PSD: UM PARTIDO BUDISTA?

 
 
 
 
PSD: UM PARTIDO BUDISTA?
 
 
 
      O cartaz do PSD aqui reproduzido apareceu nas ruas há alguns dias, logo a seguir à suposta vitória laranja para o Parlamento Europeu e, se digo «suposta vitória» não é por desconhecimento dos números oficiais, que dão, efectivamente, vantagem a este partido, mas porque também levo em conta os 62,54% de abstenções (o que feitas as contas, significa que apenas 37,46% dos eleitores portugueses foram até às urnas votar, e nem todos o fizeram em partidos, visto que 4,64% votaram em branco e 2% anularam o seu voto.).
      Poderia fazer contas e mais contas até perceber quantos foram os portugueses que, de facto,  deram uma maioria relativa ao PSD, mas, provavelmente, essas contas estão feitas e, por isso, nem me darei ao trabalho de intentar tal tarefa matemática. O que me parece óbvio – e nem é preciso ser analista político (que não sou) para ver o óbvio – é que esta vitória não foi vitória nenhuma  do PSD, do mesmo modo que a derrota do PS não chegou a sê-lo, pois a maioria absoluta dos portugueses não votou. Segundo uma estimativa divulgada  pela Direcção-Geral da Administração Interna éramos 9.667.024  eleitores à hora a que abriram as assembleias de voto no dia 7 de Junho; porém, feitas as contas a partir das percentagens já referidas, o número obtido significa, exactamente, que mais de 6 milhões de portugueses não deram o seu voto a qualquer força partidária, sendo o resultado eleitoral da responsabilidade dos outros 3 milhões e qualquer coisa. Estes  milhões de pessoas correspondem a várias multidões; e, no entanto, se fizermos as outras contas, calculando os números exactos de votantes nos dois partidos numericamente mais expressivos, veremos que, afinal, apenas uma minoria escassa ou nulamente representativa dos 9.667.024 eleitores e dos outros todos (que não sendo ainda eleitores também existem com os seus direitos e deveres) possibilitou as respectivas constatações de vitória/derrota. Alardear vitória ou carpir derrota quando mais de 6 milhões de eleitores não demonstraram rever-se em qualquer partido, parece-me um embuste, uma insensatez, uma cobardia.
       E depois aparece o cartaz da vitória-este que aqui reproduzo-apaga a imagem da líder que já nos habituáramos a ver, antes da dita vitória, e atira para diante com o slogan NUNCA BAIXAMOS OS BRAÇOS !
      Apagar a imagem da líder e substituí-la por uma frase na primeira pessoa do plural é engenhoso e significa mais ou menos o seguinte: nós ganhámos, nós todos e não ela, a líder, nós os que votámos PSD, nós os que nunca baixamos os braços!     
      Porém, uma dúvida me assalta sempre que leio a frase: este «baixamos» terá acento referindo-se desse modo ao passado e a sua falta não passa de uma gralha, de um esquecimento, de uma ignorância? Ou é «baixamos» mesmo assim, sem acento, e indica o presente, ou seja, que embora os pudéssemos ter baixado antes, não os baixamos agora?
    Por outro lado, que significa dizer, no passado ou no presente, Nunca baixámos/baixamos os braços? Parece-me uma estranha declaração, ainda que metafórica. Ter os braços sempre levantados pode significar que, pura e simplesmente, estamos impossibilitados de fazer seja o que for, pois, de braços erguidos, nada se consegue executar: ter os braços para baixo e em movimento, isso sim, é sinónimo de trabalho; ter os braços sempre erguidos não só é uma posição impossível de  manter durante muito tempo, como não conduz a realização nenhuma que faça sentido, a menos que sejamos budistas e, quais faquires, pratiquemos a concentração e o domínio dos músculos e dos sentidos e da consciência a tal ponto, que consigamos manter os braços erguidos sem danos. Mas porque serão agora praticantes do budismo os social-democratas, tanto mais que estão ao rubro porque ganharam as eleições europeias e querem ganhar as outras todas? O monge tibetano, que atingiu o nirvana e pode  manter-se de braços erguidos toda a vida sem consequências, não quer vencer eleições, não quer absolutamente nada, porque atingir o nirvana é exactamenete isso: nada desejar, nada querer! Portanto não creio que o PSD seja agora um grupo budista, mergulhado no nirvana após o resultado eleitoral! Mas a verdade é que, a não ser nesta perspectiva de esforço e de treino da meditação oriental, que permite o levantamento dos braços para sempre (mas também a ausência de todo e qualquer trabalho ou esforço) não consigo aderir racionalmente ao sentido de semelhante slogan.
 
 
 
 

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