Ensaio: A Teoria da Reminiscência

                                            

  

 

                                                                                                                           

Criança Geopolítica Observando o Nascimento do Novo Homem – Salvador Dali

 

 

 

A teoria da Reminiscência de Platão explica a origem do conhecimento?

 

        O problema que vamos tratar neste ensaio é a resposta à questão formulada no título: pode a teoria da reminiscência platónica explicar a origem do conhecimento? De facto, a teoria da reminiscência procura demonstrar que conhecer é simplesmente recordar, o que pressupõe a existência de ideias na alma humana ali impressas antes do nascimento. Para chegar a esta conclusão, Platão baseia-se no pressuposto de que o homem é uma dualidade (corpo e alma) e de que a alma, uma vez que possui uma essência imortal, emigrou para o mundo inteligível após a morte do corpo, nele permanecendo durante algum tempo, e pôde aí contemplar as Ideias, que constituem a verdadeira realidade. Mas, uma vez que a sua qualidade imortal não implica perfeição e que o seu desígnio é atingi-la, após algum tempo de aprendizagem, a alma regressa ao mundo sensível, encarna num outro corpo e inicia uma nova existência com o objectivo de recordar as aprendizagens anteriores e, desse modo, conhecer verdadeiramente, aperfeiçoando-se.

       O objectivo deste ensaio é provar que a teoria da reminiscência platónica não é adequada para explicar a origem do conhecimento uma vez que assenta numa hipótese cuja validade só pode presumir-se e não verificar-se efectivamente – a metempsicose.

      Este problema é importante, do ponto de vista filosófico, porque permite discutir uma das teorias explicativas do conhecimento, quanto à sua origem – o racionalismo – possibilitando-nos avaliar o poder da nossa razão e ainda explorar teorias divergentes, promovendo deste modo o alargamento das nossas perspectivas. O leitor é convidado a fazer uma leitura crítica dos argumentos que vamos apresentar, de modo a participar de modo activo na construção de uma possível teoria.

      Os defensores do racionalismo, em geral, admitem a existência de ideias inatas impressas na alma (ou razão) antes do nascimento e de cujo valor e veracidade não duvidam, visto elas serem a expressão máxima da certeza que o homem pode alcançar. Para Platão, as ideias são seres, entidades do mundo inteligível – uma dimensão cosmológica oposta ao mundo sensível – capaz de fornecer os modelos de que toda a realidade sensível seria uma cópia. Essa cópia corresponde a tudo aquilo que o homem, enquanto dualidade corpo e alma, consegue conhecer e, se de tal é capaz, é na exacta medida em que, viajando no mundo dos seres perfeitos (as ideias) pôde registá-los enquanto imagens e, ao revê-los no mundo sensível, enquanto cópias, pode conhecê-los, recordando-se do que antes viu. Desse modo, o conhecimento é possível porque a sua origem é transcendente ou seja, depende do trajecto e da observação da alma no mundo inteligível e da recuperação das memórias dessa observação, uma vez dada a reencarnação e sendo a alma posta em contacto, através da sua prisão – o corpo – com as imagens ou cópias dos modelos ideais. O racionalismo de Descartes (França, século XVII) tem por base a tese platónica da pré-existência de ideias na alma, antes da experiência sensível e também ele defende a sua importância original na evidência do conhecimento humano. Porém, Descartes não é partidário da reencarnação, sendo as ideias inatas uma dádiva de Deus que, sendo bom, concede ao homem algumas «sementes da verdade», as únicas que, sendo claras e distintas, possibilitam a dose de conhecimento verdadeiro de que, enquanto homens, somos capazes. Estas ideias não são, contudo, produtos metafísicos de uma viagem transcendente da alma no mundo inteligível, mas sim condições imanentes da própria estrutura da razão, sendo esta a diferença mais relevante face ao racionalismo platónico. Para além das ideias inatas, Descartes admite ainda a colaboração, no conhecimento humano, de ideias adventícias, produto dos sentidos, e de ideias factícias, produto da imaginação; porém, apenas as inatas, sendo evidentes, garantem a certeza do conhecimento humano.     

             O racionalismo platónico e o seu suporte – a teoria da reminiscência – não possibilitam, contudo, uma explicação objectiva da origem do conhecimento humano. Em primeiro lugar, para podermos aderir a esta forma de racionalismo, necessitamos de, pelo menos, dois pressupostos: teremos que admitir a existência do mundo inteligível e a presença, nele, dos seres ideais e perfeitos que são as essências e os modelos de todos os seres que conhecemos no mundo sensível, os quais não passam de cópias imperfeitas; por outro lado, teremos que aceitar a reencarnação e a transmigração das almas, único meio capaz de pôr, de algum modo, as ideias puras do mundo inteligível à disposição do ser duplo que é o homem. Tais pressupostos pertencem ao âmbito da crença e do mito não podendo nunca ser alvo de uma investigação empírica – pelos sentidos é impossível penetrar no mundo inteligível, segundo Platão – estando por isso vedada a sua investigação em moldes científicos. Portanto, o racionalismo platónico e a teoria da reminiscência não dispensam a crença em realidades e poderes transcendentes ou a sua aceitação como pressupostos de toda a investigação posterior. Não são, por isso, teorias independentes das verdades metafísicas ou transcendentes as quais não podem explicar-se pela via do simples raciocínio humano suportado por observações materiais. Uma vez que a filosofia pretende explicar, neste contexto, a origem do conhecimento humano, não poderá consegui-lo se abolir o valor dos sentidos ou se fizer depender a sua validade de crenças em realidades ilusórias das quais não poderemos ter qualquer testemunho objectivo. Ao secundarizar a importância do corpo que, em Platão, é o carcereiro da alma, para ele desterrada como castigo da sua imperfeição, o filósofo não consegue resolver uma contradição presente na sua teoria: se não fosse o corpo e, por isso, os sentidos, como seria capaz a alma de ver, ouvir, cheirar, etc. o mundo material e poder partir para a reminiscência? Desse modo, Platão secundariza falsamente o corpo uma vez que, em simultâneo, considera-o a prisão da alma e a única via de acesso ao mundo sensível que, sendo uma cópia do inteligível, permite, pelas vias sensíveis, a recordação do original e, por outro, faz dele o veículo de acesso às imagens pálidas das ideias puras que são as nossas percepções. Nessa medida, se retirarmos ao racionalismo platónico a pressuposição da metempsicose e consequente necessidade da existência de uma duplicação de mundos e de seres, não resta nenhum suporte legítimo a tal racionalismo, pois o homem não passará de um ser semelhante aos outros, capaz de sensações empíricas que, submetidas aos critérios da razão, lhe possibilitarão conhecimento. Por essa razão, opomos à tese racionalista, uma concepção empirista do conhecimento a qual valoriza realmente os sentidos como única via objectiva para a aquisição de conhecimentos. Efectivamente, o empirismo, rejeitando a existência de ideias inatas como condição do conhecimento, admite que, à nascença, o espírito ou razão humanos são tábuas rasas (assim escreveu Jonh Locke), vazias de ideias e apenas o contacto com a experiência sensível e o hábito ou a educação engendram ideias cuja organização racional é o conhecimento. Logo, uma tal concepção permite a formulação de uma teoria objectiva e científica acerca da origem do conhecimento, afastando a crença em realidades transcendentes e logo inacessíveis ao homem enquanto tal – cujo corpo, na óptica de Platão, jamais penetra a dimensão inteligível – que, porque acede ao real através dos sentidos, com eles opera a primeira abordagem do mundo.

            Poderá objectar-se que os sentidos, uma vez que correspondem a órgãos sensoriais aptos para o registo de impressões diversas, mesmo sendo possível ordená-las num todo coeso, não indiciam a presença de verdadeiro conhecimento, correspondendo, por isso, tal captação a um simples amontoado de impressões. E então o empirismo não poderia jamais ser a fonte explicativa do conhecimento se a racionalidade não tivesse qualquer poder próprio e logo inato, capaz de acrescentar coerência à aquisição de sensações. Uma outra objecção prende-se com o carácter específico do homem, animal como os outros e contudo racional ou seja detentor de uma capacidade super ou ultra humana, possibilitadora de acesso a verdades transcendentes pois parte dele é uma alma imortal de origem divina. Efectivamente, até ao dia de hoje, o restante mundo animal não atingiu os patamares de conhecimento que são próprios do homem, muito embora eles possuam sentidos e inteligência, o que parece pressupor uma diferença qualitativa substancial. É claro que a diferença existe e é possível assinalá-la, basta observar toda a produção do homem desde os primórdios; será isso no entanto justificação plausível para supor que existe uma alma emigrada em cada homem, uma alma portadora de todo o conhecimento possível, mas alienada num corpo que lhe retira o poder e a faz esquecer-se do que aprendeu e só aceder a algum conhecimento certo por via de uma penosa ascensão? Podemos portanto considerar que a reminiscência platónica não explica adequadamente o modo como o conhecimento advém ao homem, pois, fazendo com que ele derive da permanência da alma no mundo inteligível, seguida de queda no mundo sensível e consequente amnésia do conhecimento adquirido no inteligível, passando para uma penosa e lenta recordação daquilo que outrora aprendeu, esquece a importância crucial do corpo, pelo qual a alma acederia às impressões sensíveis e as enviaria à alma a fim de que ela pudesse relacioná-las com os arquétipos que contemplara antes. A teoria da reminiscência não explica como se dá este trânsito da alma entre mundos e mesmo dos modelos inteligíveis para as cópias sensíveis, não mostra de forma clara como ou por obra de quem o mundo sensível aparece como uma duplicação mais pálida e imperfeita do mundo inteligível.

            Por estas razões e de posse dos argumentos apresentados, podemos concluir que, efectivamente, a teoria da reminiscência não representa uma explicação  objectiva e credível sobre a origem do conhecimento, ainda que, do ponto de vista poético e mítico constitua uma bela teoria.

 

                         (Modelo de ensaio para alunos de Filosofia do Ensino Secundário)

 

 

 

 

3 Respostas to “Ensaio: A Teoria da Reminiscência”

  1. Pedro Says:

    Salve Regina.A reminiscência platónica e antes dele pitagórica tem sido apresentada e interpretado de diversos modos e, sem dúvidas, para a penetração correcta não só no corpus platónico como sobretudo no mundo das ideias e dos arquétipos será necessária uma perseverante aproximação reflexiva, meditativa e contemplativa.Na minha comprensão a ideia básica é a de que o espírito emanou do Ser Espiritual primordial, adquiriu uma alma na passagem de descida pelos mundos ou círculos planetários subtis e entra por fim num corpo físico com impressões, karmicas se dirá no Oriente, de ideias e tendências inatas se falará no Ocidente. mas para já nem é preciso falarmos de uma metempsicose ainda que ela surja em várias versões tanto pitagóricas como platónicas.A reminiscência na zona do Tâmega e do Marão, corações geográfico-culturais de Portugal, pelo menos literária e culturalmente, não estará assim tão incorrecta pois Teixeira de Pascoaes a transformou na Saudade, e apresentou-a mesmo como o principal elemento característico da religião lusitana, o que foi até por Fernando Pessoa, nos seus começos, muito apreciado e elogiado: "Pascaoaes está a fazer maravilhas com a sua divinização da saudade"Com efeito, com a lembrança ou reminiscência do mundo divino ou espiritual donde vimos e o desejo de regressarmos a essa unidade, temos a saudade dinâmica que Pascoaes, Leonardo Coimbra e mesmo Pessoa tanto desenvolveram.Podemos dizer é que de facto hoje a nossa capacidade de reminiscência da vida ante-natal está muito fraca, pois estamos demasiado identificados ao corpo, à razão e ao cérebro e este é novo e os outros precisam dos instrumentos subtis do corpo espiritual para poderem depois pensar, sentir o que vem de uma experiência supra-física.Todo este campo do conhceimento supra-reciona, hiper-fisico, metafísico, espiritual está dificultado, pois só o sujeito pode ser observador. E se o inconsciente colectivo (por exemplo em Carl Gustva Jung foi bem desenvolvido e tem como que direito hoje a ser investigado como ocupante de algumas células, neurónios ou genes, tivemos de aguardar pela contemporânea psicologia transpessoal e pelas induções psico-regressivas, vulgo hipnóticas, para começarmos a recuperar conteúdos bastantes longínquos, seja desse inconsciente colectivo, seja do mar anímico que cada pessoa tem consigo, seja de memórias da vida ante-natal ou mesmo de outras vidas terrenas, terreno certamente muito escorregadio e ilusivo.Que há conhecimentos inatos, que temos reminiscências inesperadas, seja de lugares, de pessoas ou de estados anímicos, isso não há dúvidas. Agora, como a Regina põe o dedo na ferida ou chaga, não há certezas objectivas de que esses conhecimentos sejam mais do que intuições subtis ou imaginações, que certamente mesmo assim merecem o nosso respeito enquanto puderem melhorar a nossa compreensão, funcionalidade e plenitude, sinónimos de verdadeiro conhecimento.Eis um primeiro comentário, como uma fotografia, uma pequena abertura sobre o grande oceano da reminiscência e do conhecimento, certos contudo que, como Pitágoras, Sócrates e Platão exigiriam, estes assuntos, embora seja de louvar-se serem apresentados a jovens do Secundário, são para ser dialogados e contemplados maieutica e iniciaticamente para darem melhores resultados…

  2. Pedro Says:

    “Conhece-te a ti mesmo”, gnothi seautón, é uma das injunções mais belas e antigas que a história conserva, atribuindo-se a sua origem a certos pensadores gregos e a sua legenda sobretudo à inscrição dela no templo grego de Delfos.“Conhece-te a ti próprio e conhecerás os Deuses e o Universo” é também acrescentado como fazendo parte dessas frases que estariam escritas na frontaria do templo. Outros ditos, avisos ou máximas que estariam no frontão do templo consagrado a Apolo, o deus da medida, da justiça, da claridade ou da harmonia, segundo Platão no Protágoras e nas Cármides, seriam: “Nada em excesso”, medén agan e sophrónei, “sê prudente”. E de facto, se o sentido original nunca se poderá assegurar, algumas indicações sugerem que o principal na época seria:Conhece-te enquanto ser humano, inserido num mundo que tem os seus seres e princípios superiores que deves venerar, respeitar e amar.Conhece que tens certas limitações que não podes ser ou fazer tudo. Respeita os outros com humildade, e não pretendas ser um deus, um tirano…É contudo possível dar conteúdos mais dinâmicos a esta injunção no sentido de nos conheceremos nas potencialidades psíquicas e espirituais que temos.Nesse sentido de auto-observação, de auto-conhecimento e de revelação corre a tradição dos mistérios ou das religiões iniciáticas, ou da pedagogia dos filósofos ou mestres como Pitágoras, Sócrates, Platão, Plotino.Ora este conhecimento, se em certos aspectos é imediato ou fácil, já noutros, os respeitantes aos níveis mais profundos, subtis ou essenciais de nós a obra é bem mais complexa e exigente.Daí o aparecimento de uma série de doutrinas e práticas gnósicas, gnoseológicas que perpassam transversalmente por todas os povos e tradições, ou mesmo religiões.Entre elas estão a doutrina da reminiscência, em grego anamnesis, ou seja, recordação, memória, lembrança, que perpassa na obra de Platão, deixando-nos algumas pistas para a resolução dos problemas epistemológicos do conhecimento mais elevado.O mundo divino, ou espiritual, ou da Realidade suprema, ou eterna, com as suas ideias, seres, arquétipos, como pode ser conhecido? Ou seja, haverá em nós predisposições, ideias inatas, princípios, distinções de bem e do mal, que provém de uma anterioridade seja vivida, seja contemplada, ou tal é meramente transmitido geneticamente pelos nossos antepassados.Como aprofundar ou reconhecer pois tais realidades ou níveis que estão acima dos sentidos corporais e sensíveis?Platão no Ménon mais tarde na República, fala de certos desenhos geométrico ou diagramas e do diálogo ou interrogatório que possibilitam conseguirmos trazer à luz da consciência actual tais níveis subtis ou elevados, aprofundando no Fedro estas teorias.Ora quando tomamos a reminiscência como uma mera lembrança do que já foi visto noutra vida, ou como uma possível ou imaginativa reactualização de um conhecimento longinquamente arquétipo, estamos a colocá-la na prateleira dos mitos poéticos e das infuncionalidades dos antigos… Mas se considerarmos que a reminiscência é o nome que damos ao esforço da mente humana de aguçar a sua capacidade de captação logóica (que é hoje a inteligência emocional dos neurocientistas…), então já a poderemos considerar um bom exercício capaz de dar frutos.Quais?Por exemplo, quando tentamos alcançar a reminiscência da divindade, da plenitude do mundo espiritual, nós estamos a fazer um esforço religioso ou seja de nos religarmos com níveis elevados seja no Cosmos seja em nós mesmos. Porque o espírito, o divino são sempre na realidade alcançados através e no nosso interior, pois este é o lugar da teofania, ainda que se possa processar como imagem ou sensação fora de nós.Mas talvez o aspecto mais actual e importante da teoria da reminiscência é o seu aspecto de aproximação e revivificação de níveis morais e espirituais que possamos sentir em falta e que portanto sentimos desejo ou amor de conhecer ou incarnar mais e então a concentração da reminiscência funciona e o que pode ser visto como um ritual mágico de invocação de uma qualidade ou arquétipo, daí podendo resultar a revelação de alguma faceta ou energia do seu ser.Praticar então a reminiscência é uma forma de meditação: por exemplo, a da beleza. Eu quero lembrar-me da beleza original ou primordial. Eu quero sentir mais relação com ela. Não quero estar tão carente no mundo dos factos, quero sentir no mundo da alma o que é a beleza. Um passo mais à frente nesta investigação da beleza é a da descoberta da alma gémea, a beleza ideal na nossa contraparte e que nós podemos, enquanto amamos ou idealizamos, no fundo potencializar nos seres do outro sexo que vamos encontrando e com quem pensamos ter certas afinidades com as quais é possível conseguirmos estar num estado de amor, de unidade de dois seres na sua dádiva integral e bela. Assim a reminiscência não é uma mera ficção poética mas sim um prática psico-espiritual com muitas aplicações e níveis, que pode chegar mesmo ao ser Divino: concentrarmo-nos Nele e admitindo que emanamos Dele, tentamos sentir com gratidão e amor, e quem sabe ver ou compreender quem é essa Origem e que profundidade, infinidade e perfeição está aí, e porque razões nós nos deixamos iludir tanto pelos desejos ou receios, as plenitudes ou as frustrações do mundo que nos rodeia e nos perdemos Dele e da sua beatitude e beleza que depois acabamos por andar sempre a procurar fora de nós, e porque não O sentimos na nossa profundidade acabamos também por não ver este nível nos outros, que é verdadeiramente o fundamento duradouro da beleza de cada ser e das melhores possibildades de harmonia e unidade no Cosmos.

  3. Pedro Says:

    Como escreveu que o «leitor é convidado a fazer uma leitura crítica dos argumentos que vamos apresentar, de modo a participar de modo activo na construção de uma possível teoria», resolvi contribuir dialogando um pouco consigo e o seu texto…De facto, a teoria da reminiscência procura demonstrar que conhecer é simplesmente recordar, o que pressupõe a existência de ideias na alma humana ali impressas antes do nascimento.Parece-me porém que a teoria da reminiscência mais correcta, algo que Platão foi tentando em algumas partes da obra, mas sem que possamos considerar um doutrina, nem que ele tenha captado os misteriosos processos da emanação original dos espíritos e consciências, nem o seu percurso e desenvolvimento, é não que a alma tenha contemplado as ideias exteriormente mas que ela emana de um Espírito primordial levando logo consigo certas energias e impulsões e que serão acentuados na sua passagem (a queda) pelos vários planos do universo até chegar ao corpo, e isto seja vivendo-se uma só vida, seja havendo um movimento de vai e vem, até que se alcance a libertação das dependências e necessidades terrenas. Há pressupostos para isto que, talvez melhor do que está no seu texto explicaria, exprimiria como sendo o de que o ser humano é um trindade de corpo físico e etérico, alma emotivo-psíquica e espírito. E que tendo emanado do mundo espiritual desceu ou está incarnado num corpo físico no mundo terrenoOra a iniciação, e a prática da reminiscência como meio de chegar a ela, é a tentativa de religação do corpo e alma, através da sua consciência pessoal, com os níveis espirituais, de si mesma e do universo, e o que estes contém de forças, sentidos, ideais, ideias, princípios e sobretudo seres espirituais, os deuses de outrora, anjos, mestres ou espíritos outros. O que é a verdadeira realidade depende sempre do que entendemos por verdadeiro e real. Ora para muitas tradições o que verdadeiro e real é o que é eterno ou dura sempre, e como no mundo sensível tudo é mutável e perecível só o divino ou espiritual será considerado como realidade verdadeira.Claro que a origem do conhecimento será sempre um mistério na medida em que são mistérios a origem do universo e do ser humano.Não me parece correcta esta oposição entre o Cosmos e o mundo físico sensorial e sensível, pois uma circulação e princípios de derivação e correspondência, estão em permanente acção. Também não temos que admitir que tudo no mundo sensível seja uma cópia dos modelos superiores. Deveremos antes conduzir que há sim algumas ideias, princípios e formas arquétipas que depois dão origem e recebem contributos novos provenientes do mundo sensível. Quantos conceitos novos, ou quantos desenvolvimentos e aprofundamentos de ideias se tem realizado a partir das invenções humanas, das quais não podemos dizer que elas já existiam nos mundos espirituais ou arquétipos? E ao considerarmos que o mundo mental das ideias e pensamentos está em contante agitação e interacção com as mentes dos homens e o que se passa na terra, algo a que alude aliás na sua formulação das ideias adventícias e não inatas, estamos bem mais próximo de um retrato correcto dos mecanismo do conhecimento no Cosmos.Assim é evidentemente muito simplista a visão da reminiscência derivada de uma pessoa e que «viajando no mundo dos seres perfeitos (as ideias) pôde registá-los enquanto imagens e, ao revê-los no mundo sensível, enquanto cópias, pode conhecê-los, recordando-se do que antes viu». Já é interessante e acertada a ideia de que em Descartes «as ideias não são, contudo, produtos metafísicos de uma viagem transcendente da alma no mundo inteligível, mas sim condições imanentes da própria estrutura da razão», algo porém que estava também implícito no platonismo nos seus aspectos mais dialécticos ou mais supra-racionais e iniciáticos.Mas não é necessário nem a reencarnação nem a transmigração para admitirmos a reminiscência. Porém a existência do mundo espiritual com os espiritos, mestres ou deuses certamente que é indispensável. Já quanto às melhores formas de explicar a constituição subtil de tais mundos e como são as ideias, arquétipos, princípios e leis que aí vigoram aí pouco ou nada a ciência moderna tem adiantado (como reconhece no seu ensaio, embora registemos o esforço da psicologia transpessoal…) às geniais intuições de mestres como Zoroastro, Krishna, Pitágoras, Platão, Jesus, Sohravardi, Jacob Boehme, Swedenborg, Bô Yin Râ e tantos outros. No mundo filosófico de hoje parece-me que há que acrescentar ao valor eterno da razão e do racionalismo seja platónico ou aristotélico, não só a concepção empirista do conhecimento a qual valoriza realmente os sentidos como a via mais ou menos objectiva (dado a indução quântica de que o observador influencia a coisa observada) para a aquisição de conhecimentos, mas também a indagação do mundo subtil das partículas, das ondas de pensamento, do espírito. Assim se evitarão erros como os de confundir-se o espírito com a razão humana, ou o cérebro, e considerá-los tábuas rasas. São pois muito acertadas as objecções que põe em 1º lugar ao valor dos sentidos para nos darem um verdadeiro conhecimento, e em 2º lugar a uma teoria do conhecimento exageradamente assente numa unilateral reminiscência platónica que esqueça a importância crucial do corpo (quase que o diabolizando como carcereiro) seja para o conhecimento, para a iluminação, salvação ou libertação, ou, simplesmente, mais integração e felicidade. Por estas razões, e desprendidos de preconceitos, devemos acolher e aprofundar uma teorização viva da reminiscência de modo a que o nosso conhecimento não fique limitado nas dualidades empirismo-racionalismo, espiritualismo-materialismo, ou hemisfério cerebral esquerdo-direito, mas tente cada vez mais ser completo, satisfatório e harmonioso.

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