olhem bem para mim e para a mudança que proponho – Proibição de virar à esquerda – leia-se: eu sou de direita, por isso, não virem para o outro lado, sigam o sinal de trânsito, também ideologicamente!

       Analisando esta dupla interpretação vou um pouco mais longe e fixo-me no local circundante ao cartaz: de um lado, um parque de estacionamento, do outro, um terminal rodoviário, ambos, obras importantes realizadas e postas a funcionar num passado muito recente. Num mundo em mudança – o parque de estacionamento, como o que foi construído do lado direito do cartaz e para cuja saída foi necessário o sinal de STOP, significa que Amarante, afinal, tem vindo a acompanhar a mudança, talvez com lentidão, convenhamos, mas acompanhando; Amarante não pode ficar parada – o terminal rodoviário, do lado esquerdo do cartaz é a prova de que Amarante não está parada, já que ali entram e saem todos os dias dezenas de autocarros, por ali andam todos os dias centenas de utentes desses transportes.

       Portanto, o candidato, ou quem escolheu o local para a afixação do cartaz, ao mesmo tempo que chamava a atenção para a necessidade de mudança, evidenciava dois dos mais recentes sinais de mudança realizados em Amarante! Absurdo ou provocatório? Talvez que aquele candidato específico pretenda levar as obras ali patentes para outro lado, talvez, sem querer lhes reconheça o valor, talvez não tenha pensado nada, talvez julgue que todos andam adormecidos e não reparam nestas minúcias!

      Para todos os efeitos, quer tenha havido intenção, e logo um propósito concreto na utilização do local com os respectivos sinais de trânsito, quer tenha sido, todo o acto, o produto de um acaso, a seriedade do candidato ficou comprometida. Vejamos: servir-se de sinais de trânsito de proibição de avanço ou de mudança de direcção para apelar à transformação e ao movimento? Atirar com o cartaz para qualquer sítio, criando esta imagem caricata e um pouco ilógica?

      Acresce ainda o facto de o cartaz estar encravado entre dois postes o que confirma a simbologia dos sinais: o slogan apela à mudança, mas ele próprio, o candidato, não tem saída possível, nem para a frente, nem para trás! Estranho modo de pretender mudar e combater o imobilismo, quando ele próprio se encurralou simbolicamente entre dois postes!

      Enquanto pessoa, no sentido mais amplo da minha identidade, ainda que não do ponto de vista ideológico, tenho simpatia pelo candidato do PSD, assim maltratado pela intenção ou pelo acaso, e então este texto pode ter também várias leituras implícitas; porém, mente aberta que tenho consciência de ser, torno explícita uma delas e alerto o candidato a, pelo menos, rever a localização deste seu cartaz, para dar mais credibilidade à sua proposta.

 

Uma resposta to “ACASO OU INTENÇÃO?”

  1. Joaquim Says:

    Quase ninguém pára nos "Stops"…acho que se o cartaz fosse colocado num semáforo dava mais tempo para ler a proposta enquanto o sinal estivesse no vermelho…bem, fica a condizer!

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