CARTA DE AMOR TRANSCENDENTE

                        CARTA DE AMOR TRANSCENDENTE

 

                             

 

 

 

 

 

«Querido amigo:

 

Não sei se chegaste ao teu destino, ou se o Pulo do Lobo gorou uma vez mais os teus desígnios. Sei que aquele lugar é mágico, vi-o sempre impregnado de história, eivado de metafísica, suspenso no mistério. Quanto a mim, percorri sem dificuldade ou dor os 157 quilómetros que me separavam do meu propósito e aqui estou, nas margens do Guadalquivir, repleta de ti no mais íntimo de mim.

            Escrevo para mim, mais do que para ti, já que, obedecendo ao trato que fizemos, na manhã de ontem, no Cais encantado do Rio de Mértola, não voltaremos a ver-nos até cada um de nós lavar a sua alma e expulsar os seus fantasmas.

            Até ao último momento – sabes, aquele instante imperceptível em que a cabeça se esvai num delíquio profundo e nada podemos dizer ou fazer, já que flutuamos e levitamos em vez de viver – eu achei que não ia acontecer nada. Estava preparada para fruir da tua companhia, à distância, tal como acontecera nas três noites anteriores, estava preparada para ficar ali o tempo que fosse preciso, muito embora me percorresse a intensidade avassaladora do desejo.

            Paralisada, não ousava fazer qualquer gesto, nem iria fazê-lo.

            Mas depois aconteceu. Mas depois tu vieste e derrubaste todas as barreiras.

            Não me entreguei logo, não queria acreditar que fosse possível unir-me a ti, de forma tão íntima, ainda que – digo-to hoje – o toque da tua pele me houvesse inflamado desde o instante em que, pela primeira de muitas vezes, agarraste o meu braço.

            Como posso escrever o que senti naquelas horas todas em que partilhámos o mesmo espaço físico? Em que nos misturámos um com o outro em busca da fusão?

            Não to disse, nem a mim própria ousei confessá-lo enquanto estavas perto; porém, a beleza que irradias perturbou-me de todas as maneiras possíveis e a trama que fomos tecendo no decorrer dos dias que passaram fez-me atribuir-te os poderes de Deus. Foi por isso que não me decidi a partir, foi por isso que acedi a acompanhar-te numa espécie de comunhão extra-ordinária, pela qual comecei a consentir na entrada do sobrenatural e a aceitar o milagre da crença.

            Não to disse, repito, negarias as minhas palavras, recusarias o elevado grau a que te fiz ascender no mais íntimo de mim… há coisas que não podem dizer-se, sob pena de fenecerem de repente… Ora, o despontar do milagre da fé no âmago de uma percepção agnóstica das crenças religiosas não pode destruir-se à hora da nascença.

            O que aconteceu na noite de ontem foi uma apoteose, um encantamento

            Eu já sabia que eras belo, mas não te conhecia com os meus cinco sentidos, não tinha até essa hora, para sempre miraculosa, a noção do que poderia ser tocar-te, por inteiro, sentir-te por completo.

            Aceder ao toque integral do teu corpo, do teu ser foi, é e continuará sendo uma experiência estética, uma projecção tão extraordinária de beleza, que nada pode igualar, nada pode servir de referência.

            Em nenhum momento das horas que passámos juntos, fundidos na plenitude mística que fez transbordar a alma para lá do seu cativeiro corpóreo e rodear-nos num amplexo divino, eu senti desarmonia ou estranheza. O teu corpo é tão belo quanto o teu rosto e tocar-te é tão sublime quanto ver-te. Os meus sentidos – muito mais do que cinco, naquelas horas todas! – foram absorvendo o que tu és, foram percorrendo os caminhos que conduzem ao conhecimento integral de ti – e fiquei fascinada. Uma vez mais e muitas vezes senti o toque do milagre.

            Amei-te com o corpo todo e com tudo o que há para lá dos limites da carne e, amar-te, ali, naquele espaço reconfortante e suave, foi encher-me de luz por dentro.

            Ah, Sérgio, como eu gostaria de ser mais bela, mais jovem, mais pura! Como eu desejaria não ter passado, não caminhar para um futuro, não estar presa no labirinto da dúvida presente! Gostaria de ser como te vejo a ti para que aderíssemos ambos ao sublime, gostaria de olhar para mim e ver a beleza que vejo em ti, para me sentir digna de ser o teu par.

            Eu quis olhar-te mais, eu quis tocar-te mais. Mas não tive ousadia suficiente e deixei que fosses tu a fazer os percursos, deixei-te guiar os gestos necessários, deixei-te ser espontâneo, para eu poder ver-te como és.

            Descobri que não tens consciência do poder extraordinário que guardas em ti e que, ao derramar-se sobre mim por caminhos que antes julgaria vulgares, se tornaram transcendentes. Descobri ainda que a união carnal é um acto de profunda beleza e pode inscrever-se nos domínios da estética, convertendo-se em obra de arte.

            Que posso dizer-te mais, a não ser repetir-me até ao infinito?

            Agora, se quisesse inventar uma palavra para definir o que sinto, não seria capaz de encontrá-la. Não é amor, não é paixão, não é desejo: está para além dos limites do nomeável, penetrou na esfera do indizível.

            É claro que sinto saudade tua, a nostalgia invade-me; mas foi esse sentimento que, afinal, me fez regressar às planícies doiradas, por ele desci até ao Pulo do Lobo e nele te reconheci no instante em que poisei os meus olhos nos teus.

            Frequentemente assalta-me uma espécie de sentimento de privação, como se algo de mim estivesse descolado e planasse em locais ignotos. Ao mesmo tempo, porém, vejo que o carácter sublime, estético como já disse, mas profundamente ético de todas as horas daquela noite e do prólogo que foram os três dias anteriores, representa um pedaço de infinito que não pode prender-se ou repetir-se.

            Julgo que estabelecemos uma relação excepcional, não apenas ôntica, mas vividamente ontológica, julgo que nada pode igualar, nunca mais, o poder da nossa vivência comum. Três dias – apenas três! – e eis que todo o universo ali se condensou.

            Somos ambos seres excepcionais, cada um a seu modo. Não sei se já o descobriste, tão pouco me permito adivinhar o que ficou em ti após o encontro do nosso ser: nosso, sim, só um, porque a dualidade desfez-se.

            Se tu fosses vulgar, em algum momento eu ia dar conta disso, porque estavas ali, nu e vulnerável, porque te abandonaste a mim na expansão natural dos teus sentidos. Se tu fosses vulgar, eu teria dado conta disso, não conheces o quanto sou sensível aos detalhes: um pormenor insignificante basta para destruir a maior das construções. E eu digo-te: naquelas horas todas não houve um som, um gesto, um odor, um toque, capaz de empanar o brilho do acontecimento e provocar o desequilíbrio.

            Sinto que acedi a uma experiência nos limiares da perfeição e tomo consciência de que tu és perfeito.

            E agora deixa-me dizer-te que tenho receio por ti. Como podes ser como és e andar por aí misturado com todos os outros? Quem poderá entender-te e captar o sentido fundamental do teu ser?

            A maioria das pessoas não está preparada para lidar com seres de excepção, e tu inseres-te nessa ordem, saibas ou não desta minha certeza. Daí o medo de que acabes perdido no tumulto de ti próprio, enredado em tibiezas que confundirás com objectivos, sedento de uma missão que não saberás reconhecer. Vi isso no olhar embaciado da nossa despedida, percebi a intensidade da tua carência… mas eu só podia afastar-me pois esse sentimento é um falso alicerce e nada que valha a pena pode erigir-se sobre areia. (…)»

 

                                                             Regina Sardoeira, O Pulo do Lobo, Pé de Página Editores, 2006, pps 121-124

 

Uma resposta to “CARTA DE AMOR TRANSCENDENTE”

  1. Pedro Says:

    Magnífica descrição desses encontros em que o Amor, a Unidade, a Perfeição infundem-se, desabrocham, fecundam, silenciam, unificam.Certamente que nada se pode acrescentar mas apenas cultuar a transcendencia e Imanência espiritual, amorosa, divina desvendada ou vivenciada em dias que rompem limites e fecundam entradas no eterno, um milagre na agitação e dispersão que nos rodeia ou aprisona…Conseguir manter viva a chama do amor, a percepção da beleza e da perfeição, e a ligação grata ao Divino, eis o que me surge como o que devemos ir tentando na peregrinação da Vida, sobretudo quando já saboreada ou sondada na profundidade e indizibilidade do Amor..

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