O Plágio ou A Cultura às Avessas

 
 
 
 
 
O PLÁGIO
(ou)
A CULTURA ÀS AVESSAS
 
 
 
 
 
[Plágio, do grego,  plagios, «oblíquo», que não está em linha recta, que está de lado, de esguelha (…)]
 
[Plagiar, do latim plagiare, «roubar, esbulhar» (…)]
 
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Volume IV, p. 379
 
 
 
 
     José Saramago não precisa de ser defendido, não cometeu nenhum crime, não fez nenhum pecado, não ofendeu ninguém: apenas é um dos maiores vultos da História da Literatura Contemporânea.
     José Saramago não  foi um privilegiado durante muito tempo: lutou por isso e agora é-o, efectivamente. Os privilegiados (seja qual for o tipo de privilégio) apenas são legítimos numa sociedade de Homens se, dos seus privilégios, advier benefício para o resto da Humanidade (seja qual for o tipo de benefício). Aprendi esta tirada com Jonh Rawls, um filósofo moral e político do século XX, cujas ideias de justiça e equidade foram bebidas em Rousseau, Locke e Kant, e, no contexto da sua concepção de justiça e de equidade (não de igualdade), o privilégio só faz sentido se dele resultar acréscimo de liberdade, de justiça ou de riqueza, ou seja do que for de positivo para os outros. Nessa perspectiva, os privilégios de que aufere hoje em dia o escritor José Saramago são efectivamente justos porque ele, efectivamente também, tem contribuído ao longo dos anos para o crescimento do mundo português, em primeiro lugar, e do  mundo em geral, a partir de um certo momento. O crescimento ou desenvolvimento de um país não se resumem ao sector económico e financeiro, ainda que seja difícil crescer a todos os níveis possíveis quando falham as condições mínimas de sobrevivência e logo, no mundo em que vivemos, quando somos economicamente débeis ou deficitários. Por essa razão, José Saramago não pertence ao número dos que, usufruindo de privilégios, têm o dever de alimentar, ou dar emprego, ou permitir habitação aos desfavorecidos (essa tarefa é a profissão de outros) mas, porque é um escritor, acrescenta o mundo com a sua obra. Logo, se tem privilégios, merece-os, não só porque o seu trabalho lhe permitiu tornar-se digno deles, mas também porque apenas esses privilégios lhe possibilitam continuar a privilegiar os outros com o produto do seu labor.
     Estou a falar deste modo e a usar como referência um filósofo neoliberal, mesmo não sendo eu neoliberal do mesmo modo que o não é José Saramago. O neoliberalismo é um modo suave de caracterizar o capitalismo e não defendo, de modo nenhum, o capitalismo e José Saramago também não, seguramente. Porém, vivemos num mundo marcado pelo capitalismo, cada vez mais feroz e desumano, e então qualquer um de nós, que defendemos o derrube do capitalismo e a instauração de uma sociedade justa, eu e Saramago e muitos milhares de pessoas em Portugal e no mundo, não tendo como viver à margem – ela não existe – necessitamos sobreviver o mais coerentemente possível, nesta espécie de selva, onde o interesse sobrepuja o humanismo e a intenção moral se confunde com a intenção legal.
      Saramago não precisa de ser defendido e por isso não vou defendê-lo; vou simplesmente rever alguns argumentos das suas obras e assim lançar uma réstia de luz sobre  quem é José Saramago, na exacta medida em que muitas centenas ou milhares de portugueses, ignorantes e grosseiros, ousam proferir o seu nome, criticá-lo e insultá-lo, sem nunca terem lido um livro dele que fosse. 
    Vejamos.
    Em 1984, Saramago publicou um livro intitulado O Ano da Morte de Ricardo Reis. Para quem não sabe, Ricardo Reis foi um heterónimo de Fernando Pessoa, não teve, pois, uma existência material, apesar de lhe terem sido dadas uma biografia, com data de nascimento e morte , uma profissão e um livro de poemas publicado. José Saramago decidiu transformá-lo numa personagem viva, no contexto da obra citada, e fê-lo viver num certo local de Lisboa, onde o heterónimo (agora vivo) conviveu com Fernando Pessoa e contactou com Lídia ( a musa das suas odes); em 1986, Saramago publicou A Jangada de Pedra, obra em que ficciona a separação geológica da Península Ibérica do resto da Europa, através de uma fenda aberta nos Pirinéus, com todas as consequências turísticas, políticas, geográficas e por aí adiante que adviriam de semelhante deslizamento da Península pelo Atlântico; em 1991, Saramago publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual tece uma história evangélica em ruptura com o dogma  da igreja católica e, se não lhe aconteceu ser excomungado por ela, foi, nos tempos de um certo governo obscurantista, impedido de participar, com o livro, num concurso literário internacional; em 1995, Saramago publicou O Ensaio sobre a Cegueira, onde  submete as suas personagens centrais, e por fim um país inteiro (com uma única excepção), a uma epidemia de cegueira branca, com todas as consequências possíveis de um tal acontecimento; em 1997, Saramago publica Todos Os Nomes, obra na qual conta a história de um escriturário que se dedica a coleccionar nomes de pessoas famosas, para acabar por descobrir que, afinal elas se parecem com toda a gente; em 2000, Saramago publica A Caverna, onde apresenta uma duplicação de mundos em que um se agiganta, na exacta medida em que o outro se extingue;  em 2004 Saramago publica O Ensaio sobe a Lucidez cujo argumento parte de uma situação insólita que provoca a abstenção total às eleições, numa certa região, sem combinação prévia entre os eleitores, e narra a partir deste mote todas as consequências possíveis;   em 2005, Saramago publica As Intermitências da Morte, cujo pressuposto é o inusitado facto de, a partir de um certo dia e de uma certa hora e durante um certo tempo, ninguém mais morrer num certo país, e,  desta circunstância, retira uma plétora de consequências; em 2008, Saramago publica A Viagem do Elefante, que narra a inverosímil travessia de um paquiderme desde Portugal até à Áustria, como presente do rei D. João III ao arquiduque Maximiliano…. 
      Não são os títulos todos de José Saramago, apenas alguns, talvez os que mais impacto tiveram sobre mim quando os li; porém, se examinarmos bem o ponto de partida de cada um deles podemos concluir mais ou menos o seguinte: Saramago supõe um acontecimento improvável, inverosímil, nunca dantes observado, raramente pensado a sério e expande-o, realisticamente, fazendo o leitor entrar mais e mais nos seus próprios segredos, nos seu próprios meandros existenciais, esquecendo, a partir de certa altura que o argumento é utópico, mas possível, como o são todas as utopias. Logo, há uma linha condutora firme, uma intenção marcada e própria do escritor específico que Saramago é, não havendo qualquer hipótese de o confundirmos com outro, a partir do momento em que nos envolvemos na leitura.
      Portanto digam-me: como é possível que alguém se tenha lembrado de acusar o genial Prémio Nobel da Literatura, de plágio, só porque um dos argumentos se parece  com o ponto de partida de um certo conto, tanto quanto uma  formiga se parece com um hipopótamo? E mais: como é possível que percam tempo a comparar o que não tem comparação possível, exibindo parágrafos de um e de outro como se um (o de Saramago) fosse o produto da cópia do outro? Mais ainda: porque perdem tempo a vituperar o grande criador que Saramago é nesta arena promíscua e medíocre que pode bem ser a internet, para todos os que a usam de má-fé ou nos limites da mais supina ignorância?
      Li o conto paupérrimo do mexicano Teófilo Huerta e percebi apenas o seguinte: o homem é um escritor medíocre, de um conto superficial e misérrimo, onde aparece o mesmo argumento básico que Saramago glosa num dos seus romances. Descobre-o quatro anos depois de ter saído o livro do escritor português, sendo, alegadamente, o seu conto de uma data anterior; percebe que, se saltar para a arena reclamando a paternidade, o exclusivo da ideia, e acusando de plágio nada mais nada menos que um  prémio Nobel de Literatura com créditos firmados, poderá sair da obscuridade, pela negativa é claro, mas sair e ser notícia por algum tempo, e não hesita, faz isso mesmo! E depois todos os papalvos que nunca leram uma linha sequer de Saramago, mas que o detestam porque ele é o que eles não conseguem ser, dão vivas ao embuste, cobrindo-se de um ridículo que não vêem!
      Como disse no início não estou a defender Saramago, ele não precisa: atingiu uma espécie de imunidade muito específica, aquela que a maioria dos artistas só granjeia depois de ter morrido mas que, felizmente para ele e para nós, teve em vida – pode dizer o que quiser, escrever o que bem entender, viver como e onde lhe apetecer, falar alto ou baixo, sorrir ou fechar a cara…nada, mesmo nada lhe tirará o valor e poderá obscurecer-lhe o mérito!

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