Os Filósofos e a Fechadura

 
 

 

     

 

 

      Os Filósofos e a Fechadura

   

 

     O que é um filósofo? Eis a reflexão que me proponho hoje, aqui e agora, depois de ter apagado as três ocupações com que preenchi, em tempos, o meu perfil.

     Para sobreviver sou professora de Filosofia; mas a minha produtividade não se esgota nessa tarefa. No tempo que me resta, escrevo, mas os livros que publiquei e os que tenho para publicação (menos ainda!) não contribuem praticamente nada para a minha sobrevivência – ou seja, ganho muito pouco com a venda dos livros. Tudo aquilo que escrevo, seja poesia, romance, ensaio, teatro (…) traz a marca da reflexão filosófica, nunca escrevo textos planos, óbvios, lineares, a  profundidade analítica perpassa neles espontaneamente porque o exercício do pensamento é a minha tarefa essencial. Assim sendo, como hei-de definir-me em termos de ocupação?

      Há tempos disseram-me que, escrever aqui, no espaço do perfil destinado à ocupação, «Filósofa», é uma provocação aos leitores, é uma brincadeira, portanto: não há filósofos/as, não saímos das Faculdades de Filosofia com esse título, do mesmo modo que o Médico ou o Advogado ou o Psicólogo. Saímos «Licenciados em Filosofia» e o que nos espera, profissionalmente falando, é uma sala de aula, com adolescentes ou jovens adultos à frente, consoante nos detemos pelo ensino secundário ou avançamos um pouco até ao ensino universitário. Ser licenciado em Filosofia ou Mestre em Filosofia ou Doutor em Filosofia não é, por isso, o equivalente a ser licenciado em Medicina, ou Mestre em Psicologia ou Doutor em Direito: a esses é dado com facilidade o título de Médico, Psicólogo ou Juíz; no nosso caso, dizer « Sou Filósofa» ou «Sou Filósofo» não passa de uma piada!

      Não concordo com esta situação, ainda que, convenhamos, não exista ainda a profissão de Filósofo/a reconhecida e, acima de tudo, entendida pelas pessoas que, provavelmente, achariam extravagante encontrar, a par dos consultórios de Medicina ou de Psicologia, um consultório de…Filosofia! Para a maioria, os filósofos são gente estranha, e a Filosofia um enigma dispensável, pelo que um consultório de Filosofia com um filósofo/a à frente não teria muitas oportunidades de sucesso.

    É claro que estas possíveis reacções perante um consultório de Filosofia advêm de uma ignorância: o vulgo não sabe para que serve, de facto, a Filosofia, ignora a sua vertente prática, não reconhecendo, por isso, valor ou  credibilidade a quem se intitula Filósofo/a. O vulgo não consegue ver para além da palavra, enigmática, só por si, e dos boatos que correm por aí a respeito do fraseado difícil, confuso e inútil dos filósofos.

    Apesar de, por enquanto, a Filosofia continuar a ser uma matéria obrigatória para os alunos do ensino secundário, acredito que a esmagadora maioria deles sai das escolas sem ter sentido a vibração da Filosofia, esta que eu propugno e que pratico: no dia a dia, na sala de aula, no mais íntimo de mim e (quem sabe?) pode ser que um dia tenha arrojo suficiente para abrir um consultório de…Filosofia! Quem me consultar verá então o que significa de facto ser filósofo/a e intitular-se como tal! (Isto não é uma piada!)

3 Respostas to “Os Filósofos e a Fechadura”

  1. Pedro Says:

    Um bom manifesto inicial pela abertura maior desta sociedade e da nossa cultura à Filosofia, à sabedoria, à capacidade do verdadeiro filósofo/a, que é um amigo ou amiga da sabedoria, do conhecimento vivido e integrado, possa maieuticamente pela palavra em diálogo, ou ainda mais subtilmente, ajudar o outro a fazer luz e harmonia no seu interior e na sua cosmovisão.Por essa demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos, certamente por pressão ao longo dos tempos de diversos sectores, de religiosos a políticos e a tecnológicos, assistimos à insuficiência dos psicólogos em arcar com os mais sofredores das crises existenciais e contemporâneas e à multiplicação dos esoterismos e alternativas de pouca qualidade.Força pois para abrir o 1º consultório de Filosofia em Portugal, ideia original e certamente necessária e salutar, nem que seja para ajudar algumas pessoas a pensarem, sentirem ou intuirem melhor a si próprios e ao mundo múltiplo que a tantos manipula, mas que é está unificado pelo Logos, que é também a compreensão sábia que anima a filósofa ou o filósofo.Parabéns, força e inspiração…

  2. Pedro Says:

    Quanto à clara imagem fotográfica, mais perfeita ainda pelo losango que faz o ornamento e suporte da chave que roda, ela é bem sugestiva da entrada no interior, da porta do reino dos céus, ou das chaves do conhecimento, em tantos aspectos ocultadas ou ou distorcidas…

  3. Catia Cristina N. Says:

    ve tu para fazerex ixto es um maximo ta espetacular!!!!!:) lo0l

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