FILÓBIA – O AMOR À VIDA

 

 

FILÓBIA – O AMOR À VIDA

 

«Um bom manifesto inicial pela abertura maior desta sociedade e da nossa cultura à Filosofia, à sabedoria, à capacidade do verdadeiro filósofo/a, que é um amigo ou amiga da sabedoria, do conhecimento vivido e integrado, possa maieuticamente pela palavra em diálogo, ou ainda mais subtilmente, ajudar o outro a fazer luz e harmonia no seu interior e na sua cosmovisão.
Por essa demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos, certamente por pressão ao longo dos tempos de diversos sectores, de religiosos a políticos e a tecnológicos, assistimos à insuficiência dos psicólogos em arcar com os mais sofredores das crises existenciais e contemporâneas e à multiplicação dos esoterismos e alternativas de pouca qualidade.
Força pois para abrir o 1º consultório de Filosofia em Portugal, ideia original e certamente necessária e salutar, nem que seja para ajudar algumas pessoas a pensarem, sentirem ou intuirem melhor a si próprios e ao mundo múltiplo que a tantos manipula, mas que é está unificado pelo Logos, que é também a compreensão sábia que anima a filósofa ou o filósofo.» (Pedro Mota, Comentário)

 

 

       Antes de ousar abrir o meu consultório de Filosofia, posso sempre treinar, usando esta via. Nem sequer preciso de sair do meu espaço para chegar aos outros, basta que eles venham e se apresentem: e assim, poderei estar por detrás de uma porta, aguardando os que desejam conhecer-se. A fechadura estará lá, decerto; mas não serei eu a espreitar por entre as teias de aranha e a caliça, uma vez que a porta é de cada um que se permite sondar-se até ao âmago.

     A porta carcomida e a fechadura são símbolos de existências em derrapagem e contudo abertas num remoto local que terá que ser descoberto, primeiro, admitido como abertura, depois e, por fim desvendado pelo olhar, tornado acutilante, capaz de ver e perceber as gradações vitais do outro lado. Eis a tarefa do Filósofo/a, eis a definição actuante da Filosofia, esta que é amor pela sabedoria, mas também amor pela vida : e eis a Filóbia, palavra que ainda não existe nos dicionários mas que inventei há anos para dar sentido ao meu ser filósofa.

    Penso que o vulgo – e quando utilizo a palavra vulgo, não estou a ser pejorativa, mas a referir-me à esmagadora maioria das pessoas, incluindo os cultos, incluindo os sábios, incluindo os licenciados em Filosofia (…) – não compreende o significado da palavra sabedoria neste contexto que é o da σοφία (sophia) ou da  φρόνησις (phronesis), a sabedoria prática, a sabedoria ética, a prudência, a virtude. Estes últimos termos – prudência, virtude – foram desfigurados pela religião católica que deles se apropriou no sentido de os referir às suas práticas. E no entanto, a prudência e a virtude são os ingredientes da phronesis aristotélica, são as qualidades que o indivíduo precisa de cultivar acima de tudo se quer viver bem, se quer actuar correctamente.

    Um consultório de Filosofia ou talvez um laboratório – pois, neste contexto, «mestre» e «discípulo» interactuam, sendo, assim, esse lugar um palco fértil de interacções – não se substitui aos consultórios de Psicologia ou de Psiquiatria ou de práticas esotéricas, quaisquer que sejam. Vale por si, representa a primeira etapa para o auto-conhecimento, para a descoberta do fio condutor existencial daquele que se investiga a si mesmo com a ajuda sábia do filósofo. Sábia, esclareço, sempre no sentido grego, de procura, de sondagem, equiparada, como o Pedro Mota diz no seu comentário, à arte da maiêutica levada a cabo pelo filósofo Sócrates, arte de fazer parir a verdade, essa que ilumina o fundo do ser e deve ser parturejada a fim de servir também de farol à superfície e logo ao mundo circundante.  Essa primeira etapa de que falo pode bem ser a última, se a mente do auto-investigador aderir ao esvaziamento inicial e ao preenchimento ulterior; porém, caso as investidas do filósofo/a não encontrarem receptividade, caso a mente daquele que a si próprio sonda interrompa a caminhada, pode passar para outras instâncias – as da Psicologia, as da Psiquiatria – que, em sintonia com a primeira sondagem,  orientarão as demais.

     É deste modo que eu vejo a função do Filósofo/a e o papel dos consultórios ou laboratórios de Filosofia, em interacção dialogante com os demais sectores de investigação da mente, avesso a medicações químicas, ou a processos morosos de análise unilateral, mas suficientemente esclarecido para determinar quando termina o seu papel, ou quando deve passar para outros a tarefa.

    O Pedro Mota fala em «demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos» porque os observa (tal como eu) confinados a uma sala de aula, onde os manuais ou as sebentas pontificam. Eu própria fui aviltada com aulas de filosofia em que me mandavam «papaguear» pensamentos de filósofos ou «despejar» matérias decoradas em provas, de onde o pensamento original, discursivo, dialéctico teria que ser cuidadosamente retirado. Se não me tornei papagaio filosófico foi na exacta medida em que resisti, não me deixei encharcar por teorias, não aderi à memorização abstracta e descontextualizada de pensamentos, tornei-os meus, inventei-os e reinventei-os, e tudo o que havia para aprender – pois tratava-se do pensamento de outros – aprendi-o, exclusivamente, à minha própria custa. Hesitei muito antes de tornar-me licenciada em filosofia, pois percebi que essa licenciatura nada significava, filosoficamente falando, tendo apenas um papel meramente académico e logo burocrático; por fim, cedi à pressão familiar, obtive o diploma mas – desta vez sem hesitações – optei por não o utilizar nas funções tidas como óbvias para o licenciado em Filosofia, recusei o ensino e fi-lo enquanto me não senti ainda mais desfigurada noutras profissões que tarde ou cedo vim a adoptar.

       O ensino veio depois e ficou pois entendi, gradualmente, que as salas de aula podem ser excelentes laboratórios de Filosofia, desde que o professor consiga distanciar-se do manual, puxar pela mente do jovem até aos limites, envolver-se com  ele numa luta mente a mente, arrancando-o ao comodismo do senso-comum e dos preconceitos. Venço parcialmente essa luta na medida em que o combate é desigual: estou eu, de um lado e 30, do outro – 30  predadores da verdade, 30 amordaçados ao conforto das opiniões colhidas nos media e na sociedade em geral, 30 mentes desatentas a si próprias e cada vez mais aturdidas pela parafernália tecnológica que lhes substitui o ser. Mas esse ganho parcial, essas vitórias que vou conseguindo quando, de entre a turba flutuante, um, dois, três apreendem o sentido do que deles espero, enquanto aprendizes do filosofar, ensina-me quotidianamente o caminho, faz-me cada vez mais réproba relativamente às fórmulas decoradas, que se esvaem logo que não temos necessidade de pô-las em prática e, em simultâneo, cada vez mais aberta ao culto da Filóbia.

     Deste modo, tomando como mote o comentário do Pedro Mota, dou sentido ao que escrevi no perfil (e depois apaguei) e respondo um pouco mais à questão que coloquei antes (O que é um filósofo/a?).

    Ignoro se chegarei algum dia a abrir um consultório/laboratório de Filosofia. De certo modo aboli essa hipótese quando a ficcionei em O Pulo do Lobo (Editora Pé de Página, 2006), para quase de imediato a destruir, não porque fosse absurda, mas porque o Filósofo da minha história sofreu a desilusão, por força dos que não lhe entenderam os desígnios. Ou talvez eu esteja à espera do companheiro/a capaz de se abalançar comigo a empreender semelhante tarefa! E certamente acontecer-me-á o mesmo que em tempos abalou Friedrich Nietzsche até ao cerne, esta busca de espaços para filosofar e de companheiros de eleição capazes de reinventarem o espírito da douta-sabedoria de Sócrates.

 

Uma resposta to “FILÓBIA – O AMOR À VIDA”

  1. Pedro Says:

    pedro mota escreveu:Sim, trazer as pesssoas à vida lúcida e plena é a caminhada por excelência das pessoas que estão mais investidas da busca da verdade, mais animadas do uso dialéctico ou maiêutico do pensamento, das que acreditam ainda no papel iluminativo dos colóquios, ensinos e palavra justa e viva.Então, perante o adormecimento, o embotamento, a distração, a pressa e o stress, o cansaço, a dispersão e alienação a que todos estamos tão sujeitos ou quase condenados contemporaneamente, é fundamental ou mesmo fundador encontrarmos os momentos em que podemos propiciar o espaço ambiental ou o acolhimento em que alguns conseguem despertar para o amor da sabedoria ou da vida, como a Regina enuncia na Filóbia."Tens direito à acção, mas não aos frutos dela", é um dos ensinamentos essenciais de Krishna, o Cristo antigo da Índia, e bem difícil para nós ocidentais. Contudo é uma das lições principais a ser trilhada: – Ama o que fazes, transmite com amor o que conheces e amas e, se as sementes que frutificam e desabrocham mais plenamente são apenas dois ou três numa turma, aceitemos com gratidão o milagre do erguimento de colunas adolescentes e continuemos a trabalhar mantendo a cosmovisão que nos anima e as metodologias que nos parecem mais adequadas, numa interacção criativa e harmoniosa com os seres e ambientes que chegam até nós ou nos conhecem.Sim, melhor que consultório serve laboratório, uma palavra que outrora significava local e estado interior de labor e de oração, empregado sobretudo na alquimia, a arte de transmutar e aperfeiçoar os elementos constitutivos da matéria e da psique, com a estrela a surgir por fim sobre o composto transformado. Todavia, hoje, no reducionismo de criação de dependências, consultam-se ou vai-se aos consultórios tantas vezes apenas para se aviarem receitas (de produtos de laboratórios mecânicos multi-nacionais) que resolvam rapidamente sintomas, muitas vezes originados em desequilíbrios ou carências que a participção num verdadeiro laboratório poderia solucionar, transformar, iluminar.Claro que, como diz o soprar pela animação das mentes, como os partos e gestaçâo de novos seres, é tarefa difícil e custosa nos outros e em nós próprios. Mas como cada um tem a sua especificidade e individualidade única, capaz de reagir e provocar certas cristalizações e novas configurações das ideias e dos sentimentos, dando-lhes sentidos também unicos na interacção contemporânea, a voz, a palavra, o discurso, a indagação interior mental de cada um de nós acabam por ser essenciais não só ao mundo que nos rodeia, como à nossa própria plenitude e razão de ser, para além de que tudo o que fazemos, sentimos, pensamos e nos consciencializamos, não morre no momento, não ficou na troca química dos neuro-transmissores ou encerrado na caixa estanque do cérebro, mas parte, toca, penetra, estimula outras almas ou mentes que estejam mais receptivas ou em afinidade com a qualidade e nível vibratório do que emanou, espalhando-se pelo infinito, quais as ondulações de um seixo lançado às profundezas do imenso lago.Nesta dança de lobos, de partículas ou de palavras, com pulos e recuos, com claridades e desertos, cada um enfrenta um mar de intencionalidades tão contraditórias que quando dois ou três se conseguem encontrar ou reunir como verdadeiros companheiros, ou como intensos amantes da vida e da sabedoria, tal é quase um milagre, uma jangada momentânea, ou um nadar fortificado na grande travessia do mistério da vida. A este sentido alude também a frase máxima de Jesus (aquele que disse ou diz: "Eu sou a Luz do mundo"): "Onde dois ou três se reunirem em meu Nome, eu estarei no meio neles". Por isso compreendo e compartilho a sua e minha aspiração pelos que podem juntar-se à mesma mesa, onde possa ser invocado ou destilado o elixir da sabedoria e amor imortalizante, que veio a ser também simbolizado no santo Graal.Talvez a Regina já tenha aberto o seu consultório-laboratório, pois o seu trabalho, o seu amadurecimento, granjearam-lhe o direito de saber usar o Logos, o amor-sabedoria dos antigos (dos pitagóricos aos neo-platónicos), ou se quiser a froenesis, a prudência do coração, com efeitos didácticos, curativos, maieuticos, iluminativos. Aliás, tanto os seus textos como os próprios ícones do seu blogue traem já a sua pertença à comunidade invisível dos verdadeiros filósofos, isto é, dos que sabem (ou pelo menos querem ou tentam) aprofundar ou reiventar «o espírito da douta-sabedoria de Sócrates», ou de outros seres que souberam despertar, descondicionar-se, "cosmocizar-se", e proferir as palavras decisivas e flamejantes, pelo menos para elas e para alguns, que felizes, como S. João, encostaram a face ou ouvidos ao coração do mestre, do amado, seja da professora da turma ou de quem nos abre as janelas da alma e nos ajuda a despertar e a desvendar capacidades e níveis de consciência, de solidariedade e de plenitude.Concordo com a possibilidade da filosofia poder ser tanto a primeira como a última etapa do auto-conhecimento, tal como a Regina diz, quando se consegue iluminar o fundo do ser (qual iniciação e ressurreição da alma do túmulo das identificações limitantes, como a fotografia inicial pode aludir) e trazê-lo no seu resplendor à consciência e à sua integração transformante, irradiante, na vida quotidiana. E, claro, havendo lugar para diferentes ou mesmo paralelas metodologias e perspectivas no trabalho de ajudar as pessoas libertarem-se, reciprocamente até, das suas ignorâncias, ilusões, sofrimentos e falsas identificações.Quanto à acutilância do olhar, quanto à transparência do coração, quanto à nossa capacidade de sermos verdadeiramente nós ou o outro, e de o deixarmos ou estimularmos a ser na sua essencialidade e na sua manifestabilidade plenas, esses serão sempre os essenciais e constantes labores ou exercícios pelos quais se expande a consciência e o Amor-Sabedoria, talhando-se o corpo espiritual, desvendando-se a Unidade…Conseguiremos nós manter o mesmo ardor na busca ígnea de mais claridade da Verdade em nós e na sociedade?Aqui está hoje o seu blogue, amanhã quem sabe o seu laboratório ou outros livros a impulsionarem almas, seja os alunos e alunas da escola que têm o privilégio de interagir consigo e a sua autêntica Filóbia, seja os seus leitores, auditores ou companheiros deste fabuloso Convívio que pode ser verdadeiramente o Caminho, que vamos trilhando sob o céu estrelado, de noite ou de dia, ainda tão afectados pelas aparências, sem nos apercebermos que as estrelas brilham mesmo de dia ou que o sol de noite continua a emitir o calor do seu Amor ou a luz da sua Sabedoria…Quanto ao chamamento, responderão os que estão prontos para o ensinamento…Graças e bençãos em si e na sua maiêutica…

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