O SIGNIFICADO

     
 
 
O SIGNIFICADO
 
 
    «Finalmente uma excursão digna de nós. Águas profundas, rápidas imersões e emersões. Água fria, refrescante. Adoro uma filosofia viva! Adoro uma filosofia cinzelada da experiência bruta. A coragem cresce. A vontade e a provação abrem o caminho. Mas não será tempo de partilhar os seus riscos?
    A época de uma filosofia aplicada ainda não amadureceu. Quando chegará? Dentro de cinquenta, cem anos? Chegará a época em que os homens deixarão de temer o conhecimento, deixarão de disfarçar a fraqueza como "lei moral", encontrarão a coragem de quebrar as algemas dos mandamentos. Os homens vão então ansiar pela minha sabedoria viva. Vão precisar da minha orientação para uma vida honesta, uma vida de descrença e de descoberta. Uma vida de superação. Do desejo superado. E que desejo maior do que o desejo de se submeter?
     Tenho outras canções que precisam ser cantadas. A minha mente está pejada de melodias e Zaratustra chama-me ainda mais alto. O meu trabalho ainda é o de técnico. Mesmo assim, devo enfrentar a tarefa e registar todos os becos sem saída e todos os caminhos válidos. (…)
    Temos que nos voltar para o significado. O sintoma não passa de  um mensageiro com a notícia de que a Angst está irrompendo da profundeza do ser! Preocupações profundas com a noção de finito, com a morte de Deus, com o isolamento, com o propósito da vida, com a liberdade – preocupações profundas trancadas durante toda uma vida – rompem agora as suas cadeias e batem às portas e janelas da mente. Exigem ser ouvidas. Não apenas ouvidas, mas vividas!
   Aquele estranho livro russo sobre o Homem Subterrâneo continua a espantar-me. Dostoievski diz que certas coisas não devem ser contadas, excepto aos amigos; outras não devem ser contadas nem aos amigos; finalmente existem coisas que não se contam nem a si próprio! (…)
   Os curas paroquiais, como o meu pai, sempre protegeram os seus rebanhos de Satã. Pregam que Satã é o inimigo da fé, que Satã, de modo a minar a fé, assume qualquer disfarce – e nenhum deles mais perigoso e insidioso do que o manto do cepticismo e da dúvida.
   Mas quem nos protegerá a nós – os santos e os cépticos? Quem nos advertirá contra o amor à sabedoria e o ódio à servidão? Será essa a minha missão? Nós, os cépticos, temos os nossos inimigos, os nossos Satãs, que minam as nossas dúvidas e espalham as sementes da fé nos locais mais subtis. Deste modo matamos os deuses, mas santificamos os seus substitutos: professores, artistas, mulheres bonitas. (…)
   Nós, os que duvidamos, temos de estar vigilantes. E fortes. O impulso religioso é feroz. Será a minha missão a do sacerdote do incrédulo? Devo dedicar-me a detectar e destruir os anseios religiosos, quaisquer que sejam os meus disfarces? O inimigo é assombroso; a chamada crença é incessantemente alimentada pelos temores da morte, do esquecimento e da ausência de sentido.
   Onde nos conduzirá o significado? (…) Talvez tenhamos que descascar os significados um a um, até que o sintoma deixe de significar qualquer coisa que não ele próprio. Uma vez despojado dos significados excedentes, ver-se-á como o ser humano, demasiado humano, assustado e despojado que todos nós realmente somos.»
 
( Texto adaptado a partir de Quando Nietzsche Chorou de Irwin D. Yalom, Edições Saída de Emergência, 2006, pps 242-244)
 

Uma resposta to “O SIGNIFICADO”

  1. Pedro Says:

    A viagem de Nietzche, a sua pregação revolucionária e libertadora, certamente com exageros e limitações, continua a ter o seu papel de alerta contra tanta manipulação do conhecimento e da verdade, tantos medos e servidões.Descobrir uma filosofia, ou amor à sabedoria, viva, em que estejamos plenamente, dos pés à cabeça, do corpo ao espírito, num caminho justo e verdadeiro, criativo e amoroso, eis o desafio incessante que ecoa desde os tempos de Delfos, quando além do famoso "conhece-te a ti mesmo", uma injunção ainda mais forte havia, e que Plutarco registou e escreveu mesmo um livro: "E", Sê, ou ainda: Tu és….Nietzche tombou extenuado ou alienado no meio do caminho. Choremos ou oremos por ele e por todos os que por desmesuras da hybris caem nas malhas das oposições extremistas, seja com as designações de Jeova ou de Satã.Porém, graças à sede invencível de conhecimento por parte da Humanidade, cada vez mais se revela, por detrás ou como a essência das verdadeiras demandas, filosofias, religiões e tradições, a Sabedoria Perene.A nós de a acolhermos, vivermos, aprofundarmos, partilharmos, irradiarmos…

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