Insignificâncias

 
 
 
 
 
 
 
 
 INSIGNIFICÂNCIAS
    
 
 
     Todos os dias a todas as horas, as insignificâncias abatem-se sobre nós, perturbando ou anulando a intrínseca e verdadeira razão de sermos humanos e de estarmos vivos.
     Que importância tem que um  homem tenha sido vendido e comprado, tenha sido mandado de um país para outro a soldo de um clube desportivo? Que importância tem para nós, humanos de mente e corpo, que semelhante personagem se passeie por aqui e por ali, gastando fortunas, que tenha este ou aquele aspecto, esta ou aquela maneira de viver? Porque nos atiram quotidianamente ao rosto semelhante insignificância? O homem em questão não passa de um escravo, deixou-se comprar e vender, e aos seus proprietários vai entregando tudo o que tem de seu e que aos donos ainda interessa, a saber: uma agilidade, uma técnica, uma aptidão que pouco são em si mesmas mas que, erguidas aos píncaros, por uma necessidade lamentável de preencher vazios, se ornaram em símbolo e em mito.    
     Que importância tem que um homem, mesmo que seja um governante, tenha dado vazão ao primarismo subjacente a qualquer natureza, mesmo que humana, e executado, no palco político e mediático, um gesto deselegante, para que nos mostrem morbidamente a imagem letal e encham com esse lixo páginas de jornais? Que importância tem para nós, humanos de mente e corpo, semelhante insignificância?
     Que importância tem que um outro homem – pobre e esfíngica personagem pálida e descaracterizada – tenha deixado de viver, e se mude o rótulo de «extrema decadência» e «antigo rei da pop» para  «um dos mais significativos génios do século XX» e, de novo, «inquestionável rei da pop»? Que importância tem que ele haja nascido negro, para depois passar a branco, que tenho sido jovem e vivo para se transformar em amorfa criatura marfínica, pouco mais que sombra, pouco mais que evanescente visão do humano?
     Insignificâncias, todas estas histórias, propaladas e sugadas até ao âmago enquanto despertarem o apetite das multidões, mas apenas rasando a superfície do ser, porque jamais saberemos, de facto, quem é o jovem mito dos relvados, adulado e disputado pelas multidões, e contudo dono de um ser íntimo indesvendável, nunca lograremos perceber as autênticas razões do gesto deselegante do homem de estado, ele próprio apanhado numa teia de suposições e fraudes em que a palavra dita nunca é a expressão do pensamento ou a verdade do sentir, e nenhuma revelação mediática será capaz de demonstrar, inequivocamente, as motivações reais de um homem acossado pelos seus próprios infernos, erguido aos píncaros da fama e destruído nas arenas do espectáculo que o ergueu e flagelou.
     Insignificâncias, eis tudo o que temos para alimentar a vigília, insignificâncias, eis o que elevamos à categoria de sentido da existência, insignificâncias, eis o que nos depõem à entrada do nosso pensamento, para que tudo o resto desflore e desfolhe em atonia de significado.
     Sei bem que todos os homens têm um fundo e uma superfície e que as insignificâncias com que nos acenam sobre os que saíram do casulo do anonimato e se passeiam nas arenas da notoriedade não vão para além da medida rasa do ser; sei bem que esses, todos esses que por uma ou por outra razão são erguidos (ou rebaixados) até à celebridade, são muito mais do que a primeira página dos jornais, a abertura das notícias ou o instantâneo captado pela objectiva assestada aos seus fragmentos de vida. Mas nós, que espreitamos a notícia ou o instantâneo, nunca saberemos quem são, de facto, esses que, apesar de tudo, dizemos conhecer. Nunca conseguiremos ver para lá da sombra que o vulto da parafernália mediática lhes lança sobre a existência, decerto comum, decerto grandiosa, decerto angustiada…pois é esse o sinal de ser homem e de estar vivo.
     Do mundo dos homens e dos próprios homens apenas avistaremos a verdade do que nós próprios somos, o significado dos nosso gestos e actos, a razão de ser da substância com que edificamos o nosso hábito de viver e, mesmo estas poucas auto-verdades só nos serão reveladas se aquietarmos a mente e sondarmos verdadeiramente o nosso mundo, não somente aquele que o pensamento e a emoção nos enunciam, de nós para nós próprios, mas também o que vemos espelhado nas faces dos que encontramos no caminho, na obra que construímos, nas escolhas que fazemos e nos sonhos que perseguimos ou abandonamos.           
     Até para nós mesmos somos, pois, enigma, até o nosso rasto nos escapa, até a nossa sombra empana o brilho da nossa luz, quando tentamos ter a certeza sobre as razões dos nossos actos. Nada há, de facto, que possamos realmente conhecer. «Eu sou eu e a minha circunstância», disse  José Ortega y Gasset, sintetizando de modo preciso, e contudo ambíguo até ao cerne, o que necessitamos conceptualizar para podermos dizer o que somos: porque a minha circunstância é um intrincado múltiplo e vário de seres e situações, a minha circunstância é uma plêiade de momentos e de épocas, de sonhos e de evanescências, de miragens e súbitos despertares! E eu, no meio profuso da minha circunstância, vario, uma e muitas vezes, num só dia, numa só hora, na efemeridade praticamente infinita do átomo do tempo e nunca agarro senão a superfície insignificante de que sou e não sou feita, qual instantâneo de câmara oculta, qual parangona de jornal sensacionalista, qual imagem animada de qualquer noticiário.

Uma resposta to “Insignificâncias”

  1. Pedro Says:

    Grandes verdades, sobre não poucas nem pequenas insignificâncias com que se manipulam as multidões e se as alienam de potencialidades bem mais harmoniosas, profundas e utéis à marcha da humanidade.Faz dó ver onde chega ora a intolerância, ora a ganância, ora a superficialidade dos agentes mediáticos, informativos, políticos e como isso acaba por marcar, por vender, por massificar…Sim, resistirmos à manipulação contemporànea, insidiosa, derrubante, partidária, de lobies, é bem difícil. É hoje a obra…Força pois com os seus artigos ora criativos ora de denúncia das vestes falsas com que se fabricam reis nus, e parabéns pelo seu fundo humano, solidário, sem dúvida aspirando e merecendo ir mais fundo que a tábua raza do ser superficial, ou a espuma efémera e cor de rosa, para conseguir alcançar as profundidades transparentes e rítmicas da alma, aí onde a consciência pode por momentos recuperar a sua identidade real e sentir-se eixo e coluna de ligação entre o céu e a terra, o corpo e o espírito. Sem dúvida somos o Eu sou, e as circunstâncias. Saibamos pois harmonizar os ambientes, as circunstâncias interiores e exteriores para que o melhor de nós possa vir ao de cima, e para que não fiquemos presos nas aparências e transitoriedades e consigamos abrir esse olho espiritual que comunga e irradia a luz da verdade…

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