O FAROL

                                                  
 
 
 
O FAROL
 

       W. N. subia as escadas precipitadamente. A respiração arfante tanto poderia traduzir cansaço como ansiedade e contudo os olhos escuros e velados por uma sombra errante de melancolia e audácia não traíam o sentimento profusamente expresso no tremor dos dedos, na incerteza dos passos, na curva acentuada do dorso que o obrigava a segurar-se firmemente ao corrimão oscilante. No segundo patamar parou bruscamente e levou a mão à testa como se quisesse expulsar dali o fantasma de um pensamento e essa testa, que alvejou por instantes ao clarão indeciso de uma réstia de luz filtrada pelo vidro do pequeno postigo da trapeira, revelou uma fronte surpreendente de cor marfínica, sólida e larga como se houvesse sido talhada em mármore e nenhuma ruga traía inquietação, nenhum suor perlava o cetim da pele: dir-se-ia estarmos perante uma face de menino! Toda a cabeça dele era, aliás, de uma candidez angélica e o rosto, coroado de cabelos fartos penteados para trás, anunciava corporeamente a intangibilidade profunda do solilóquio.

       Prosseguiu a subida, agora a um ritmo mais célere mas também convulso, como se o ruído das passadas, trilhando areias e pó, fosse o sinal audível do estertor mental que assim o atirava escada acima.

       O vestuário, descuidado, ainda que denunciador de um certo tipo de pessoas para quem a estética, e não o luxo ou a ostentação, comanda as linhas da vida oscilava-lhe em torno dos membros, fruto, decerto, do uso continuado, pois os tecidos primavam pela simplicidade; ou então havia emagrecido e não pudera ou não quisera ajustar o fato às novas dimensões.

       W.N. ia fazer uma visita e não estava habituado a semelhantes rituais da sociedade pois era praticamente um recluso voluntário, muito mais quando, por razões alheias à sua vontade, se via constrangido a habitar na cidade. Nos primeiros tempos, agradava-lhe o ruído do trânsito e das pessoas, estimulava-lhe o pensamento sorver pelas narinas os eflúvios em mescla da civilização e podia caminhar durante horas por avenidas e vielas sem notar o correr do tempo. Esta sensibilidade eufórica não durava mais do que um dia ou dois, muitas vezes era acometido de suores frios e de tonturas, bruscamente, quando dera ainda poucos passos pela calçada, ou mais adiante, quando já se perdera no tumulto: nos dois casos tinha dificuldade em orientar-se, olhava perdido à volta, os olhos arregalavam-se-lhe e então sabia que estava na hora de mergulhar nas suas quatro paredes. Nunca pedia ajuda a quem com ele cruzava e o olhava com comiseração, espanto ou desprezo, aprendera a dominar os picos de ansiedade destes momentos que aliás sabia poderem chegar a qualquer instante. Encostava-se ao muro de uma vivenda ou à grade de um pátio, baixava a cabeça um minuto ou dois e, quase recomposto, levantava a cabeça e às apalpadelas, como se tivesse cegado, encontrava sempre o seu destino. Este recluso decidira sair, portanto,  num dia de misoginia, paradoxalmente para quebrar as correntes do seu próprio e auto emparedamento e ali estava, arfante e agora muito pálido, frente a frente com uma porta pintada de verde, para além da qual estaria o objecto da sua visita.

       W.N. recuou e preparava-se para descer, no reconhecimento da impossibilidade psicológica de apertar a campainha que parecia, à sua mente confrangida, ter as dimensões do mundo inteiro. A meio do patamar parou, poisou a seu lado a pasta de couro castanho que transportava e tirou do bolso um lenço branco a que limpou primeiro a testa, depois a boca e por fim as mãos, finas e longas, do mesmo tecido marmóreo da fronte.  A luz da trapeira incendiou-lhe o olhar, e agora havia uma faísca demente nas pupilas dilatadas, uma faísca de inteligência fora do comum; e no entanto, o corpo, de estatura elevada enquanto subia, decrescera, quase sumira na indecisão do gesto, na corcova acentuada do dorso. Não chegou, contudo, a descer. Um súbito lampejo de energia fê-lo erguer a fronte e, pela segunda vez, enfrentou a porta verde, descascada e rota aqui e ali, e, com uma inesperada firmeza, apertou a campainha.

       W.N. estremeceu quando lhe foi devolvido o rugido estertoroso do toque subterrâneo, como se estivesse prestes a invadir o antro de um ogre, a gruta sacrossanta de um eremita. Contudo, a porta abriu-se de par em par, com uma facilidade e limpeza que não lhe parecia possível minutos antes e um vulto gracioso de mulher revestiu de luz o espaço desassombrado.

       «É esta então a minha leitora?, pensou, confuso e descrente, com um travo de lágrimas na garganta opressa, «Foi para ela que escrevi todos os meus aforismos e apóstrofes?»

       Mas não teve tempo de fazer qualquer gesto: com meiguice, a mulher pegou-lhe no braço, conduziu-o para o interior da casa e fechou suavemente a porta atrás de si.

       Apesar da pobreza da escadaria e dos patamares, a sala onde entraram era fresca e requintada, entrava pelas janelas abertas uma luz rica de princípio de Outono e os sofás de veludo cor de mel, as mesas de madeira nobre, as estantes repletas de livros, e as plantas, plantas de cores luxuriantes e no entanto deliciosas de sugestões primitivas teciam um halo mágico que, de imediato, transformaram aquela aventura exasperante na cidade tumultuosa e, depois, no delírio sofrido da ascensão pelos degraus rangentes,  num pesadelo agora desvanecido.

       A.S. indicou-lhe vagamente um lugar e W.N. sentou-se delicadamente, como se não ousasse deixar qualquer marca de si no espaço que franqueara e lhe parecia uma habitação sagrada. Olhou a sua anfitriã, não ousou proferir qualquer som, esperou que a voz dela quebrasse o encanto ou desfizesse o enigma: «Não, não é possível que aquela jovem franzina, de olhos azuis e cabeleira fulva, de pele diáfana e branca e gestos de dançarina seja, afinal, a minha única leitora, aqui, na grande cidade de V.! Um homem, sim, um fauno barbudo, um gigante de olhar sinistro, um terrível Cagliostro, tudo isso era esperado por detrás da porta temida, pois esses  mesmos são os destinatários preferenciais dos meus discursos sibilinos…mas aquela deusa, aquele ser volátil e sereno…não, não é possível, enganei-me!»

       A.S. sentara-se num cadeirão em frente do visitante, deixando as mãos abertas sobre o regaço. E, quando o silêncio estava prestes a  transformar-se numa  parede que nenhum deles poderia transpor, caso lhe consentissem a chegada, A.S. curvou-se um pouco em direcção a W. N. e disse: «A que devo a honra da sua ilustre visita?» Perplexo, o visitante olhou à sua volta, em direcção à janela aberta para um céu azul esbranquiçado e murmurou: «O meu leitor…o meu único leitor…vive num farol…», «Um farol?», respondeu em voz aguda A.S.,«Um farol? Mas chegue aqui, venha à janela: a minha casa pode bem ser o farol de que fala!», «Não, não! É um faroleiro mesmo, não usei a palavra farol como imagem!»

       Desta vez a fronte marmórea de W.N. perlou-se de suor, os ombros abateram-se e o olhar perdeu-se numa névoa cinzenta: «Não pode ser a minha única leitora…não pode!», «Porquê? Porque não me permite ser a sua leitora e porque não posso ser a única?», «Uma mulher…uma mulher…»

       A.S. levantou-se e deu uns passos nervosos pela sala, foi até ao fundo recolheu da mesa de leitura um livro aberto, colocou o dedo entre as páginas e dirigiu-se ao sofá onde W.N. se deixara ficar, absorto. «“De tudo o que se escreve, apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito”. Ainda pouco mais li do que esta frase do seu livro, quando quero seguir em frente experimento…experimento…», «O quê? O que experimenta?» A voz de W.N. soou, grave e profunda no silêncio da sala, e os olhos, agora límpidos de um castanho de âmbar, aveludado e cristalino, emanavam surpresa e júbilo. «Sei bem que é uma metáfora…”escrever com o sangue” mas as implicações desse gesto…os efeitos dessa escrita…as metáforas sustentam-se no significado literal, sem isso nunca as entenderíamos. E então…» A.S. ficou calada, com o livro fechado entre as mãos, como se não conseguisse formular em palavras os pensamentos. W.N. levantou-se, endireitou as costas, procurou nos bolsos interiores do casaco e com sofreguidão retirou os óculos, redondos, de armação metálica e aproximou-se de A.S. e do livro que ela segurava vigorosamente. «As minhas metáforas não foram escritas para si! O sangue de que falo não deve cair sobre a sua cabeça!», «Porquê? Sim, porquê? Só porque eu, a leitora, a sua única leitora, afinal, não passo de uma mulher?» Pela primeira vez havia sarcasmo e dor na voz de A.S. e uma auréola  de solidão caiu-lhe na cabeça, bruscamente privada do seu resplendor fulvo. «Sim, sim, por ser mulher, não me entendo com as mulheres, não posso acreditar que elas me entendam! E aí está: parou na minha metáfora do sangue e da escrita, não conseguiu avançar na leitura…as mulheres e o sangue…as mulheres e o sangue não combinam!» «Não, eu li, ora oiça: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele, pronto para a guerra, ela, para a maternidade…” e também: “Vais ter com as mulheres? Então não te esqueças do chicote!” Mulheres e sangue não combinam? Maternidade, chicote…agora pense comigo: quem serão afinal os especialistas em sangue?»

       W.N. dava passadas vigorosas pela sala e depois parava e puxava para trás os cabelos, que ao mesmo tempo desgrenhava, e olhava a sua única leitora com uma expressão alucinada. Ela percebeu a inquietação do seu visitante, dominou o início de azedume que a acometera e aproximou-se dele: «Venha, sente-se, converse comigo! Esqueça o facto de eu ser mulher, pode ser que o sexo não seja afinal a razão das minhas perplexidades, pode ser que eu seja uma especialista em sangue!»

       Ele deixou-se levar até ao sofá e ambos ficaram sentados, desta vez,  lado a lado, olhando numa espécie de conspiração tácita o livro aberto: “De tudo o que se escreve apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito.”

      

 

 

Uma resposta to “O FAROL”

  1. Pedro Says:

    Escreve com o teu sangue e descobrirás que ele é o espírito.spiritus, sopro e alento que anima os animais e os humanos.escreve com força, com alma, com sangue ou vitalidade.com a tua própria vida, sentidamente.escrever com sangue, quantos o sabem fazer?os que sofrem, os que aspiram, os que lutam, os que acreditam verdadeiramente, os que se esforçam por transmitirEscrever com sangue, escrever com amor, com toda a alma e forças, sacrificando tudo por isso, em que se acredita, quer, se ama.Escrever com sangue, não só dos mártires ou em nome deles, ou na memória sofrida, ou na esperança invencível, mas dotando o escrito com vida, palpitação e capacidade de animar quem lê.Escrver com sangue, com consciência de que todo o acto, palavra e escrito se desenha no céu em letras ígneas.Escrver com sangue, com o fogo interior, das nossas aspirações e lutas e do grand fogo cósmico que tudo perpassa e inspira.

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