O Equador de Miguel Sousa Tavares: uma besta célere

    
 
O EQUADOR  DE MIGUEL SOUSA TAVARES: UMA BESTA CÉLERE
 
 
 
 
 
 
 
     Falemos hoje, para variar, de O Equador de Miguel Sousa Tavares. Trata-se de um best-seller, como sabem, ou de uma besta célere, como diria Alexandre O’Neill, expressão que eu subscrevo neste contexto (e noutros de que não irei tratar hoje.).
     Best-seller, porque vendeu ou vende muito e este fenómeno, que vai acontecendo, desde sempre e um pouco por todo o lado, induz à convicção de que estamos perante uma obra excelente, pois, em termos de mercado, «vender muito» significa «ser muito bom». Besta célere, segundo Alexandre O’Neill, denuncia um fenómeno muito diferente: é uma besta, designação metafórica para traduzir a sua má qualidade, e é célere, porque vende tão rapidamente quanto a sua impressão se desvanece no leitor.
         Ora, por que será que um livro mau – e, citando Oscar Wilde direi que «Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.» – se transforma num best-seller, recebe prémios internacionais, é traduzido para outras línguas, dá origem a uma série de televisão? 
       Aludirei, de novo, a Alexandre O’Neill, desta vez para citá-lo: «Há quem lhe chame, por brincadeira, besta célere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por média) desse produto cultural (agora é tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edições. O best-seller é um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de «marketing» editorial e livreiro. É para se vender – muito e depressa – que o best-seller é construído com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundantíssimos, nem vale a pena enumerá-los. Convém não confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com «topes» de venda. Embora seja cabeça de lista, o best-seller tem, em relação aos livros «normais», uma característica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campeão de vendas. A sua razão de ser é essa e só essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido sério, que «o resto é literatura».
      Vejamos então: uma besta célere é um livro de qualidade mediana, feito de propósito para vender muito…o resto é literatura!
      Alexandre O’Neill dá exemplos: «Estou a pensar em bestas céleres como Love Story ou O Aeroporto. Não estou a pensar em «topes» de venda como O Nome da Rosa ou Memórias de Adriano. Estes últimos são boa, excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria leitura, conheceram grandes êxitos de venda, o que é bastante diferente. Enquanto o best-seller é esquemático, quer dizer, não comporta mais do que o necessário, em termos de ingredientes, para comover (ou motivar, como é costume dizer-se) os simplórios, o livro «normal» nem pensa nisso. Nascido de uma necessidade interior, o livro «normal» chega ao leitor de dentro para fora. O best-seller é exactamente construído ao contrário: chega de fora para dentro ou, até de fora para fora, visto que a sua penetração no leitor não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa.»
 
       O Equador de Miguel Sousa Tavares tem exactamente estas características: é «esquemático», ou seja, não vai mais longe do que o necessário, quer do ponto de vista histórico, quer ao nível da caracterização das personagens, quer no enredo e, por isso, «comove» ou «motiva» os «simplórios» que se extasiam, rendidos, perante a argúcia do escritor, que articulou factos históricos com ficção, perante a estrutura plana das pesonagens que não obrigam a grandes saltos conceptuais ou de penetração psicológica, para serem de imediato assimiladas, perante as descrições dos locais que, de tão áridas, podem situar-se onde o leitor quiser, desde a praia que frequenta nas férias até ao próprio quintal, e, é claro, O Equador chegou ao leitor de «fora para dentro», de várias maneiras: em primeiro lugar, o nome dele é conhecido – tem pais ilustres, pontificou em todas as estações de televisão, tem (ou teve) uma boa figura – depois, utilizou estratégias eficazes de marketing, pois,pelas razões anteriormente referidas, revelou-se a priori um filão para a indústria livreira.
      Alexandre O’Neill prossegue a sua análise das bestas céleres e vai direito ao cerne da questão: «Habitualmente, o best-seller, ao fim de alguns anos, está esquecido ou, então, foi posto em cinema ou em TV e será, durante uns tempos, ainda lembrado, quase nunca em termos de literatura, que não é, mas apenas de história. O cinema ou a TV não podiam senão tornar ainda mais liso o que liso e correntio era.Editores com o sentido da oportunidade aproveitam, então, para lançar ou desenterrar tiragens, que às vezes se vendem, outras não, mas sempre com a inevitável cinta: Um grande sucesso agora no cinema (ou na TV). Alimentam, deste modo, curiosidades menores do público: saber com antecipação o que vai acontecer (caso das séries televisivas, aliás «adiantadas» na Imprensa diária e semanal) ou ver até que ponto o cinema respeitou ou não respeitou a história original.»
      Ora aí está! Uma vez passado para a televisão ou para o cinema, a besta célere adquire uma espécie de incontroversa garantia de qualidade e logo surgem reedições, muitas vezes de luxo ( isso aconteceu com O Equador) e a cinta no livro, com a frase : «Agora na TV». Esse fenómeno proliferou nos últimos tempos, quando apareceram nas livrarias títulos de obras nunca dantes editadas em Porugal (ou pelo menos escondidas no fundo das prateleiras) tal como, O Estranho Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald, O Leitor de  Bernard Schlinck, Quem Quer ser Bilionário de Vikas Suarup , e mesmo o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, agora dotado de uma sobrecapa ilustrada com personagens do filme (porém, nenhum destes livros é uma besta célere,atenção ( não li o livro de Vikas Suarap), a referência surge no contexto do oportunismo das editoras livreiras.).

       Regressando a Alexandre O’Neill: «O best-seller é feito a pensar num leitor «espremido» por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo…) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha.
       O best-seller pode ser preparado com muita habilidade e, para os desprevenidos, constituir, até, uma obra de qualidade. A propaganda fará o resto. Mas isso será só ilusão. O best-seller tem a qualidade apenas necessária para não comprometer a quantidade que alcançou ou deseja alcançar. Esse é o seu verdadeiro objectivo: quantidade e mais quantidade.
       Hoje, que a literatura integra áreas cada vez mais vastas, uma há que não poderá integrar, a do best-seller, sob pena de se trasnformar no contrário de si mesma: o fabrico e o consumo de um produto que por acaso se chama livro.»(Alexandre O’Neill, in “Uma Coisa em Forma de Assim”) 

       Alexandre O’Neill diz praticamente tudo o que pode aplicar-se a O Equador de Miguel Sousa Tavares, pelo que a minha tarefa ficou muito simplificada. Porém, eu li o livro, e, confesso, vi um ou outro episódio da série homónima da TVI.

      Quanto ao primeiro – o best-seller ou besta célere – direi que o livro não tem erros ortográficos ou de construção ou de  semântica (o que já não é mau porque anda por aí muita «literatura» repleta destes e de outros erros! ) e que a história consegue cativar (consulte-se a citação de O’Neill), pelo que as centenas de páginas que o  livro contém se lêem com alguma facilidade. Porém, quando se atinge o final e se fecha o livro, o que acontece (o que me aconteceu) é um imenso vazio e uma grande tristeza. 

       Aconteceu-me o vazio, na justa medida em que não me senti acrescentada em nada: os episódios históricos que lhe serviram de fundo, não só os conhecia já, como posso aprofundá-los, com vantagem, em qualquer livro de História; as personagens são tão pobres de inteligência e de espírito, tão planas e banais, quanto aos predicados físicos e psicológicos, que podem corresponder a qualquer homem ou mulher comuns e desconhecidos, daqueles que passam por nós e não nos merecem um momento de atenção ( até os predicados voluptuosos da personagem feminina que lidera a parte romântica da história podem ser apreciados diariamente, num anúncio publicitário a iogurtes ou cremes anti-rugas ou indo mais fundo, para quem conhece o meio, no ambiente de um bordel); as paisagens, a cor e o espírito do lugar onde, alegadamente, a história se  desenrola são tão baços e incaracterísticos que qualquer praia, qualquer floresta, qualquer quinta conhecida do leitor podem servir para cenário mental.

     Relativamente à série de TVI, não poderei dizer muito, pois apenas me esforcei no sentido de assistir a alguns episódios: mas, com os recursos económicos disponibilizados para tal, com o elenco seleccionado, de onde constam alguns dos melhores actores nacionais, poderia, se não estivéssemos perante uma besta célere televisiva, criar-se um produto de qualidade. Direi que – e agora em abono do livro O Equador – a série televisiva é bastante pior  que o livro e coloca muito mal, quer o autor, quer o país, quer a própria História de Portugal!

       Para terminar, farei uma breve alusão à excelente poeta e escritora que foi, que é Sophia de Mello Breyner Andresen – a mãe de Miguel Sousa Tavares – e, se lhe incluo o nome nesta crítica, é para transmitir uma impressão (ou dúvida) que me ficou e da qual ainda não consegui abdicar: teria Miguel Sousa Tavares a coragem de publicar o romance O Equador enquanto a mãe estava viva? Não creio, sabem porquê? Miguel Sousa Tavares pode ter muitos defeitos, como todos temos, pode não ser um romancista , como este livro demonstra, mas não é tolo, nem destituído de inteligência e de sensibilidade, pelo que não insultaria a mãe em vida escrevendo semelhante aberração. Possa a memória de Sophia de Mello Breyner Andresen destacar-se para sempre da memória do filho,  autor de O Equador

 

*Para todos aqueles que acham que eu tenho por hábito denegrir, com a crítica, a obra dos outros, ouso fazer um apelo: leiam os meus textos apologéticos e verão que eles constituem a esmagadora maioria!

 

 

 
 

Uma resposta to “O Equador de Miguel Sousa Tavares: uma besta célere”

  1. Joaquim Says:

    Regina deves saber que MST está acusado num blog de págio."Miguel Sousa Tavares está a ser acusado por um blogger de plágio, alegando que o jornalista copiou parágrafos inteiros do livro «Cette Nuit la Liberté» de Dominique Lapierre e Larry Collins, na obra «Equador», um dos maiores sucessos de vendas em Portugal.O blogue freedomtocopy.blogspot.com apresenta quatro exemplos de «pérolas de exploração de trabalho alheio».Portanto…. nada me surpreende! A mãe dele sim foi e continua a ser uma grande refeência na nossa literatura!Ademais, não te esqueças que esse senhor certo dia apelidou de "inúteis" os professores e como és prof. tem calma com o ilústre, senão ainda te processa!Poderia dar-te exemplos de Saramago mas fica para outra ocasião.Uma coisa é certa: aquela coisa vende!!!!!

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